Com jeito próprio de fazer teatro, Ana Kfouri fala como lida com críticas: ‘Não tenho domínio se o outro vai gostar’

Luiz Maurício Monteiro

Ana Kfouri está com 40 anos de carreira Foto: Carlos Peder/Divulgação

Sobre um adjetivo que descrevesse a profissional Ana Kfouri? “Multifuncional” caberia perfeitamente. Para além dos limites de um palco, a atriz é também professora, preparadora de atores, diretora e pesquisadora. Esta última função, aliás, é aquela que a permite desenvolver trabalhos mais autorais, com um “DNA” próprio. justamente a sua paixão. Um bom exemplo desta linha experimental é “Uma Frase Para Minha mãe”, solo em cartaz no Sesc Copacabana, no qual ela pega o texto do francês Christian Prigent e, através de uma pesquisa de linguagem, o leva ao seu modo para a cena. Mas e quando este fazer teatral peculiar não é bem recebido por um crítico? Como reagir?

Em entrevista para à seção “Perfis”, do RIO ENCENA, a paulista Ana, que em 2018 está celebrando 60 anos de vida e 40 de carreira, garante que sempre buscou lidar da melhor maneira possível com as críticas que recebeu aos cerca de 40 espetáculos que tem no extenso currículo. A receita, explica ela, é não se deixar influenciar pela opinião alheia.

— Crítica de pensadores serão sempre bem-vindas. Mas querer agradar, achar que um fracasso me fez mal, nunca! Não faço para o outro, faço porque não posso deixar de fazer. Convoco o outro para estar junto, só não posso ter domínio se ele vai gostar ou não…  é escutar ou ler e saber se posicionar. E não ficar se achando o máximo ou uma porcaria — pondera Ana, que é fundadora da Cia Teatral do Movimento, cofundadora e diretora do Grupo Alice 118 e coordenadora e professora do Curso de Artes Cênicas na PUC.

Espetáculo mais marcante da carreira?
Tem alguns marcantes. “Blasfêmeas” (1987), que me trouxe ao Rio pela primeira vez; “A lua que me Instrua” (1992), da Cia Teatral do Movimento, o primeiro que dirigi; “Comoção” (2003), com o Grupo Alice 118; “Senhora dos Afogados” (2010), de Nelson Rodrigues; “Capuleti e Montecchi” (2006), a ópera que dirigi no Theatro Municipal; “O Animal do Tempo” (2007), que marca minha volta à cena como atriz após 16 ano; “Uma Frase Para Minha Mãe”, (2018), que é o atual. Estes são alguns espetáculos que, de alguma forma,me marcaram.

Um fracasso?
Não sei se considero fracasso, mas ”Dizem de mim o Diabo” (1994), que dirigi, teve críticas bem ruins. Mas eu acho importantíssimo falarem, seja bem ou mal. Minha experiência com críticas é legal porque sobrevivo, estou à revelia, até porque não posso viver só de elogios. Nunca fui queridinha de ninguém (críticos) e nem patinho feio. E considero isso positivo, pois sei do trabalho que desenvolvo, da minha pesquisa de linguagem própria e autoral. Mas crítica de pensadores, de pessoas que nos acompanham, serão sempre bem-vindas. Mas querer agradar, achar que um fracasso me fez mal, nunca. Não faço para o outro, faço porque não posso deixar de fazer. Convoco o outro para estar junto, só não posso ter domínio se ele vai gostar ou não.

“Uma Frase para Minha Mãe” tem texto do francês Christian Prigent Fotos: Dalton Valério/Divulgação

Trabalho dos sonhos?
Pelo menos por enquanto, não tenho. Fui atravessada por este texto do Prigent, que não conhecia. Fiz “Senhora dos Afogados”, que sempre quis fazer. Só queria ter mais maturidade. Dizia que faria com 60 anos, mas acabei fazendo antes. Consegui fazer a ópera no Municipal. Teve minha volta como atriz. Depois, fiz textos do (irlandês Samuel) Beckett, que gosto muito. Enfim, são coisas que me atravessam. Neste momento, estou fazendo exatamente aquilo que preciso fazer. Vinha tentando fazer “Uma Frase Para Minha Mãe” desde 2015 e, neste momento, estou realizando o desejo de falar deste texto. Acabei de estrear, e ainda quero apresentá-lo por um tempo.

Não se vê em que tipo de trabalho?
Não faria trabalhos que tenham uma condução psicológica, mais dramática, sabe? Meu campo é mais intensivo, não intencional. Jamais faria um projeto nesse sentido. Gosto de trabalhar com o sentido trágico do teatro e não o dramático. Não que eu não aprecie. Assisto, mas não faria. Não tenho preconceito. Pelo contrário, adoro!

Como recebe as críticas em geral?
Gosto de conversar no processo de criação. Chamar artistas, pensadores, amigos que gostam da cena. É importante ter esse olhar de fora, reflexivo. Para fazer esta peça, fiz leituras públicas, para ter um retorno mesmo, saber como estava a interlocução. O que eu disse sobre crítica na outra resposta é escutar ou ler e saber se posicionar. E não ficar se achando o máximo ou uma porcaria. Ficar nessa balança do olhar do outro é ruim. Tem que ter a escuta sem querer agradar.

Um gênero de preferência?
Eu trabalho com pesquisa de linguagem. Então, não tenho um gênero. E acho que não dá mais para enquadrar espetáculos num gênero. O Pringent diz que este texto é uma poesia culpada de prosa. Isso não se encaixa num gênero. Tragédia, drama… Na verdade, gosto da cena, do que me envolve. Teatro significa você viver por ele. Como atriz e diretora, faço aquilo que me mobiliza, me inquieta. Mas como espectadora, vejo tudo.

Este é o mais recente trabalho da atriz, que tem cerca de 40 espetáculo no currículo

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
É ele dar a ver a sua própria voz, seus desejos… É ele conseguir fazer exatamente aquilo que ele veio fazer. É atuar à revelia de sucesso e fracasso, fugir daquela balança que comentei e acho equivocada. Conseguir isso é difícil. Mas quem disse que seria fácil? É difícil porque será sempre uma empreitada.

Já pensou em desistir da carreira?
Não (risos). Tive altos e baixos, mas sou muito empreendedora, estou sempre pensando uma maneira de realizar não só para mim. Gosto de realizar uma pesquisa de linguagem, dar espaço para outras pessoas… Coordenei no SESC Tijuca um programa aberto a jovens, com palco de experimentação, processos criativos abertos… Tenho essa preocupação de abrir espaço para jovens pesquisadores. Ano passado, inaugurei um centro de estudos, onde fazemos saraus, leituras, oficinas e grupos de estudos com estudantes, intercâmbio na PUC, na Unirio, no Tablado… Gosto de conhecer o quê a meninada está fazendo, o quê jovens artistas estão fazendo. Então, tenho este campo de atuação onde sou professora, preparadora de atores… O que é diferente de ser só atriz. Há excelentes atores que fazem teatro e cinema. Eu sou mais da pesquisa. Tenho essa especificidade

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Não consigo me ver em outra profissão, porque é o teatro que me abre todas estas frentes que comentei. E agora nem dá mais para mudar, já tenho 60 anos (risos).

Para encerrar, fale um pouco sobre seu trabalho atual…
É um texto muito calcado na linguagem, que não tem uma história, mas uma narrativa que vai se dando ao falar, palavra por palavra, e a partir d fala, um campo semântico enorme se abre, um campo de afetos, de pensamentos, de memórias, pondo em jogo relações com a língua materna, com a mãe, a escrita, com a inserção de um “eu” no mundo, com o mundo, e por aí vai… Nada se fixa, ao contrário, os sentidos vão escapando e ao mesmo tempo, reverberando no espaço e no imaginário de cad aum de nós, atriz e espectador. Difícil explicar, mas é um texto que vai ao encontro da minha pesquisa artística, que me possibilita aprofundá-la, que é pensar e praticar a palavra como potência, como um campo de forças, corpo e palavra e tensão e em relação.

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