‘Confissões de um Senhor de Idade’ – Uma auto-homenagem merecida

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Vou ao TEATRO para me divertir, para refletir e discutir, para aprender, para ampliar minha cultura e para me emocionar. De preferência, tudo isso, junto e misturado. Foi o que aconteceu, quando assisti, na última quinta-feira (29), a “CONFISSÕES DE UM SENHOR DE IDADE”, em cartaz no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro.

Tenho o hábito de ler os programas das peças a que assisto, antes de elas começarem. Aconselho a todos que façam o mesmo. Isso fará com que o espetáculo seja mais bem entendido e assimilado, além de despertar a curiosidade do espectador

Fui assistir ao espetáculo, achando que veria, em cena, apenas a biografia de FLAVIO, dramaturgicamente apresentada. Pensava, inclusive, que se tratava de um monólogo. Estava, porém, enganado e vi muito mais do que esperava.

Na verdade, FLAVIO utiliza os fatos acontecidos, em 82 anos de vida, para fazer muitas críticas e expor seu pensamento acerca do mundo, das religiões, da política, do comportamento do Homem…

Com toda a “imunidade/impunidade”, que os seus 82 anos de idade lhe conferem, ele aponta sua metralhadora giratória e aciona o dispositivo de disparo, não poupando nada nem ninguém, sem o menor pudor de se expor e sem temer julgamentos.

Faz críticas rasgadas aos políticos brasileiros e a magistrados, citando nomes, que prefiro omitir, para não tirar a surpresa. Isso provoca uma catarse na plateia, que, pode-se arriscar, em sua totalidade concorda com o ator/personagem, notando-se, inclusive, algumas ameaças de aplauso.

Também não poupa críticas às várias religiões, concentrando-se nos falsos pastores evangélicos, que atuam na TV, explorando a fé e a ingenuidade do povo menos esclarecido. Embora não cite nomes, mostra imagens, projetadas, e utiliza acessórios de cena, que denunciam os criticados. A reação da plateia se assemelha à anteriormente citada.

Faz uma comparação entre os brinquedos simples, de sua infância, com a parafernália tecnológica dos brinquedos atuais, com destaque para os eletrônicos, o que também é uma atitude crítica.

Se é para criticar, por que não tecer comentários desfavoráveis, com relação à violência disseminada em todas as mídias?

Muito corajoso, num determinado momento, FLAVIO fala que foi expulso de  um colégio de padres (chegou até a pensar em se tornar um), por ter tido a coragem de denunciar um religioso daquela instituição, que intencionava praticar pedofilia com ele.

Como ateu, paradoxalmente, tem medo de Deus, quando este invade seu quarto, e gostaria de ir para o céu, ao morrer, o que lhe é explicado, por Deus, ser impossível aos ateus. Este lhe promete, porém, vida eterna, caso ele aceitasse fazer com o Criador um pacto, que, se revelado agora, por mim, seria considerado um “spoiler”, que faria com que o espetáculo perdesse totalmente a graça, para os que ainda vão assistir a ele. Da mesma forma, sou obrigado a omitir a cena final, já que seria um outro “spoiler”, ainda maior.

Um dos aspectos mais interessantes do texto está ligado ao embate verbal de FLAVIO com DEUS, o que se dá, praticamente, ao longo de toda a peça. O ator/personagem, como já foi dito, ateu confesso, questiona o Pai sobre a sua permissão para que tantas desgraças e catástrofes tenham acontecido ao longo da história da humanidade. Pergunta-Lhe, de forma meio irônica, onde Ele estava, durante a duas Guerras Mundiais; por que permitiu as barbáries de Hitler, o ataque às Torres Gêmeas; as milhares de mortes, causadas pela gripe espanhola e a peste negra… E, no meio de tantas desgraças, não perde a oportunidade para aplicar o seu humor leve, incluindo, na relação das “catástrofes”, o comando de Dunga, na Seleção Brasileira de Futebol.

A melhor de todas as críticas, do ponto de vista de um ateu (não é o meu caso), a DEUS é quando FLAVIO desenvolve um raciocínio, que merece, sim, uma reflexão, mesmo para os cristãos: se já estava escrito que Jesus morreria, aos 33 anos, para salvar a humanidade, por que sua mãe, Maria, não o entregou, logo, a Herodes, quando bebê, para ser morto, o que pouparia a vida de centenas de crianças com menos de dois anos, como está na Bíblia?

Também achei genial a cena em que ele sugere a DEUS que, como mandara seu filho, Jesus, expulsar os vendilhões do Templo, também fizesse o mesmo, ou algo parecido, com os falsos pastores evangélicos, que vendem de um tudo, na TV, os maiores absurdos, incluindo lotes do céu.

Com relação à sua trajetória pessoal e artística, vários momentos lindos e emocionantes marcam a peça, como, por exemplo, quando FLAVIO fala do divertimento que sua mãe armava, para as crianças da rua, esticando um lençol numa janela, com uma luz por trás, revelando, em sombras, um “teatrinho primitivo”, feito pelo protagonista e seus irmãos. Isso, antes do advento da televisão.

Em outro momento, confessa que, desde criança, sonhava ser artista, quando via o “cineminha aos domingos”. Eu também, FLAVIO, passei por essa fase, assistindo às chanchadas, da Atlântida, nas matinês de quinta-feira. Sonhava, um dia, ser o Cyl Farney. Fiquei muito tocado nesse momento.

Já rapaz, faz referência à sua passagem pelo emblemático Grupo de Teatro Arena. Pena que foi uma citação bem superficial; merecia um pouco mais de aprofundamento, pela importância da efeméride.

Como ator, faz piada de si mesmo, ao dizer que já representou uma galinha, uma árvore e um burro, dentre outros personagens insólitos, tudo ilustrado em “slides”, e acrescenta que, na vida “todo mundo representa”.

Uma das cenas mais comoventes, que provocam lágrimas, é quando FLAVIO faz um pedido a DEUS: que fizesse ressuscitar tanta gente querida, cujas imagens vão aparecendo, projetadas, enquanto ele as nomeia. A primeira delas é a da sua querida irmã Dirce Migliaccio, que aparece caracterizada de Emília, do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, personagem que marcou a vida artística desta.

Da mesma forma, FLAVIO provoca muita comoção, ao se lembrar de suas duas grandes atuações, como Tio Maneco e Xerife, personagens dedicados às crianças.

O primeiro vivia suas aventuras num seriado, levado ao ar pela TV Cultura, “O Super Tio Maneco” (1978), baseada num filme, “As Aventuras do Tio Maneco”, dirigido pelo próprio FLAVIO, em 1971.

Xerife, personagem de FLAVIO, fazia dupla com Paulo José (Shazan), num seriado transmitido pela TV Globo, também na década de 70. O seriado usava uma linguagem com elementos do circo, veiculando mensagens educativas.

O humor leve, quase ingênuo, que lembra muito a linha de “Os Trapalhões”, FLAVIO levou para o palco, em “CONFISSÕES DE UM SENHOR DE IDADE”, em que ele não faz uso de piadas de baixo nível, chegando, no máximo, a falar de um “recall sexual”, que estava pretendendo fazer, com todas as mulheres com quem havia feito sexo, durante toda a sua vida. Mas sem a menor apelação.

No roteiro, DEUS invade o quarto de FLAVIO, levando, nas mãos, uma cópia de uma autobiografia que o protagonista estava escrevendo e vai conferir o que lá está escrito, além, é claro, de lhe fazer a já mencionada proposta de um pacto, que você só conhecerá se for assistir à peça.

O espetáculo é muito bem cuidado, do ponto de vista técnico.

O cenário revela o quarto de FLAVIO, bem simples, e um escritório domiciliar, conjugados, Nele, há um quase inexplicável varal, com lençóis estendidos, nos quais são feitas projeções, muitas e de boa qualidade e com precisão, inclusive de charges, feitas por FLAVIO, outra de suas habilidades artísticas A explicação para a presença dos lençóis em cena é dada, a DEUS, num determinado momento, mas não me pareceu muito convincente; mas isso é apenas um detalhe. Embaixo da cama, espalhados pelo chão, livros empoeirados, incluindo uma Bíblia.

O texto é bastante interessante, bem escrito e acessível à compreensão de qualquer pessoa, sem rebuscamentos, tendo sido usada uma linguagem coloquial, mas de bom nível.

A direção, também de FLAVIO, é bem satisfatória, já que o texto não oferece oportunidades de grandes invenções nem as pede. Tudo trivial e correto.

Quanto à interpretação da dupla, nota-se um desnível entre os dois atores, o que não chega a ser nenhuma novidade, uma vez que é um grande desafio, para qualquer ator incipiente, contracenar com um “divo” da representação.

Enquanto FLAVIO dá um “show” de interpretação, com muita naturalidade e realismo, LUCIANO PAIXÃO se esforça bastante para corresponder ao papel, porém deixa um pouco a desejar, uma vez que construiu um DEUS irado (não é gíria; é “cheio de ira” mesmo), raivoso, falando num tom monocórdio, quase gritando, o que não me pareceu adequado ao personagem e às situações. Houve um pouco de exagero, creio, por parte do ator, o que poderia ter sido corrigido pela direção. Talvez um diretor que não estivesse atuando pudesse ter reparado melhor nisso.

Os figurinos, criados pela dupla de atores, são interessantes, assim como a luz, de JORGE MENDES, e a direção musical, de MORGANA MICHELE.

O espetáculo nos remete, ainda, a um tom de nostalgia, muito agradável, fazendo voltar, para anunciar o início da peça, as famosas pancadinhas de Molière. Fazia tempo, não as ouvia. Bem melhores do que algumas sirenes desagradáveis.

“CONFISSÕES DE UM SENHOR DE IDADE” é uma auto-homenagem merecida, à qual todos nós nos associamos, em reconhecimento ao que, de bom, representa FLAVIO MIGLIACCIO, para a arte da representação, em qualquer que seja a mídia, mas, em especial, no TEATRO.

Recomendo o espetáculo, que é uma grande CELEBRAÇÃO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.