‘Cálculo Ilógico’ – Uma catarse imprescindível

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Muitos amigos já me haviam falado, gente que faz TEATRO, que gosta, entende e vive de TEATRO“Você não pode deixar de assistir a ‘CÁLCULO ILÓGICO’, com a JÉSSIKA MENKEL, no porão do Laura Alvim. É muito bom!”.

“Porão”, para mim, chega a soar quase depreciativamente, não é próprio, para designar a aconchegante antiga Sala, agora, Teatro Rogério Cardoso, dentro da Casa de Cultura Laura Alvim, e “muito bom” é o mínimo que se pode dizer do espetáculoEle, na verdade, é ótimo! Já esperava mesmo que o fosse, mas só pude constatar no sábado, 3 de maio de 2019, quando, infelizmente, seria o penúltimo dia da primeira temporada, naquela sala. Que bom que, devido ao grande sucesso de público e de críticaa TEMPORADA FOI PRORROGADA POR MAIS UM MÊS, ATÉ O DIA 02 DE JUNHO (2019).

Por motivos vários, não havia conseguido assistir, ainda, a um dos melhores espetáculos, de tudo o que vi, desde o início do ano, no Rio de JaneiroSimples e comovente, daquelas montagens que marcam o amante das artes cênicas. Fui com uma grande expectativa, superada por um texto primoroso, uma direção inventiva e impecável e uma interpretação que me desafia a encontrar, no meu vocabulário, palavras especiais e incomuns, para adjetivar JÉSSIKA MENKEL, a atriz deste solo.

 

SINOPSE

 

Sob direção de DANIEL HERZ, a atriz JÉSSIKA MENKEL leva ao palco uma dor pessoal, causada pela perda do irmão, Douglas, morto por atropelamento, aos 21 anos de idade, num Dia de Ano Novo.

Em cena, sua personagemELLA, busca uma nova perspectiva, para ver o mundo, a partir de fórmulas matemáticas.

matemática é utilizada, em metáforas, no espetáculo em que a atriz se apropria de uma dor pessoal e tenta entender esse sofrimento, por meio de fórmulas e cálculos.

Misturando ficção e realidade, o solo apresenta o sentimento de inquietação, que cerca a nós, humanos, quando nos deparamos com o fim.

peça se apresenta, ao público, com um potente trabalho corporal e um texto intrigante e instigante, por meio do qual a plateia embarca em emoções desmedidas.


Antes que alguém possa pensar que vai sair do Teatro deprimido(a), já que o tema em torno do qual gira o texto, uma perda, uma inaceitável perda, com todas as suas consequências, principalmente quando essa perda é representada pela morte, e de um ente querido, muito próximo, vou logo dizendo que, durante o espetáculo, qualquer pessoa, com um mínimo de sensibilidade, vai dividir, com a atriz/personagem, a sua dor, vai vivenciar o seu drama, na medida do possível, exercitando o sempre fundamental sentimento de empatia. Vai engolir em seco, poderá chorar, até; sentir o ar faltar, ficar com a musculatura retesada, como ocorreu comigo (O pescoço e os ombros enrijeceram.), porém, ao final da peça, vai soltar a respiração, relaxar, vai transcender todo aquele “aperto” e levará, para casa, uma lição de como superar e aliviar – não esquecer – aquele sofrimento e tocar a vida, focando no futuro e em tudo o que ele poderá, ainda, nos trazer de bom.

Não resta a menor dúvida de que a homenagem ao irmão, Douglas, além de muito justa, é prestada de uma forma belíssima, utilizando, como “vetor”, já que a matemática está presente, metaforicamente, da primeira à última fala da peça, o TEATRO.

“CÁLCULO ILÓGICO” é uma prova mais do que concreta de que é possível se fazer um TEATRO de altíssima qualidade, com poucos recursos financeiros. O que não poder faltar é garratalento e uma boa proposta de um espetáculo modesto e bastante intimista, no caso deste.

garra já começa na iniciativa de JÉSSIKA, que não teve medo nem pudor de abrir seu coração, dividir sua dor com gente que ela, na grande maioria, nem conhece e exorcizar suas sombras de um passado dorido, que começou quando ela tinha apenas 10 anos. Ao saber de que se tratava a peça, antes de ter ido assistir a ela, por meio do “release”, enviado por CATHARINA ROCHA (ASSESSORIA DE IMPRENSA), já comecei a imaginar como se daria essa catarse, essa confissão de amor pelo irmão falecido, e o relato fiel de como tudo se deu e o que adveio de lá. Já fui ao Teatro na certeza de que iria gostar do solo e me emocionar muito, pelo espetáculo, em si, e pelo trabalho magistral da atriz, que eu já conheço e admiro, há alguns anos, desde 2014, salvo engano, quando ela, paulista de nascimento (Sorocaba), no Rio há 10 anos, estreou, aqui, mais propriamente, na Casa da Gávea, de saudosa lembrança, então, na época com 23 anos, ao lado de outro jovem e grande ator, da mesma idade, Arthur Ienzura, encenando a peça “Meu Nome É Ernesto”, seu primeiro trabalho profissional, no qual os dois interpretavam, impecavelmente, um casal octogenário. Ali, iniciou-se o meu respeito e admiração pelo trabalho de JÉSSIKA, corroborados em outros que se seguiram àquele. A montagem fez várias temporadas, viajou bastante e, por ela, JÉSSIKA ganhou alguns prêmios e recebeu muitas indicações a outros.

A sua participação em muitos festivais teatrais fizeram-na se interessar por um tipo específico de TEATRO, o TEATRO DOCUMENTÁRIO, a AUTOFICÇÃO, o que deu origem à peça aqui comentada.

Neste “CÁLCULO ILÓGICO”, todos os aplausos para JÉSSIKA devem ser dobrados: para a atriz brilhante e visceral, na falta de um adjetivo mais próprio, de uma força interior de impressionar, e para a grande revelação de dramaturga, que já se inicia no ofício com o pé direito e marcando terreno. Seu texto é direto, com um vocabulário do dia a dia, sem rebuscamentos linguísticos; contundente, profundo, emocional, nos detalhes dos momentos infelizes de sua vida; e poético, por exemplo, nas lembranças da infância, nos dias passados na casa da avó, quando transforma, a bem dizer, uma mangueira em personagem de uma puerícia que ficou na memória, como um referencial positivo do irmão Douglas, que, embora mais velho, era seu companheiro de travessuras e brincadeiras.

Na matemática, espera-se que todos os cálculos estejam apoiados na lógica, contudo, na “matemática da vida”, a morte é um “CÁLCULO ILÓGICO”, por si só, e, mais ainda, quando nos atinge de perto, e com tanta “agressividade”.

texto começou a ser escrito há, mais ou menos, um ano e meio, e foi por meio de Thiago Herz, a quem JÉSSIKA conheceu, no Festival de TEATRO de Cabo Frio, que a autora chegou ao grande e premiado diretor DANIEL HERZ – escolha acertadíssima –, para que este assumisse a encenação do espetáculo.

O texto é ótimo, e, curiosamente, porque JÉSSIKA nunca estudou, profundamente, matemática, assim como o irmão também nunca tivera qualquer ligação maior com a disciplina, ela, a matemática é utilizada, o tempo todo, por meio de metáforas interessantíssimas, na construção da dramaturgia.

JÉSSIKA atua num marcante e comovente trabalho de corpo e voz, uma interpretação de entrega total, na pele de uma personagem, cujo nome não foi escolhido à toa: ELLA“Busquei, na matemática, uma forma de contar, também, a história da perda do meu irmão. Todo o mundo já perdeu alguém. Quis transformar dor em arte, ressignificar meu olhar para os acontecimentos da minha vida.”, revela a atriz, extraído do já citado “release”“Em cena, a personagem relembra, revive, calcula acontecimentos e expõe, em números, a eliminação errada de seu irmão D+ 1.”, chamado, precocemente, na flor da idade, pelo Senhor Superior Positivo Neutro, como ela se refere a Deus“ELLA enxerga (o mundo), por meio de uma lógica matemática, analisando a probabilidade dos acontecimentos e buscando razões nos números e nas fórmulas, para explicar um cálculo, chamado vida.”, completa a artista.

A direção, assinada por DANIEL HERZ é impecável. Acho que qualquer leigo em direção teatral ou pessoa que não conheça, mais detalhadamente, o universo do TEATRO, ao ler o texto, nu e cru, ficaria sem imaginar como aquelas palavras, aqueles sentimentos e as suas intenções poderiam chegar, cenicamente, ao público e cumprir seu objetivo. Penso, até, que isso poderia ter acontecido comigo, que, há mais de 50 anos, considero-me “íntimo” dessa arte maiorDANIEL, fazendo uso de sua inteligência e criatividade, conseguiu, num palco quase nu, contando com o mínimo de elementos cenográficos, sobre os quais falarei diante, encenar um espetáculo teatral de rara beleza e perfeiçãoJÉSSIKA “dialoga” com três cubos, e eles “ganham vida” ou servem de suporte para cenas lindas e muito significativas. Como não há, na ficha técnica, o nome de alguém responsável pela direção de movimento, quero crer que toda a marcação, o trabalho de deslocamento da atriz, no espaço cênico, os detalhes dessas movimentações, saiu da cabeça do diretor, talvez, com um pouco de iniciativa dela, a própria JÉSSIKA.

Ainda extraído do “release”, transcrevo um trecho, que julgo necessário, para justificar o meu entusiasmo pelo trabalho de interpretação e de direção“Durante o processo de criação, na sala de ensaio, DANIEL HERZ realizou diversas provocações dramatúrgicas, que fizeram com que JÉSSIKA investigasse memórias, sentimentos, abismos e recortes de sua vida”. Isso fazia com que a atriz, ao chegar a casa, enriquecesse seu texto, cada vez mais, reescrevesse-o, motivada apela instigação do diretor, que só faz quem tem competência para fazê-lo, como DANIEL HERZ“Houve muita emoção e choro. Chegava a casa instigada e escrevia muito, muito. Há ficção, mas há muito da minha essência”, lembra JÉSSIKA.

Textodireção e interpretação são o tripé de sustentação deste magnífico espetáculo, o que não significa que os elementos técnicos da montagem possam ser esquecidos.

cenografia, de THANARA SCHONARDIE, há algum tempo afastada dos seus trabalhos no Brasil, e que tanta falta nos faz, põe em cena três cubos, como já mencionei: dois totalmente pretos e um com dois lados vazados e um deles revestido pelo assento de uma cadeira de balanço, de palhinha, a cadeira da vovó, tantas vezes citada na peça. Para completar, apenas uma bicicleta quebrada, num dos cantos e fora da área cênica, que é limitada apor uma fita vermelha e que só é ultrapassada pela atriz no momento em que ela vai até a bicicleta, para pegar um par de sapatos, o que vai significar o momento em que ela deixa, para trás, São Paulo, à procura de “um futuro” no Rio de Janeiro, há 10 anos, como já disse.

Quanto ao figurino, a atriz usa um conjunto de camiseta e bermuda, de malha cinza, sobre o qual lhe cai, pelo corpo, despojadamente, uma peça, uma espécie de vestido, confeccionado com fragmentos de diversas roupas, inclusive uma camisa de DOUGLAS, detalhe do qual só tem conhecimento quem tem acesso ao “release” da peça ou fica sabendo dele por intermédio de outrem.

Há, ainda, uma boa trilha sonora original, de ÉRIC CAMARGO e uma correta iluminação, de AURÉLIO DE SIMONI, sem maiores sofisticações, porém fortalecendo a dramaturgia e inserindo o público dentro da cena.

Acredito – não tenho certeza disso – que, dispondo apenas de recursos próprios, JÉSSIKA MENKEL não conseguiria pôr o espetáculo de pé, mas, certamente, isso se tornou mais viável e possível, contando com a parceria de MARIA SIMAN, na produção, responsável pela PRIMEIRA PÁGINA PRODUÇÕES CULTURAIS e pela direção de produção do espetáculo.

Se me fosse cobrada uma lista das melhores peças em cartaz, no momento, no Rio de Janeiro, e outra, das melhores a que já assisti, até o presente momento, neste semestre, não pensaria duas vezes, para incluir, nas duas“CÁLCULO ILÓGICO”, motivo que me leva a recomendá-la como IMPERDÍVEL.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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