“Como se um Trem Passasse’ conquista pelo esmero, ainda que personagens caiam no lugar-comum

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo, “Como se um Trem Passasse” narra alguns dias na vida de uma casa afastada, onde moram uma mãe e seu filho, e que recebe a visita de uma prima adolescente. O enredo é bem simples e endossa estereótipos mas, mesmo assim, transcorre com boa dinâmica, e com a ajuda de bons elementos (direção, cenário, figurino, iluminação e atuações) a peça consegue manter a atenção do espectador.

O texto de Lorena Romanin coloca uma mãe “superprotetora” que cuida sozinha de seu filho “especial”. A partir da chegada de uma prima, urbana e “descolada”, para morar um tempo com eles, fica evidente que ela terá um canal de comunicação direto com o filho e que isso vai sacudir o dia a dia dentro da casa. A maneira como a peça constrói a imagem de um hábito, ao mesmo tempo em que expõe as fragilidades de mãe e filho, é muito boa. Contudo, a opção por personagens quase arquetípicos, onde a mãe aparece como excessivamente conservadora, antiquada, enquanto a prima adolescente surge como portadora de uma “modernidade” necessariamente positiva (sem efeitos colaterais), acaba tornando tudo previsível.

Felizmente, a montagem disfarça esse problema através da qualidade de seus elementos, começando pela cenografia de Dina Salem Levy: um cubo de madeira que limita o espaço cênico a uma pequena parcela do espaço total da sala de espetáculo. Só isso já nos traz a impressão, desde a entrada no teatro, de um contexto isolado. Dentro deste cubo, uma mesa e um sofá, ambientando uma típica sala humilde de interior. A porta lateral (que simula o contato com quartos e cozinha) e a grande janela ao fundo traçam a relação de oposição daquele pequeno universo om o enorme mundo que existe além. Muito, muito bom!

Os figurinos e visagismo de Júlia Marques diferenciam claramente a indumentária rural, em sua formalidade, daquela urbana contemporânea e cosmopolita, com direito a cabelo azul.

O desenho de luz de Renato Machado completa a composição plástica da simplicidade daquela casa, em todos os sentidos, por meio de uma iluminação que marca bem os momentos do dia (luz matinal, vespertina, princípio da noite, madrugada…), e ainda pontua estados emocionais.

As atuações são a cereja de um bolo construído com dedicação, ainda que sejam afetadas, em larga medida, pelo desenho bem delimitado dos personagens. Não há como não destacar a interpretação primorosa de Caio Scot, também idealizador do projeto e autor da versão brasileira do texto (ambos ao lado de Junio Duarte).

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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