Com atuação brilhante de Kadu Garcia, ‘Solo’ surpreende em pontos específicos

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro III do CCBB, “Solo” tematiza um submundo urbano, formado por quatro personagens cujas narrativas, em algum momento, se cruzam. O fio condutor e agregador está no personagem vivido brilhantemente por Kadu Garcia, que habita um cemitério e mantém uma relação íntima com a terra, o “solo”.

O texto de Fabrício Branco constrói, a princípio, histórias independentes: um coveiro obcecado pela terra e por como ela é alimentada por corpos, objetos, odores, etc; um pastor e o já canônico fanatismo associado a figuras religiosas, para quem tudo guarda uma relação íntima com a Bíblia; uma hedonista, mulher acima do peso, satisfeita com o próprio corpo e em busca constante do prazer, sentimento através do qual tenta apreender e entender o mundo; uma moradora de rua, em parte conformada, em parte revoltada com sua própria invisibilidade social. Além de aparentemente autônomos entre si e marginalizados em sua realidade, os quatro personagens apontam para um contato íntimo com a noção de origem (da vida, de si, do prazer…), sensação acentuada/provocada pelo próprio título da peça.

Toda a sala é negra e escura, com iluminação direcionada a focos específicos. Neste ambiente, o cenário de Fernando Mello da Costa parece surpreendentemente coadjuvante. Com o tempo, a peça vai revelando camadas e também o cenário adquire relevo.

Os figurinos de Ticiana Passos estabelecem bem as diferenças entre os personagens, localizando-os em contextos distintos (o coveiro cobre-se de roupas de frio, de lã, casacos… as mulheres estão seminuas e o pastor, de terno). Ajudam a passar a impressão de que as histórias não se cruzarão.

Em contraponto com a escuridão geral, os microfones são relativamente altos, ecoando a voz dos atores como uma caverna que amplia suas respectivas dimensões.

Os atores Kadu Garcia, Aliny Ulbricht, Bárbara Abi-Rihan e Jansen Castellar carregam o peso impresso por todos os outros elementos e, assim como o texto, têm na atuação de Kadu Garcia, o coveiro, seu catalisador. É ele quem dá dinâmica e nuances ao espetáculo, conseguindo não só inserir-se na estética soturna e escatológica, mas imprimir relevo a ela.

É interessante notar como texto e peça se desenrolam de maneira quase exclusivamente monocromática (em diversos sentidos), e subitamente nos surpreendem com um sobressalto destoante. Um só, grande, que gira o que foi feito até então. A montagem, especificamente (o que diz respeito exclusivamente à cena, não ao texto), deixa esta peripécia para o minuto final, que precede o agradecimento. (Não foi spoiler, ok!? Não falei o que era. Só não podia deixar de mencionar aquilo que me fez sair do teatro com um sorriso de canto de boca).

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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