‘Como se um Trem Passasse’ – O Profundo em forma de simplicidade

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

E cá estou eu, de novo, batendo na mesma tecla, dizendo que, no momento, na Argentina, pode estar faltando tudo, menos dramaturgos competentes, da melhor qualidade. No Uruguai também. E não precisa viajar aos dois países vizinhos, para comprovar isso, uma vez que, nos últimos dois ou três anos, principalmente, muitos produtoresdiretores e, até mesmo atores brasileiros têm viajado àqueles dois celeiros de grandes autores, onde assistem a excelentes espetáculos, compram os direitos, para montá-los no Brasil, e nós, amantes do bom TEATRO, é que lucramos, com magníficas montagens. Poderia citar vários exemplos. Do Uruguai, o que dizer de “Tebas Land” e “A Ira de Narciso”, por exemplo, duas obras-primas, ambas escritas por Sergio Blanco? Aquela, detentora de inúmeros prêmios, às vésperas de emplacar a terceira temporada, no Rio de Janeiro (Teatro PetroRio das Artes); esta também, em segunda temporada, no Rio, no Teatro FIRJAN SESI Centro, depois do sucesso que já obteve, de público e de crítica, na primeira, recém-encerrada. Aliás, ambas foram, praticamente, unanimidade, entre público e crítica. Da Argentina, vou me fixar, apenas, na peça que é matéria desta crítica, ainda que tantas outras merecessem destaque: “COMO SE UM TREM PASSASSE”, cuja sessão para convidados aconteceu recentemente, no dia 12 de março (2019), e que está em cartaz no Teatro Poeirinha.

Trata-se de um dos melhores espetáculos em cartaz, no momento, no Rio de Janeiro, e, certamente, fará uma bela carreira e receberá indicações a prêmios, tão robusta é a sua qualidade.

 

SINOPSE

 

“COMO SE UM TREM PASSASSE” é uma comédia dramática, escrita, em 2014, pela argentina LORENA ROMANIN, que aborda a relação vulnerável de uma mãe e seu filho pós-adolescente, deficiente intelectual, que deseja a vida com paixão e profundidade.

A mãe, SUSANA (DIDA CAMERO), superprotetora e medrosa, transmite ao filho, JUAN IGNACIO (CAIO SCOT) os seus receios e a impossibilidade de alcançar sonhos.

A chegada de uma prima, VALÉRIA (MANI HASHIMOTO), da capital, evidencia fissuras na situação fechada em que vivem mãe e filho, muda as relações na casa e abre a perspectiva de que desejos se realizem.


Depois de terem assistido, em 2018, à montagem portenha, dirigida pela própria autora do texto, dois jovens e talentosos atores / produtores brasileirosgrandes idealizadoresCAIO SCOT e JUNIO DUARTE, completamente encantados com a peça – e não era sem motivo -, principalmente por sua comunicação direta com o público, negociaram e fecharam a compra dos direitos de montagem entre nós. Vale a pena dizer que ela está em sua quinta temporada, na capital argentina, com elogios da crítica. Aqui, de certo, não será diferente, a começar por mim. O texto de LORENA foi montado na Espanha, onde teve sua estreia mundial, e, para este ano (2019), estão previstas novas montagens, em mais quatro países de língua espanholaPanamá e Peru, com o elenco originalargentino, e seus direitos de montagem e exibição já foram vendidos para o Uruguai e o México.
O texto é um primor. E os demais elementos desta encenação, sobre os quais falarei, detalhadamente, adiante, seguem a mesma linha. Quando uma dramaturgia se apresenta como uma “comédia dramática”, isso já é motivo para despertar, em mim, muita curiosidade e interesse. Gosto bastante do gênero, dessa mistura tão contraditória. Lendo a sinopse da peça, que está no corpo do “release”, enviado por MEISE HALABI (ASSESSORIA DE IMPRENSA), senti vontade de assistir a ela na hora, mas soube conter minha ansiedade e o fiz na sessão para convidados, na última 3ª feira (12 de março de 2019). Vivenciei uma espécie de “catarse”, assistindo a um espetáculo candidato a ser considerado um dos melhores do ano, na temporada carioca de 2019. Disso não tenho a menor dúvida.

dramaturgia aborda, nas entrelinhas, ou mais diretamente, muitos problemas humanos, inerentes a muita gente; nada de muita novidade, mas dos mais sérios, entretanto tudo é tratado com muita simplicidade e, até certo ponto, “leveza”, com alguns momentos mais “fortes”, quebrados por cenas poéticas, permitindo que o público entenda, perfeitamente, todas as mensagens que a sua autora deseja passar, sem muito esforço, apesar das suas muitas incursões metafóricas, de fácil assimilação, porém, e muito bem construídas. A despeito de tratar de um drama familiar, acaba havendo um equilíbrio, em função da leveza cômica dos personagens. Tornei-me um fã incondicional do talento de LORENA ROMANIN, a quem tive o prazer e o privilégio de conhecer, após a sessão de que tratamos no momento.

O roteiro aborda temas ligados à família. Está no “release”“…ainda que se passe em um território de combate (a família), a situação pode ser triste, mas não é desoladora”. E é a mais pura verdade. Há referências e situações que nos incomodam muito, quase que nos chocam, mas é tudo feito de forma muito natural e com a intenção de não chocar, mas, sim, de provocar o espectador, no sentido de refletir sobre cada situação abordada e perceber o quanto somos frágeis, tortos, vulneráveis, ao mesmo tempo que há espaço, dentro de cada ser humano, para ser humano, empático, solidário, afetivo. Assim são os personagens: inconstantes, antagônicos, dentro de si mesmos; assim somos nós. Assim é a humanidade. E assim ela caminha…

Tudo, nesta encenação, chama a atenção do público e merece destaque, a começar pelo texto, que apresenta uma riqueza nos diálogos, na abordagem bem profunda de certas mazelas “em família” e no “eu interior” de cada personagem, cada um deles muito bem defendido pelo trio de atores, com destaque para CAIO SCOT.

CAIO, cujo trabalho eu só conhecia em papéis leves e engraçados, convence e comove a plateia, com seu JUAN IGNACIO, um rapazinho, recém-saído da adolescência, ou no final dela, que mora só com a mãe, numa pequena e pacata cidade interiorana, e que apresenta uma “deficiência intelectual”, como consta na sinopse, entretanto tal descrição, quero crer, é um eufemismo para “retardamento mental”. Ao que tudo indica – não posso me atrever a um diagnóstico -, parece se tratar de alguma coisa ligada ao autismo, com outras disfunções cerebrais agregadas. É um ser “especial”. Um personagem com tal perfil é de difícil representação, uma vez que cria facilidade para que o ator que vá representá-lo escorregue para o lado da caricatura, o que, evidentemente, não é nada agradável e não acontece aquiCAIO, no entanto, descobriu, com muito trabalho e dedicação, encontrar o ponto certo de equilíbrio, para compor o personagem, em todos os seus mínimos detalhes, sem afetação nem excessos. Não sei se há, no original, ou se foi um acréscimo, por parte do ator, na construção do personagem, mas o fato é que o JUAN que nós conhecemos, além das dificuldades na fala, apresenta um problema físico, com os dedos das mãos tortos, o que exige bastante esforço e concentração do ator, por ter de manter tal postura por 70 minutos.

JUAN IGNACIO é aquele ser puro, encerrado em seu mundinho, limitado, castrado, pelo excesso de zelo de sua mãe, talvez por uma culpa questionável, de SUSANA. Tem um comportamento infantil, fixado num trenzinho, com o qual brinca, durante boa parte da peça, que parece ser o seu refúgio, o seu “fetiche” particular. Isso é só uma metáfora; por favor, entendam. Tem dois grandes sonhos, não necessariamente nesta ordem: rever o pai, que abandonou a família quando ele ainda estava na primeira infância, e andar de trem. Há um terceiro, um elemento surpresa, revelado mais para o final da peça, mais ou menos, que não revelarei. O personagem desperta, no espectador, ao mesmo tempo, um misto de piedade e paixão, por sua condição de especial, com duplo sentido. Ele é um ser humano especial, que transpira amor. Não admite que se fale mal do seu pai, até a página cinco, quando descobre o real porquê do abandono paterno.

SUSANA é uma mulher batalhadora, uma guerreira, professora, que luta com muita coragem, para dar, ao filho, uma vida digna. Passa uma ideia de intolerante, agressiva, insensível, mas tudo não passa de uma máscara, um disfarce. Por trás daquela montanha de rispidez e impaciência, acompanhada de um sentimento de ódio e vingança, pelo ex-marido, há um ser humano que tenta se defender de todas as armadilhas que a vida lhe preparou, superprotegendo o filho, tão frágil, num atitude que soa como uma purgação por não ter conseguido prender o marido na família.

VALÉRIA é a própria metáfora do trem, que esmaga o caminho por onde passa, o que também não corresponde à verdade. Filha de uma irmã de SUSANA, é mandada, pela mãe, para passar “uns tempos” na casa da tia, depois de ter sido flagrada fumando maconha, o que a mocinha jura ter sido a primeira vez, num “arroubo da idade”. SUSANA não tem como negar o pedido da irmã, mesmo a contragosto, temendo pela má influência que a garota pudesse exercer sobre o ingênuo JUAN. Há, realmente, uma distância muito grande entre os mundos dos dois, o que, no entanto, vai sendo desconstruído, ao logo da curta convivência entre os dois, e VALE, como era tratada em família, mais atua positivamente na vidinha de JUAN do que lhe causa mal. Os dois constroem uma cumplicidade, por terem, em comum, desejos de liberdade, de voar, de se projetar num mundo que lhes é negado. JUAN, mais modestamente, quer apenas experimentar a sensação de andar de trem. VALE quer usar esse meio de transporte para cruzar a Europa.

Há, de comum, entre os três, o fato de eles enfrentarem, distintamente, dificuldades diárias, terem seus sonhos e lutarem por seus desejos, um mais que o outro, porém todos, no fundo, entendendo que falta um “trem”, nas suas vidas, que os leve dali a algum outro lugar, onde possam, talvez, ser mais felizes.

direção do espetáculo é bem correta, desprovida de grandes mirabolâncias cênicas, e facilitada, pelo fato de ter sido executada pela própria autora do texto, contando, no Brasil, com a preciosíssima colaboração de DEISI MARGARIDAassistente de direção e, também, coreógrafa.

Como o espetáculo não conta com nenhum tipo de patrocínio, é de se louvar a coragem de CAIO SCOT e JUNIO DUARTEidealizadores do projeto, de terem comprado os direitos de montagem da peça, no Brasil, e de, a duríssimas penas, terem conseguido erguer o espetáculo, às suas expensas e contando com o apoio de alguns poucos amigos.

É óbvio que, sendo assim, não há exuberâncias, na montagem, seguindo, exatamente, o que o texto pede.

Assim, temos um cenário, de DINA SALEM, que reproduz, com bastante fidelidade, uma sala simples de uma residência modesta, como a de uma família como aquela, com apenas um sofá e uma mesa com duas cadeiras e um banco. Ao fundo, uma parede, com uma janela, constantemente aberta (Uma outra metáfora?), importante na cenografia, para permitir visibilidade, ao espectador, de cenas que se passam no exterior da casa. Alguns objetos de cena, como louças e talheres, para as refeições e o trenzinho “vintage”, movido a bateria, deslizando sobre uma pista oval, às vezes, saindo dos trilhos (Olha outra metáforas aí!), e alguns brinquedinhos de plástico, como pequenas árvores e outros detalhes. Isso sem falar do Alf, um boneco de pelúcia, “animal de estimação” de JUAN.

Gostei bastante do figurino e do visagismo, de JÚLIA MARQUES. Estranhei que o figurino não mudasse, ao longo da trama, que se passa em muitos dias. Por economia, dado aos parcos recursos empregados na montagem, ou com outra intenção, a de fixar bem o visual de cada personagem, evidenciando a sua personalidade, o fato é que a “capa” constante que cada um veste está muito bem ajustada a eles. Roupa simples, do dia a dia, para SUSANA; roupa meio infantilizada, para JUAN; o típico “look” de uma adolescente “rebelde” (Praticamente, um pleonasmo.), com suas mechas azuis no cabelo, para VALÉRIA. Além do figurino, propriamente dito, as roupas e acessórios, trabalha o visagismo, uma espécie de linguagem não verbal, que serve para identificar o “eu” de um personagem estabelecendo, por assim dizer, uma ligação entre a pessoa (o ator) e quem ele representa. O visagista deve estar atento a todos os detalhes externos que ajudarão na composição do personagem“Fazendo uma comparação: o visagista seria o arquiteto, já os cabeleireiros e maquiadores seriam os executores . A construção da imagem não seria possível sem uma das partes”(Final, em destaque, extraído de Carreira Beuaty Blog.).

Com uma bela luz nos brinda RENATO MACHADO, assim como GABRIEL D’ANGELO cumpre corretamente sua função no desenho de som.

Prepare-se para dar boas gargalhadas e para se emocionar muito, também. Afinal de contas, trata-se de uma comédia dramática. Certamente, você se surpreenderá, POSITIVAMENTE, como eu me surpreendi, diante de uma montagem tão linda, interessante, comovente, fruto de muito esforço, muito suor e dedicação e, acima de tudo, AMOR AO TEATRO, que precisa, por isso mesmo, ser prestigiada, vista e, acima de tudo, RESPEITADA.

Compre logo a sua “passagem” e NÃO PERCA ESTE TREM, DE FORMA ALGUMA. ELE O/A LEVARÁ A UMA VIAGEM INESQUECÍVEL!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE