Diretor César Augusto fala sobre texto ácido de Sarah Kane em ‘Crave’: ‘Escancara a vulnerabilidade do ser humano’

Luiz Maurício Monteiro

Rogério (E), Elisa, Alexandre e Maria interpretam vozes e não personagens Foto: Fernanda Portella/Divulgação

Falecida precocemente em 1999, com apenas 28 anos, a inglesa Sarah Kane escreveu somente cinco peças. Entretanto, apesar do currículo curto, ela conseguiu se tornar um dos principais nomes (senão o principal!) de um movimento dramaturgico que ficou conhecido como In-Yer-Face Theatre, em tradução livre, algo como “na sua cara”. Ou seja, um texto que escancara. E no caso de suas obras, a luz é lançada sobre a essência humana. Exemplo deste estilo cru de escrever, “Crave” (ou “Ânsia”) ganhou uma montagem brasileira que estreia na próxima sexta-feira (08), às 20h, no Sesc Tijuca, sob direção de César Augusto, um admirador da escritora.

Em entrevista ao RIO ENCENA, Cesar explicou que o texto de “Crave” – assim como Blasted” (1993), “O Amor de Fedra” (1996), “Purificados” (1998) e “4:48 Psychosis” (1998), os outros textos de Sarah – busca evidenciar realidades do homem e da sociedade que muitos preferem, sistematicamente, ignorar.

— Ela escancara a vulnerabilidade do ser humano. Acho que essa seria a palavra. Escancara o que ele tem de cruel, de raiva, de ódio… A Sarah trabalha com um humor negro, até escatológico, que vai penetrando por meandros que muitas vezes colocamos para debaixo do tapete. Mas não é só isso. Tem amor também (risos) — pondera César, traçando um paralelo entre Sarah e um dos maiores dramaturgos do Brasil: — Nelson Rodrigues é um que faz isso também.

Cesar Augusto dirige o espetáculo “Crave” Foto: Divulgação

Abusos (sexuais, psicológicos), violência e outras mazelas da sociedade e das relações humanas são tratadas em “Crave” de modo peculiar: sem cenário, espaço, tempo ou sequer personagens. Alexandre Galindo, Elisa Barbato, Maria Adélia e Rogério Freitas interpretam vozes intimamente interligadas dentro de uma trama feita de fatos e possibilidades. Tal subjeção, observa César, dá a possibilidade a cada espectador de ter a sua própria percepção de um mesmo espetáculo.

— Não há narrativa, mas um quebra-cabeças. E conforme as pistas vão surgindo, o público vai tirando as suas conclusões.Estas pistas fazem com que o desenvolvimento da trama aconteça, mas é necessário o público para que isso ocorra em cena. Essa é a genialidade da Sarah! Como não há uma narrativa clara, as frases estão soltas. Mas quando se juntam, constroem uma trama. Então, é possível que cada espectador crie, sim, a sua própria trama — ressalta.

Ainda sobre o público, seria possível os espectadores terem algum tipo de choque com o estilo “na sua cara” de Kane? Conhecedor do público carioca do alto de seus mais de 30 anos de carreira, Cesar, que é membro da Cia. dos Atores e diretor do festival internacional Tempo Festival, acredita que não.

— Creio que não. Sarah tem textos mais chocantes — descarta o diretor, que poderia citar como um destes “mais chocantes” o “4:48 Psychosis”, que Sarah, paciente de depressão, escreveu entre idas e vindas de hospitais psiquiátricos destacando o horário em que a maioria dos suicídios aconteceriam.

— “Crave” é mais ameno, mais trivial nesse trabalho dela sobre a crueldade. Ela vai por caminhos impregnados da alma humana e da sociedade, falando de relação abusiva, pedofilia, estupro, e dando a estes temas dimensões maiores do que apenas uma análise superficial possa apresentar. O teatro consegue tocar nestas questões e chegar num lugar mais profundo, sem cair num caminho mais novelístico, melodramático. Mas nada contra o melodrama — encerra.

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