Diretor de ‘Valsa Nº6’ relembra aposta em boneca para protagonizar texto de Nelson Rodrigues: ‘Risco grande’

Luiz Maurício Monteiro

Além de manejar a boneca, os atores ainda fazem as vozes das memórias dela Fotos: Rodrigo Castro/Divulgação

Além de manejar a boneca, os atores ainda fazem as vozes das memórias dela Fotos: Rodrigo Castro/Divulgação

Em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, às quintas e sextas, sempre às 20h, até 10/06, o espetáculo “Valsa Nº6” é um texto de Nelson Rodrigues, assim como muitos outros Brasil afora, porém, com uma peculiaridade: a intérprete da protagonista Sônia é uma boneca. Esse é mais um projeto da Cia. Teatro Portátil que tem como principal característica justamente a linguagem de animação, que neste caso, é a manipulação direta, já que a boneca é controlada pelas mãos de três atores. No entanto, a aposta nessa técnica para uma obra rodrigueana, que hoje se mostra acertada, começou como um grande ponto de interrogação na cabeça dos idealizadores.

Durante o processo de criação, em 2012 (ano da estreia), o diretor Alexandre Boccanera, junto da produção e do elenco, chegou a se questionar sobre o uso da boneca. Não pela técnica em si, já que eles tinham experiência nisso, mas, sim, pelo caráter de poema dramático do texto escrito em 1951 por um dos maiores autores do país. Mas alguns anos e quatro protótipos do brinquedo depois, não restam dúvidas sobre o êxito da iniciativa.

Fundador da Cia. Teatro Portátil, Alexandre Boccanera posa com a boneca Sônia

Fundador da Cia. Teatro Portátil, Alexandre Boccanera posa com a boneca Sônia

– Ao longo de toda a pesquisa, sentíamos que era arriscado. Hoje, na quarta temporada, percebemos como foi bacana a investida. Mas na época, chegamos a achar, sim, que era um risco grande – admite Boccanera, em entrevista ao RIO ENCENA, frisando ainda que o termômetro no caso é o espectador: – A gente sente a reação do público. Eles conseguem montar melhor o quebra-cabeças da peça. Isso nos dá uma noção de que ficou legal.

Além da linguagem de animação, outro fator que ajuda nessa compreensão por parte do público é adaptação no texto que deixa de ficar concentrado num personagem só, ou seja um monólogo, para ser desmembrado entre a boneca e os atores, Guilherme Miranda, Ana Moura e Julia Schaeffer, que a manipulam. No palco, o trio faz as vozes que permeiam os pensamentos de Sônia, uma menina morta aos 15 anos, que fica tentando resgatar memórias do que passou antes de falecer.

– Ela tenta remontar essas recordações e em alguns momentos lembra da mãe, do médico, do Paulo, que era um amor platônico dela… E essas vozes são feitas pelos atores – explica o diretor, que ainda usa vídeos em cena para ilustrar as memórias de Sônia.

Depois de fundar a cia. em 2005, Boccanera já dirigiu outros espetáculos como “2 Números” e “As Coisas”, que também envolviam animação. O único que não teve bonecos foi exatamente outra obra de Nelson: “Bonitinha, Mas Ordinária”, encenada em 2015.