Dedé Santana estreia ‘Palhaços’ e lembra drama no início no circo: ‘Plateia rindo, e meu pai sendo velado nos fundos’

Luiz Maurício Monteiro

No espetáculo, Dedé interpreta um velho palhaço em fim de carreira Fotos: Divulgação

Ao ser convidado para atuar num espetáculo chamado “Palhaços”, Dedé Santana logo pensou: “Sopa no mel!”. Nascido no circo (seu primeiro trabalho debaixo das lonas foi com menos de um ano de idade) e oitava geração de uma família circense, o companheiro de Didi, Mussum e Zacarias no humorístico Os Trapalhões pensou se tratar de uma peça com palhaçaria, piruetas, acrobacias e afins. Entretanto, a remontagem do texto de 1970 do paulista Timochenco Wehbi, que chega ao Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, nessa quinta-feira (14), às 17h, carrega, além do humor, uma generosa dose de drama. O que, diga-se, não chega a balançar o veterano ator e comediante de 81 anos.

Afinal, ainda no início de carreira no circo da família, o niteroiense Manfried Sant’Anna viveu o nível extremo daquela velha máxima de que os palhaços podem estar chorando por dentro enquanto fazem a plateia sorrir. Diante da delicada situação financeira da família e do circo, ele se viu obrigado a adentrar ao picadeiro ao lado do irmão Dino pouco após perder o pai Oscar, o palhaço Picolino, que fora atropelado e ainda não havia sido sepultado por falta de recursos.

— Meu pai morreu no dia de uma estreia no circo, e nossa família precisava do dinheiro para o enterro. Neste dia, aconteceu de o circo estar lotado. A gente estava chorando por dentro, mas a plateia rindo. E lá no fundo do circo, meu pai estava sendo velado — recorda Dedé, em entrevista ao RIO ENCENA.

Já na tragicomédia dirigida pelo também ator Alexandre Borges, o drama é mais ameno. Seu personagem é Careta, um velho palhaço em fim de carreira recebendo no camarim a visita de um fã, vivido por Fioravante Almeida. No encontro, o jovem nota que as histórias de artista e personagem se contrapõem. Humilde, o humorista admite que questionou-se de seria capaz de encarar um desafio tão pouco comum ao que se acostumou a fazer na longa carreira.

— Quando me convidaram e disseram “palhaço”, falei “legal”. Vim do circo, minha família toda é circense… Vou fazer aquelas coisas de palhaço que estou acostumado. Pensei: “sopa no mel” (risos). Dei minha palavra que faria. Mas quando mandaram o roteiro, no que eu li, tomei um susto. Além da parte cômica, tem um drama pesado ali. Eu conheço o Alexandre desde que ele tinha 14 anos, quando fez figuração no (filme) “Saltimbancos Trapalhões”. Então, perguntei a ele se me via com condições de fazer. Ele disse “sim”. Então, topei. Mas se tiver fazendo 30% do que ele faz, já estarei satisfeito — brinca Dedé, que, apesar da carreira extensa, possui um currículo relativamente curto no teatro.

O veterano palhaço, ator e comediante divide a cena com Fioravante Almeida

Além de “Palhaços” – que passou pelas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e de São Paulo antes de chegar ao Rio de Janeiro – e da versão teatral de “Saltimbancos”, ele fez “A Última Vida de um Gato” e “Circo da Turma da Mônica – O Primeiro Circo do Novo Mundo”. E do alto de suas oito décadas de estrada, admite também ser vítima do famoso frio na barriga antes de uma sessão.

— Rapaz, isto não tem jeito. Todo dia acontece! Antes de entrar, faço minha oração, e, mesmo assim, dá o frio. Mas quando entro, vejo o público olhando para mim de uma maneira, que, com a maior sinceridade, me emociono. Me olham como se eu fosse da família, um parente. É emocionante — confessa Dedé, relembrando sua trajetória no teatro: — Eu não fazia teatro. Aí, fiz “Saltimbancos”, depois “A Última Vida de Um Gato”, que só fiz porque retrata um gay com muito respeito, e fui tomando gosto. Em seguida, a “Turma da Mônica”, que era em defesa do circo, para o circo não acabar no Brasil. E então veio “Palhaços”, que já arrebentou no CCBB de Brasília, onde ganhei até uma comenda. Os colegas que assistem, gostam muito. E como é um desafio para mim, fico mesmo torcendo para as pessoas gostarem (risos).

Tristeza pela realidade do circo

O bom humor da entrevista só é interrompido quando Dedé fala da atual situação da arte circense no país. Nomeado em 2015 embaixador do circo no país pela comissão de donos de circo, ele reconhece que a arte perdeu espaço no gosto popular e opina sobre uma possível razão para tal desinteresse.

— Antigamente, quando um circo era armado numa cidade do interior, o prefeito colocava ônibus para levar as pessoas até lá. O que ocorre hoje é que as prefeituras botam dificuldade. Por exemplo, se vou abrir uma empresa em determinada cidade, tenho que seguir um trâmite, com burocracia de documentação etc. Mas esta empresa pode durar anos. Já o circo, não. Vai ficar uma ou duas semanas. E os órgãos públicos querem que o circo tenha estrutura de empresa. E o meio mais popular e barato de cultura ainda é o circo. Não estes de fora, como Cirque de Soleil, mas os do interior, que cobram R$ 5 para sobreviver. Está uma agonia esta realidade. Deste jeito, o circo acaba em cinco anos. Me dá uma tristeza falar sobre isto – lamenta Dedé, enumerando artistas criados no circo que fizeram sucesso fora dele: —  O circo é a mãe de todas as artes. Não tenha dúvida. Você vê que grandes artistas do mundo saíram do circo. O (mexicano) Cantinflas, que Charles Chaplin falou que foi o melhor. Oscarito foi o melhor comediante que tivemos, e todos nós imitamos um pouco até hoje. Ele trabalhou com meu pai. Estes astros, que bateram recordes no cinema, saíram do circo.

Sobre a possibilidade de o teatro ser um abrigo para o circo, Dedé acredita que não seja o caso.

— Não é igual. Não tem aquela magia do circo… Eu não gostaria que o circo acabasse. Dizem que na Europa, vários circos são fixos. Só se fosse assim: muda só companhia e mantém a estrutura — sugere o eterno palhaço, na esperança de que a lona nunca seja desmontada.

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