Circuito de menor orçamento marca 2017; e ‘Casa Caramujo’ fica para a história

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em 2017, ausentei-me da crítica por um período para realizar parte do meu doutorado na Itália. Talvez por isto mesmo consiga traçar um perfil do ano com mais facilidade, levando em conta o que assisti e também com um olhar não tão inserido. Aliás, registro aqui que não deixamos nada a desejar ao teatro italiano, uma de nossas matrizes.

Diferente dos anos anteriores, 2017 não teve um super espetáculo para chamar de seu. Por outro lado, abrigou lindas peças do dito “teatro cult”, “alternativo”, “reflexivo”, ou qualquer outra definição que tende muito mais a reduzir as experiências teatrais do que organizá-las em gêneros. Prefiro pensar em termos de orçamento. Talvez devido à crise absurda que assola o Rio de Janeiro, as peças cujo projeto não dependia de maiores recursos parecem ter alcançado resultados muito mais contundentes. Ficam na memória do ano:

1) “A Hora da Estrela”, peça que se baseou em um romance de Clarice Lispector e foi além dos musicais tradicionais. A Definitiva Cia. de Teatro mostrou como uma década de trabalho conjunto e contínuo fazem diferença no processo criativo.

2) “A Cozinha”, no polo oposto, reuniu atores e diretor pela primeira vez. Mas com uma proposta espacial pouco comum: encenar um enredo que se passa na cozinha de uma casa, de fato na cozinha de uma casa. Teatro intimista da melhor qualidade, que precisava ser reservado por e-mail, e só aí o endereço seria revelado. Bom texto, bons atores, e proposta que sacode! Valeu pela coragem!

3) “Dançando no Escuro”: musical que marcou pelo comprometimento e seriedade. Faz tributo ao filme sem se prender a ele, e com uma protagonista que imprimiu sua digital no cenário carioca: Juliane Bodini.

4) Por último e mais importante: “Casa Caramujo” é inesquecível! Considero não só o melhor “infantil” (odeio essa separação!) do ano, como a melhor peça do ano! Sensível, divertida, reflexiva e leve, tematizando a morte.

No aguardo de 2018 com ansiedade! Que continuemos a inovar ao mesmo tempo em que lapidamos o que já temos. Estamos em um belo caminho, mesmo com uma política que joga contra. Mas lembrem-se sempre que políticos vêm e vão, enquanto obras que tocam, ficam no imaginário! E influenciam novas obras! Sigamos em frente.

Um abraço e um 2018 maravilhoso para todos nós!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

 

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