Comédia dramática estreia com olhar crítico sobre o Rio de Janeiro, e autor questiona: ‘Por que ainda acreditamos?’

Luiz Maurício Monteiro

“A Praia do mel” joga uma luz sobre as mazelas do Rio de Janeiro Fotos: Nityam Fotografia/Divulgação

Paisagens deslumbrantes, pontos turísticos inesquecíveis, noites convidativas, povo hospitaleiro e feliz… O Rio de Janeiro que permeia o imaginário de muitas pessoas – principalmente turistas – é abordado de forma diferente em “A Praia do Mel”, espetáculo que estreia nessa segunda-feira (20), às 20h, na Fundição Progresso, na Lapa. Autor do texto, o poeta e dramaturgo Felipe Bustamente parte do bairro de Copacabana, um de nossos principais cartões postais, para questionar como uma cidade caótica, violenta e desigual, pode parecer “maravilhosa” aos olhos de tanta gente.

Um primeiro passo para entender tal percepção talvez esteja no lugar que soa como paradisíaco, citado logo no título da peça. A utópica Praia do Mel é acolhedora e justa, do jeito que muitos acreditam que o Rio poderia (ou ainda pode) ser. A realidade, porém, não é bem essa, o que também não impede que, na visão de Felipe, cariocas – por nascimento ou circunstâncias – se encontrem numa espécie de estado anestésico, firmes nesta selva urbana.

– Mas por que ainda acreditamos (no Rio) mesmo vivendo entulhados uns sobre os outros? Acho que ainda acreditamos, pagamos impostos e lutamos porque continuamos esperando que esta cidade ainda tenha jeito, que ainda vale a pena insistir – opina o autor, em entrevista ao RIO ENCENA.

Embora use o verbo “acreditar” na terceira pessoa do plural, ou seja, se incluindo nesta torcida carioca por dias melhores, Felipe, de 29 anos, é de São Paulo, de onde saiu há cinco. Aliás, vir de fora dos limites fluminenses, acredita ele, pode ser outra chave para compreender melhor esta relação entre o Rio de Janeiro e quem vive por aqui.

Felipe circula pelo Rio realizando intervenções urbanas, com poesia, música e teatro

– Tenho um olhar que só quem vem de fora consegue ter – ressalta Felipe, adiantando um pouco da trama: – Tem um personagem, um mendigo, que na verdade é um astronauta, que vem de fora. E ele percebe que quem está aqui dentro não nota o que está acontecendo. Então, ele aponta as contradições e os absurdos que não fazem sentido para muitos, mas que estão presentes.

Além do mendigo/astronauta, a comédia dramática conta ainda com outros vários papéis, que são interpretados pelos atores Chris Igreja, Hikari Amada, Rodrigo Salvadoretti, Samuel Paes de Luna, Thiago Carvalho e Vitor Sampaio. No entanto, é mesmo o personagem central que conduz toda a peça. E não à toa foi escolhida a figura de um pedinte.

Para construir o texto da peça, que tem direção de Jopa Moraes,, Felipe circulou diversas vezes pela cidade, o que lhe permitiu testemunhar as mais variadas situações. Muitas destas entraram no espetáculo, principalmente as que envolviam pessoas de origem humilde.

– Trabalhadores ambulantes me chamam mais atenção. São personagens que estão à margem, mas têm a capacidade de ganhar seu sustento por conta própria. Quando estou na rua, vendendo minha poesia, converso com o vendedor de paçoca, com o cara que toca música no bar… Eles me interessam porque vivem numa cidade de verdade, em situações precárias, respirando a poluição do asfalto, e não trancados numa sala com ar-condicionado.

Quando fala em “vender poesia”, Felipe se refere às intervenções urbanas que tem como atividade diária. As mesmas andanças que o ajudaram a escrever “A Praia do mel”, o permitem também levar poesia, música e teatro às pessoas em praças pública. Ao custo de contribuições espontâneas – ou no máximo R$ 15, valor de seu livro “Ricochete” – ele compartilha cultura.

– Levo poesia àquela pessoa que, provavelmente, nunca entraria numa livraria para comprar um livro. E consigo isso graças à minha cara de pau (risos). Trabalho diariamente e falo, com certeza, que sou poeta mais lido da cidade, porque nessas intervenções, distribuo meus livros. Mas não é mérito da minha poesia, mas das minhas pernas. Tenho o maior orgulho desse trabalho de conta gotas, porque não vou vender meus livros, mas, sim, levar poesia. Se fosse só para vender, venderia descascador de legumes, que daria mais dinheiro – encerra Felipe, apostando na cultura para diminuir este abismo entre o Rio de Janeiro e a Praia do Mel.