‘Brimas’ – Quibes com ‘cara’ de solidariedade, gosto de ingenuidade e cheiro de amor

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

O espetáculo aqui analisado pode ser considerado, em tempos de graves crises, de toda ordem, um fenômeno, pois, desde dezembro de 2015, há dois anos e meio em cartaz, vem fazendo a alegria de mais de 50.000 espectadores, em sua décima temporada. Perdi a conta de quantas vezes assisti a ele, inclusive num Festival de Teatro, no ano passado, na aprazível cidade de Tiradentes, Minas Gerais.

Lembro-me, com detalhes, da primeira vez em que assisti à peça, “BRIMAS”, numa 2ª feira, na noite de 7 de dezembro de 2015, quando me desloquei, do Recreio dos Bandeirantes ao Leblon; mais precisamente, fui ao Midrash Centro Cultural, um local ao qual sempre vou com o maior prazer, para assistir a uma peça de TEATRO, escrita e interpretada por quem eu não conhecia tanto, até então. Um espetáculo cuja ficha técnica era quase que totalmente desconhecida para mim. Mas, como amante de TEATRO e jurado de um Prêmio de TEATRO, aceito todos os convites que me fazem e, sem o menor preconceito e com o maior prazer e interesse, assisto a 99,9% das peças para as quais sou convidado. E sempre aberto a qualquer proposta e com o firme propósito de gostar do que me proporcionam ver.

Nem sempre saio com a melhor impressão sobre o que vejo. Em compensação, várias vezes, terminada a apresentação de uma peça, agradeço aos DEUSES DO TEATRO por aquele momento. Foi exatamente o que aconteceu, depois de ter assistido a “BRIMAS”, uma montagem “pequena”, em termos de produção, e GRANDE, em se tratando de qualidade, a ponto de ter recebido indicações a Prêmios de Teatro, na categoria de Melhor Texto.

Quem disser que, com simplicidade e um baixo orçamento, não se consegue produzir um espetáculo teatral de alto nível faça o favor de conferir o contrário, já que a peça voltou ao cartaz, agora no Teatro Clara Nunes (VER SERVIÇO.).

O texto, escrito e interpretado por BETH ZALCMAN e SIMONE KALIL, torna possível o encontro de duas senhoras imigrantes, vindas, uma do Egito e outra do Líbano, para o Brasil, no início do século XX.

Para que compreendam melhor o que irão ver em cena, transcrevo um texto, assinado por BETH e SIMONE, extraído do programa da peça:

“Certos encontros acontecem, quando estamos preparados para eles, para o aprendizado que irão nos proporcionar. Há dois anos, falamos das ‘Brimas’. Uma comentou que estava iniciando o projeto de uma peça sobre sua avó e os libaneses que vieram para o Brasil. A outra arregalou os olhos, porque começara a escrever a história de sua avó, egípcia, e dos imigrantes judeus, vindos do Oriente Médio. A junção das duas matriarcas, na mesma peça, foi imediata e, mais adiante, as surpresas: casaram-se no mesmo ano, tiveram o mesmo número de filhos, vieram para o Brasil na mesma época, ficaram viúvas cedo, cozinhavam os mesmos pratos, cantavam as mesmas músicas e tornaram-se referência para suas famílias. As duas fizeram a vida virar história.

O tempo passou e, por um acaso, se é que acasos existem, este ano (2015), retomamos o projeto ‘Brimas’. Começamos a escreve as histórias vividas por nossas avós, que se misturam com a história do Rio de Janeiro e com tantos outros imigrantes, que aportaram aqui, no início do século passado… “MUITA SOLIDARIEDADE, OS QUE CHEGAVAM ERAM ACOLHIDOS, NÃO PRECISAVA SER PARENTE, BASTAVA SER IMIGRANTE” (trecho da peça). Rimos, choramos, admiramos, lembramos e sentimos. Escrevemos este texto, inspiradas na estrutura dos mosaicos do Oriente Médio, que contêm força e beleza em cada parte e fazem um todo deslumbrante. Cada cena era um mergulho em cores, cheiros, sabores, risos, sabedoria, cumplicidade, amizade, identidade e afeto.”

Trata-se de uma comédia leve, doce, com “cara” de solidariedade, gosto de ingenuidade e cheiro de amor. O texto é atualíssimo, num momento em que ganham destaque, nos noticiários, em todas as mídias, questões como a da intolerância religiosa e a da imigração, além de ser um vetor para provar que, numa verdadeira amizade, não há espaço para preconceitos, de qualquer ordem.

sinopse que me foi enviada pela assessoria de imprensa é muito sucinta e não consegue dizer tudo o que a peça pode passar, revelar e representar para cada espectador, mas creio ser suficiente para despertar o interesse por esta montagem:

 

SINOPSE

 

Duas senhoras imigrantes, ESTER (BETH ZALCMAN) e MARION (SIMONE KALIL), revivem, com muito humor, suas histórias, enquanto cozinham quibes para um velório.

O riso, a saudade da família e as memórias do passado se misturam nessa história, cheia de emoção e sabedoria.


texto, escrito a quatro mãos, é baseado em histórias reais, das avós das duas atrizes e dramaturgas. As personagens são uma judia (ESTER) e outra católica maronita (MARION). As atrizes trazem, para o palco, lembranças familiares, que, mesmo sendo de religiões diferentes, são similares, quanto ao idioma, aos hábitos e aos costumes.

De acordo com o “release”“A peça fala sobre o amor à terra em que se nasce, o orgulho de pertencer à pátria brasileira, que as acolheu como filhas, a travessia, o ir sempre em frente, a esperança, a memória do que ficou para trás, a saudade e a expectativa da alegria de dias melhores. Esses ingredientes representam a saga de muitos imigrantes”.

direção é de LUIZ ANTÔNIO ROCHA, que diz, sobre o espetáculo“Muito feliz por ter embarcado nessa viagem, nesse projeto lindo e abençoado! Falamos dos imigrantes, que deixam suas pátrias e cruzam o oceano, em busca de uma nova pátria. Através do humor, vamos falar dessas travessias”.

Ainda consta, no “release”“Para a autora e atriz BETH ZALCMAN, falar de sua avó é falar de identidade construída pelo afeto, pelo cheiro e sabores da comida, pelos gestos, pela voz, pelas histórias vividas e sentidas. ‘BRIMAS’ é falar da possibilidade de encontros, de paz, independentemente de crenças, nesse momento contemporâneo de tanta intolerância”.

“A força dessas matriarcas, nossas avós, representando tantos outros imigrantes, tantas outras avós, tantas outras mulheres. Essa peça fala do Oriente Médio e fala do Brasil. Na verdade, ‘BRIMAS’ fala de tudo aquilo que diz respeito ao que há de mais humano em nós: o amor, a saudade, a família, a fé e a alegria”, completa SIMONE KALIL.

A dupla de atrizes, desde que entram em cena até o último momento da peça, constrói um clima de alegria, de paz, de descontração, apesar de a ação se passar durante um velório. A começar pelo fato de entrarem em cena, cumprimentando, bem descontraidamente, os que “vieram para o velório”, oferecendo-lhes quibes de abóbora. “A comida acaba e as duas matriarcas se empenham em fazer mais tabuleiros de quibe. O público vai descobrindo a cultura do Oriente Médio e a coragem dessas matriarcas, amigas inseparáveis, apaixonadas pela vida.”, diz, ainda, o “release”.

A inclusão do texto, na lista de indicados como um dos melhores de 2015 pode ter causado surpresa a alguns, mas tenho a certeza de que o que mais deve ter pesado na indicação foi a sua simplicidade, a ausência dos elementos que complicam, para o público médio, dificultam a compreensão das intenções do dramaturgo, infelizmente, presente em tantos textos “cabeça”, que andam por aí, aplaudidos e reverenciados por uma “intelligentsia” ipanemense e seguido pelos que não podem ficar “por fora do clima”, “perder a onda”, “dando pinta de ignorantes”, o que não é o meu caso.

“BRIMAS” é TEATRO, o TEATRO de que eu gosto, o TEATRO que o público entende e com o qual se emociona, a ponto de aplaudi-lo de pé.

No Midrash Centro Cultural, a montagem já era boa, a despeito da falta de recursos para um espetáculo teatral, em função do espaço acanhado e da ausência de um suporte técnico, principalmente com relação à iluminação. No novo Teatro Clara Nunes, o espetáculo cresce muito, em todos os sentidos, já que o TEATRO funciona bem quando todos os elementos se complementam e ajudam, um ao outro, a valorizar cada detalhe da montagem.

Com relação à luz, por exemplo, esta era um elemento não muito notado, na primeira temporada, ainda que levasse a assinatura de AURÉLIO DE SIMONI. Segundo o próprio, com quem conversei – e eu concordo, plenamente –, neste espetáculo, a luz deve ser a mais simples possível, não há muito que fazer ou inventar. Na atual temporada, num teatro “de verdade”, e não uma sala adaptada para teatroAURÉLIO continua pondo em prática o seu pensamento sobre a luz da peça, entretanto consegue alguns efeitos muito interessantes e dignos de aplausos, como, por exemplo, quando põe em destaque, umas peças que são fixadas na parede, pelas atrizes, com uma simples contra-luz.

Essas peças, verdadeiras obras de arte, pertencem a uma categoria chamada de “cortes com projeções arquitetônicas”, um trabalho belíssimo, oriundo da ourivesaria, feito em tabuleiros de alumínio, pelo artista plástico TONINHO LÔBO, que também é responsável por todos os outros adereços e o cenário, composto apenas por várias malas de viagem, de diversos tamanhos e modelos, todas antigas, que guardam grandes surpresas, como uma, a maior de todas, que, quando aberta, revela uma cozinha, com todos os seus utensílios, principalmente os que são utilizados no preparo da culinária típica das regiões das protagonistas.

Os figurinos, de CLÁUDIA GOLDBACH, são adequados às personagens, contrastando-se, em função das duas distintas personalidades. ESTER, mais extrovertida, mais “out”, veste uma roupa estampada, bem colorida, e é coberta por uma grande quantidade de jóias (?) e bijuterias douradas. MARION, mais contida, mais “in”, usa um traje quase típico de sua cultura, um vestido, na altura das canelas, preto, com um lenço, da mesma cor, amarrado à cabeça, e exibe um único e simples anel, tipo aliança, num dos dedos.

A direção, de LUIZ ANTÔNIO ROCHA, é simples e bastante competente, correta, na medida em que o espetáculo é quase “autodirigível”, em função de ter sido escrito pelas próprias atrizes e pela bagagem emotiva que cada uma traz para a cena.

Saboreado o delicioso bolo, reservamos, como sempre, a “cereja” para o final, a fim de que a memória do sabor não fique esquecida. Uma memória afetiva: a interpretação das atrizesBETH e SIMONE não representam; elas “são” ESTER e MARION, respectivamente. As lembranças das duas netas e a memória afiada de ambas trazem, das profundezas à tona, ESTER e MARION. Os diálogos são tão naturais, que parece verdade o que estamos vendo. O texto flui, de maneira a parecer não ter sido decorado; vem do coração, embora a origem do verbo “decorar” também indica “vir do coração”, do latim “cor, cordis = coração”.

Merecem destaques alguns momentos em que as duas atrizes, abandonando, temporariamente, as personagens, dirigem-se ao público e narram, com bastante emoção, alguns detalhes da saga das duas avós, no Brasil. Não farei comentários acerca disso. Vão conferir “in loco”!

Dois excelentes trabalhos de duas atrizes maduras, plenas, para cujas atuações aplausos de pé não bastam. BRAVO!!!

Recomendo o espetáculo com o maior empenho!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O BOM TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvida, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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