Com ótima atuação de Marcos Caruso, ‘O Escândalo Philippe Dussaert’ discute arte e limite entre ficção e realidade

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Maison De France, “O Escândalo Philippe Dussaert”, com texto de Jacques Mougenot, narra uma tensão comum na arte contemporânea: a legitimação de uma obra como “obra de arte”. Para não especialistas, entrar num museu de arte contemporânea e se deparar com uma série de quadros que não representam figurativamente a realidade, e para muitos parecem apenas rabiscos, é uma situação recorrente e sempre curiosa. O que Jacques Mougenot traz em sua peça é o cerne desta questão: o que é arte?

O personagem de seu monólogo analisa (como não especialista) a obra de Philippe Dussaert, artista que pintou o fundo dos quadros de pintores célebres, como “Ao fundo da Monalisa”, de Leonardo Da Vinci. A história do escândalo de Philippe Dussaert vai sendo gradativamente construída a partir da análise de suas obras, feita didaticamente em diálogo com o espectador. Um detalhe interessante é que Mougenot escreveu e atuou neste monólogo; o produto final, de plena autoria do ator, se me permitem o trocadilho, joga ainda mais carga dramática sobre Marcos Caruso, ator da versão brasileira.

Completamente à vontade, senhor de um grande palco que parece bem menor e mais íntimo sob sua regência, Marcos Caruso conversa com a plateia como se estivéssemos todos em um restaurante, discutindo arte. E como amigos! O tempo inteiro, o personagem do monólogo se expressa como um colega observador, e não como um crítico de arte. As mesmas questões que se colocam para nós dentro de um museu de arte contemporânea onde não compreendemos completamente o sentido daquelas obras ou seu estatuto de “arte”, assolam o protagonista, e ele divide sua opinião com o público.

Marcos Caruso, que recebe cada espectador na “Casa da França”, olha no olho de cada espectador, faz perguntas, sugere enquetes, se propõe a dar a sua opinião “pessoal” (mesmo depois do espetáculo ficamos na dúvida entre o que foi dito pelo personagem, por Jacques Mougenot, ou por Marcos Caruso), “mente” para todos nós e é uma delícia acreditar em suas mentiras! Discernir a linha tênue que separa personagem e ator(es) é inquietante e só revela a qualidade do trabalho de Caruso e do diretor Fernando Philbert.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas e sugestões, escreva para pericles.vanzella@rioencena.com.br.