“Caixa Preta” busca identificação do espectador com o sentimento de luto

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), “Caixa Preta” coloca os espectadores livremente dispostos em uma sala completamente escura, onde há um foco sobre um corpo estendido no chão, e mais dois focos, um sobre cada cadeira localizada à cabeça e aos pés deste corpo, onde eventualmente se sentarão as duas atrizes/performers, que têm a cabeça enfaixada. Durante o acontecimento, frases com orientações ou sugestões são projetadas ao fundo do espaço.

Para começar, “Caixa Preta” se encontra em algum lugar entre as categorias de performance (pela relação livre entre atores e espectadores) e instalação (pela ambientação estática e de circulação irrestrita). A interação do público (dentro da sala ou no CCBB como um todo) é provocada de maneira muito sutil, respeitosa, não gerando, por exemplo, nenhum tipo de desconforto (não raro associado à prática performática, principalmente por pessoas que não são do meio artístico). Como tende a acontecer em experiências dessa natureza, as reflexões e sensações suscitadas são eminentemente individuais, e são elas que tentarei descrever a seguir.

Em primeiro lugar, a morte não emergiu para mim como o tema central de “Caixa Preta”, a despeito do que parecem sugerir, à primeira vista, o corpo “mumificado” e as frases escritas no programa e projetadas no fundo do espaço cênico. O “corpo sem vida” é, sem dúvida, o gatilho da experiência; mas ele não mantém as atenções e emoções durante o espetáculo, que orbita o esgarçamento do tempo. Ficamos ali, 30, 40 minutos no silêncio, com a mesma iluminação, praticamente sem movimentação alguma das performers, lendo as frases projetadas e pensando o que sentir, o que fazer, como apreender aquela situação. É neste tempo suspenso de espera que acho que se realiza a maior potência da performance/instalação, que justifica ambas as categorizações e coloca o espectador no lugar de uma reflexão emocional, digamos assim.

O espetáculo não apresenta quem seria esta pessoa imóvel diante de nós ou o motivo pelo qual ela faleceu. O que fica claro é que ela está morta, está sendo velada naquele momento e o ambiente é de luto (desde a iluminação até o choro das duas atrizes que irrompe depois de algumas dezenas de minutos). Somos impelidos a nos identificar com esse luto. Diversas sugestões para esta identificação são dadas pelas frases que aparecem periodicamente.

“Caixa Preta” é permeada, portanto, pelo sentimento que requer tempo para ser maturado – e cicatrizado, quando for o caso. “A duração do luto” seria, na minha opinião, a definição mais precisa para o tema da encenação.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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