Complexidade de ‘Nascituros’ mais encanta e diverte do que assusta

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no CCJF, “Nascituros” é uma peça de difícil apreensão, que nos faz sair do teatro pensando em diversos temas, sob diversos ângulos. A história contada de maneira não linear, com idas e vindas,suspensões e apartes, ao mesmo tempo desvia o espectador do enredo e o aproxima daquilo que parece ser o cerne do texto: como a relação a dois passa por uma perspectiva individual.

O cenário de Sátiro Nunes se utiliza muito do próprio teatro, que assume a função de espaço cênico, aí incluída a plateia. No palco, as araras de figurinos também contribuem para a noção de “espaço vazio” de Peter Brook: um convite a infinitas possibilidades. Prático, barato e tudo a ver com a proposta da peça. Muito bom!

Os figurinos de Cristina França brincam com estas possibilidades. Do casual ao onírico, procuram dar conta de tudo o que a peça abarca. Com as araras a mostra o tempo todo, é interessante tentar adivinhar o que vem a seguir, sobretudo diante da narrativa não linear.

Os 4 atores, Bruno Marques, John Marcatto, Mariana Bridi e MarilhaGalla alternam os personagens, em um jogo que brinca com a irrelevância de associar as reflexões suscitadas a uma relação hétero ou homoafetiva. No plano mais profundo, nos mostram como é a nossa percepção que molda como a outra pessoa nos afeta.

É curioso notar como o texto de John Marcatto, e sua tradução cênica dirigida por Victor Fontoura, têm a preocupação de enfocar a diversidade de visões possíveis acerca de um mesmo acontecimento não só através do enredo e de uma narrativa em elipse, mas também a partir de uma poética que cruza e congrega personagens, de modo a confundir nossa apreensão habitual:causal e, na maior parte dos casos, psicológica.

Para além das ousadias e originalidades da montagem, vale ressaltar as ótimas tiradas de humor, irônico, sarcástico, assim como a iluminação de Poliana Pinheiro, que recorta e delineia esse entrecruzamento de percepções e personagens. São tantos caminhos para a compreensão de tudo o que nos é apresentado que, ao final da peça (já resilientes de encontrar umesclarecimento), nos surpreendemos com o desfecho (ou só mais uma explicação possível?), relativamente “simples” diante das possibilidades criadas.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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