Com atmosfera sombria, ‘Enquanto Você Dorme’ estreia, e diretora aposta no gênero: ‘Não tem tantas opções’

Luiz Maurício Monteiro

Este é o primeiro espetáculo de suspense do grupo Santa Víscera Fotos: Fábio Fialho/Divulgação

Praias, montanhas, bosques, parques naturais… O cenário de natureza abundante do Rio de Janeiro pouco tem a ver com uma atmosfera sombria. Nada, porém, que impedisse a Cia. Santa Víscera de vir de São Paulo ao Rio de Janeiro para fazer a estreia nacional do espetáculo “Enquanto Você Dorme”. Iniciando temporada nessa sexta-feira (18), às 20h, no Sesc Tijuca, a montagem sugere uma reflexão sobre o quão capaz de atrocidades é o ser humano a partir de três personagens sinistros que alimentam seus demônios internos madrugada a dentro, enquanto todos dormem.

Na contramão do óbvio, o grupo teve, basicamente, dois motivos para trazer para a ensolarada capital fluminense uma peça de suspense, com uma pegada aterrorizante. Além de já terem sido bem recebidos pelo público carioca – a quem consideram mais receptivo do que o paulista – em outras oportunidades, eles acreditam numa escassez de peças deste perfil nos teatros, inclusive nos cariocas.

— Este, talvez, seja um tema pouco explorado no teatro. Vemos mais em séries e filmes. E a forma de criar suspense é diferente nestas plataformas. O teatro não tem o recurso da edição de imagem, mas é vivo, tem a proximidade entre o trabalho dos atores e o público. Acho que, justamente, como não tem tantas opções, pode atrair as pessoas, gerar mais interesse – argumenta a diretora Graciane Pires, em entrevista ao RIO ENCENA.

Sobre a opção pelo Rio de Janeiro e não São Paulo – uma cidade mais cosmopolita e “selva de pedra” – para a estreia de um espetáculo com tais características, ela completa:

Os personagens da peça são sinistros e capazes de barbaridades

— Desde 2012, somos bem recebidos no Rio. Temos muitos amigos aí, já estivemos em festivais, nos apresentamos em unidades do Sesc na Baixada, no interior… Então, estávamos querendo muito fazer esta estreia no Rio por esta relação de aconchego. O público carioca é muito receptivo, até mais do que o paulista. Nossa expectativa é ótima — diz Graciane.

De volta à abordagem da peça, a diretora ressalta que não se trata de uma história cheia de elementos sobrenaturais, espirituais ou algo assim. A montagem se inspira em textos clássicos de Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant e John Collier, autores que são referência no suspense, para jogar uma aura soturna sobre absurdos oriundos do comportamento humano.

— Apesar da atmosfera de suspense, do demoníaco, a gente não quis ir pela questão do sobrenatural, mas, sim, do lado sombrio da mente humana, do que as pessoas são capazes de fazer, como opressão, intolerância, assassinatos… Ainda mais nestes tempos em que estamos vivendo, no Brasil e no Mundo. Fizemos ensaios abertos em São Paulo, e as pessoas saíam impressionadas com a capacidade do ser humano de fazer certas coisas. Então, a gente trabalha para propor esta reflexão, e não apenas o terror pelo terror – reforça.

E ao contrário do que o nome da cia. possa sugerir, a especialidade da Santa Víscera não é o terror ou o suspense. O grupo, que na verdade é do Rio Grande do Sul, mas há nove anos, é radicado em São Paulo, foi batizado assim exatamente por sua cidade de origem e também pelas características de seus integrantes. A própria Graciane explica:

— O “víscera” é porque as pessoas dizem que somos muitos viscerais no que fazemos, nossa energia é visceral. E o “santa” é porque somos da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (risos). Mas já fizemos infantis, comédias… Este é o nosso primeiro suspense – encerra.

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