Dia Mundial do Orgulho LGBTQI : ‘Le Circo de la Drag’ faz sessão no Rival, e atriz vibra: ‘Celebração da diversidade’

Luiz Maurício Monteiro

Vanessa entre Mateus Muniz (E), Juracy de Oliveira e Leonardo Paixão Foto: Rafael Fonseca/Divulgação

O dia 28 de junho, portanto a próxima quinta-feira, é marcado pelo Dia Mundial do Orgulho LGBTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Transgêneros, Queers e Intersexuais). Para celebrar a data neste ano, o espetáculo “Le Circo de la Drag”, cujo título dispensa maiores apresentações, fará uma apresentação única num palco que não poderia ser mais apropriado: o do Teatro Rival Petrobras, na Cinelândia, historicamente conhecido por ser casa de eventos feitos por e para gays e trans. O evento já simbólico por tudo o que reúne – o local, a estética, a data… – ganha ainda mais valor por ser realizado no Rio de Janeiro, importante polo cultural do país onde mais se mata LGBTs no mundo.

Só em 2017, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, 445 casos de assassinatos de homossexuais foram registrados no Brasil. Já estudos da ONG (organização não governamental) Transgender Europe afirmam que 868 travestis e transexuais morreram de forma violenta por aqui, entre 2008 e junho de 2016. De acordo com a mesma organização, contando apenas 2015, foram registrados aqui 42% dos 295 casos de assassinatos de pessoas trans ao redor do mundo. Enfim, números que assustam, mas também alertam de que a causa não pode ser esquecida.

— É preciso naturalizar essas diferenças ou olhar e perceber que ela existe e que deve ser celebrada, principalmente nesta data, que é um lugar de resistência. Então, para nós, essa apresentação é uma grande celebração da diversidade, para que ela se naturalize cada vez mais. Tanto em relação a casos extremos de assassinatos, como para as crianças que já trazem essa diferença e não devem ter dedos apontados para elas — analisa a atriz Vanessa Garcia, em entrevista ao RIO ENCENA.

Mesmo com sua importância para sua a cultura nacional e vocação para a diversidade, porém, o Rio foi cenário de episódios de censura protagonizados há pouco tempo pela própria prefeitura. O mais recente deles foi o veto ao espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que trazia Jesus Cristo representado por uma atriz transexual. Após a decisão a Mostra Corpos Visíveis, que tinha a peça em sua programação, migrou da Arena Fernando Torres, equipamento de responsabilidade do município, para a Fundição Progresso.

— Censura nem deve existir. Devemos ter liberdade de expressão, poder expressar nossas diferenças… É importante manter este espaço de diálogo, e o teatro provoca isso, o diálogo — comenta Vanessa.

Entretanto, apesar de ser uma atração com a cara do Dia Mundial do Orgulho LGBTQI, o espetáculo – que também vai abrir e encerrar o Rio Festival de Gênero e Sexualidade no Cinema, em julho – não se limita a falar de diversidade. Com doses generosas de ironia e deboche, Vanessa, Leonardo Paixão, Mateus Muniz e Juracy de Oliveira, que assina idealização e direção, atualizam a montagem a todo momento para falarem das questões sociais e políticas que surgem de hora em hora. A tragédia na cidade mineira de Mariana e o assassinato ainda sem solução da vereadora Marielle Franco (Psol) são alguns exemplos que devem atrair um público eclético para a apresentação única dessa quinta.

Quão importante é uma apresentação que reúne tantos elementos emblemáticos – a estética da peça, o palco, a data… – acontecer numa grande cidade do Brasil, país onde mais se mata pessoas LGBT?
É importante para a celebração da diversidade! Justamente, porque a diferença, que é algo tão natural, ainda não é bem entendida pela sociedade. O (físico teórico Albert) Einstein criou um conceito de universo, que é um “uno” dividido em vários “versos”. Então, isso está ali na física, dizendo que somos feitos de diferenças. Mas, socialmente, ainda não entendemos isso. É preciso naturalizar essas diferenças ou olhar e perceber que ela existe e que deve ser celebrada, principalmente nesta data, que é um lugar de resistência. Então, para nós, essa apresentação é uma grande celebração da diversidade, para que ela se naturalize cada vez mais. Tanto em relação a casos extremos de assassinatos, como para as crianças que já trazem essa diferença e não devem ter dedos apontados para elas. E outra importância é fortalecer o Rival, palco das Divinas Divas.

É importante também estar sempre apresentando espetáculos deste tipo depois dos recentes casos de censura por parte da prefeitura?
Censura nem deve existir. Devemos ter liberdade de expressão, poder expressar nossas diferenças… É importante manter este espaço de diálogo, e o teatro provoca exatamente isso, o diálogo. O teatro representa o que existe na sociedade, não é uma invenção. Tratamos de questões absolutamente humanas. É importante que haja essa definição das diferenças, até para que haja o respeito, mas somos todos seres humanos, seres humanos de uma mesma espécie. Precisamos criar essa empatia, e no Rio, onde a diversidade grita, não há como não lutar por esse espaço. Então o Rio, que vem destes episódios de censura, é um lugar para se resistir, sim. O trans existe e tem esse direito.

“Le Circo de La Drag” já sofreu algum tipo de censura ou resistência em algum lugar?
Não sofreu. Ainda! E espero que não aconteça nunca.

Que valores você atribui ao espetáculo? É só entretenimento?
É um espetáculo de humor, que traz o deboche. E não é só sobre a diversidade sexual, mas também sobre questões sociais e políticas que se relacionam com a vida do país todo. O artista tem essa função de olhar o quê está acontecendo e alertar uma massa maior que, digamos, possa estar sendo manipulada. A função da arte é essa. Então, eu diria que o espetáculo reúne esses dois lados: as pessoas riem, mas riem de coisas difíceis. E até choram! Em tempos tão delicados, oferecemos uma oportunidade de as pessoas verem essas coisas, mas com humor. E fazemos como se fosse uma revista, vamos atualizando… A tragédia em Mariana, a gasolina cara, a Marielle, a Matheusa estão no espetáculo. Enfim, questões que vamos vivendo, coisas sérias, mas que falamos com humor, para as pessoas extravasarem. Não queremos que as pessoas venham assistir para se familiarizar com a questão LGBT apenas, porque é para todos os públicos.

Vocês não têm um público alvo…
Não. Temos a estética e a leitura claramente de drag. Estamos no lugar da diversidade, nossos corpos representam isso, trabalhamos com o teatro rebolado, de revista, mas o “Le Circo” é para todos os públicos. Dou aulas para a terceira idade, minhas alunas vão e adoram, se divertem. Tocamos todas as pessoas porque falamos do ser humano.

Como é ser a única mulher do elenco? Foi algo planejado?
O Juracy me convidou. A gente se conheceu numa oficina da Jezebel de Carli e do Silvero Pereira, e não foi premeditado, foi do encontro mesmo. Do desejo de trabalhar juntos. O que sinto é que acontece o seguinte: sou a única mulher, mas eles querem entender as questões do feminino, me escutam quando trago isso. O Leo fala da questão do gordo, o Jura fala da causa trans e gay… Ou seja, cada um fala do que sabe como é ser. Um fala, e os outros escutam para poder compreender, ter empatia e abraçar.

SERVIÇO

Local: Teatro Rival Petrobras
Endereço: Cinelândia – Rua Álvaro Alvim, Nº 33 – Centro.
Telefone: (21) 2240-4469
Sessão: Quinta (28) às 19h30
Elenco: Juracy de Oliveira, Leonardo Paixão, Mateus Muniz e Vanessa Garcia
Direção: Juracy de Oliveira
Texto:
Classificação: 18 anos
Entrada: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia)
Funcionamento da bilheteria: Terça a Sexta de 13h a 21h; sábados e feriados de 16h a 22h
Gênero: Comédia, performance
Duração: ????
Capacidade: 400 lugares

* Segundo informações do teatro e/ou da produção do espetáculo

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