‘Chica da Silva’, mesmo com ares de palanque, é bom espetáculo e traz debate importante

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

A história (com boa dose de lenda) de Chica da Silva, a escrava alforriada que alcançou posição de destaque em Diamantina-MG (Arraial do Tijuco na época) ao ascender à alta sociedade, é relativamente conhecida por todos nós. Se não sabemos os detalhes de sua vida, ao menos seu nome não nos é estranho, como sinônimo de força e ícone da luta contra a discriminação étnica.

“Chica da Silva – O Musical” aborda esta resistência, este histórico de preconceito que se alastra até hoje, ainda que disfarçado. O texto de Renata Mizrahi traz dois universos, um passado e um atual, que se alternam. A história da Chica que conhecemos convive com a história de uma Chica atual, que é desacreditada por uma cliente quando afirma ser a dona de sua loja. Por ironia, esta cliente é a mãe de seu noivo, e quando ambas descobrem isto a situação fica muito mais delicada.

O cenário de Karlla de Luca cria um obelisco no centro do palco que funciona como limite entre cena e transição. Interessante! A tonalidade crua orna bem com os figurinos, que orbitam a mesma palheta, característica do período colonial e do ambiente rural.

Os atores têm rendimento bastante irregular, mas não comprometem a força do espetáculo, que tem no vigor da discussão sua principal digital.

“Chica da Silva” faz bem tudo o que se propõe a fazer. Mas independentemente da qualidade do espetáculo (que tem direção de Gilberto Gawronski) e da pertinência da discussão, duas questões emergem, para mim: 1 – título, que sugere uma tematização da conhecida escrava alforriada que na verdade só está ali como referência de um debate maior, este sim o tema da peça; 2 – o teatro como palanque, algo que acho bastante delicado. Uma coisa é fazer um teatro político (e muitos defendem que todo teatro é político), e neste caso, a própria história de Chica da Silva traria uma excelente reflexão; outra é panfletar, e da maneira como a peça se constrói, fica por vezes a impressão de um “levantamento de bandeira”.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE