‘Blackbird’ – Um tema atualíssimo com um tratamento bem cuidado

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Quando vi esta peça, pela primeira vez (Já assisti a ela umas seis vezes.), em 6 de setembro de 2014, na Sala (hoje, Teatro) Rogério Cardoso, dentro da Casa de Cultura Laura Alvim, fiquei extremamente emocionado e chocado com tudo o que vi (texto, direção, atuação, a forte temática), escancaradamente exposto, de forma nua e crua, que não tive a menor dúvida em vaticinar: será um grande sucesso e terá uma vida longa. E acertei em cheio. Sucesso de público e crítica, a premiada “BLACKBIRD”, inspirada em um caso real de pedofilia, após quatro anos em cartaz, faz sua 8ª temporada na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca.

Na época, escrevi uma modesta crítica, em que dizia que era muito gratificante, MUITO MESMO, assistir a um espetáculo que não contava com nenhum patrocínio e que, por sua excelente qualidade, só na base da divulgação de boca em boca, desde sua estreia, vinha mantendo o Teatro com LOTAÇÃO ESGOTADA.  Sim, aquele cartazinho, afixado ao vidro da bilheteria, que causa frustração a quem deseja assistir à peça e uma enorme alegria a toda a equipe de produção do espetáculo.

É o que sempre ocorreu com “BLACKBIRD”, um ótimo texto, do escocês DAVID HARROWER, inédito, até então, no Brasil, mas, muitas vezes, premiado no exterior, montado em mais de 40 países, mais de 90 vezes, traduzido por ALEXANDRE J. NEGREIROS, dirigido por BRUCE GOMLEVSKY, contando com as interpretações de VIVIANI RAYESYASHAR ZAMBUZZI e, na época, de LORENA COMPARATO, esta em brevíssima, mas não menos importante, participação.

(Observação: LORENA foi a primeira atriz que participou como a terceira personagem da peça, naquele temporada, com uma discreta aparição surpresa, ao final da peça. Outras atrizes a sucederam, em temporadas posteriores: Bella Piero, Débora Ozório, Ninive Kienteca e, atualmente, BIA VEDOVATO).

O espetáculo não é para entreter, mas para se ter entre um dos principais assuntos de discussão do dia a dia e, principalmente, da atualidade: a questão da pedofilia, sem dúvida alguma, um dos mais abjetos crimes que alguém possa cometer.

A dramaturgia se debruça sobre um caso real de pedofilia, que se deu em 2003, quando um ex-fuzileiro, de 32 anos, passando-se por 23, encontra-se com uma jovem, que se dizia ter 19 anos, porém não passava dos 12, sendo que ambos se apaixonaram e fugiram, para viver um intenso amor, o que rendeu, ao pedófilo, uma pena criminal.  Na adaptação para ao palco, a ação se passa 15 anos após o “tal encontro”, depois de o criminoso ter pagado por seu crime e já estar em liberdade. Na dramaturgia, houve alteração nas idades.

 

SINOPSE

 

Vencedora do Festival Internacional de Edimburgo e do Prêmio Laurence Olivier Award, o espetáculo, inspirado em um caso real de pedofilia, traz o reencontro de um homem e uma mulher, que viveram caso polêmico, quando ela tinha 12 anos e ele 41. Agora, eles estão cara a cara, para um acerto de contas.

Em seu local de trabalho, RAY (YASHAR ZAMBRUZZI), um homem de 56 anos de idade, fica chocado, ao ser visitado por UNA (VIVIANI RAYES), uma jovem de 27 anos.

Fica evidente o desconforto entre ambos, mas, logo, descobrimos o motivo: quinze anos antes, quando ela tinha apenas 12 anos, e ele 41, os dois tiveram um relacionamento amoroso durante três meses, mas que, ao ser descoberto, RAY foi condenado por pedofilia.

Após cumprir sua pena, RAY muda de cidade e de nome e consegue se estabelecer em uma nova vida, razoavelmente bem-sucedida, entretanto UNA, ao reconhecê-lo, em uma fotografia de uma revista especializada em algo relacionado ao trabalho de RAY, busca descobrir seu endereço, para ir ao seu encontro.

RAY a conduz ao refeitório da empresa, onde os dois se envolvem em um confronto longo e difícil, que provoca contínuas lutas e necessidades para se entenderem e entrarem em acordo com suas emoções intensamente conflitantes.

“BLACKBIRD” aborda um tema de caráter social, ético e moral. Trata-se de um drama que discute sobre as consequências, a longo prazo, do abuso sexual, o amor entre pessoas de idades diferentes, os instintos sexuais versus os padrões éticos e morais que temos em nossa sociedade. Mas a peça vai além, ao dialogar com esse tema de maneira responsável e humana, sem ser unilateral, preconceituosa e sensacionalista.


É bastante interessante, e merece relevo, o último parágrafo da sinopse, uma vez que, realmente, a peça mexe num vespeiro que está mais próximo de nós do que imaginamos, visto que A todo momento, vemos casos semelhantes serem noticiados pelos meios de comunicação, mobilizando iniciativas governamentais e não-governamentais, no combate a problema e sua solução. Entretanto, algumas mídias divulgam e exploram a pedofilia de maneira sensacionalista, e essa é a grande diferença de “BLACKBIRD”, que não aborda o tema com tal característica, e, sim, pretende ‘discutir’ o assunto, ampliando a nossa definição de ética, moral e tabu, não se limitando, apenas, a uma discussão simplista de abuso sexual”, como diz o “release”.

Por que o reencontro? Com que intenção UNA procurou RAY? Uma cobrança? Eles chegaram a viver uma breve história de amor, que ela aceitou (Ou não?). Foi uma história de amor como qualquer outra?  Quem eram, na verdade, os protagonistas dessa aventura?  Como os dois estão agora?  Que consequências aquela história de amor gerou?  E por que…?   E o que…?  E quando…?   E…?   E…?   E…?

Os protagonistas dessa história de amor não viveram um relacionamento amoroso dentro dos padrões sociais da “normalidade”, uma vez que, quando o sentimento passou a existir, havia uma grande disparidade entre as idades de ambos.  O “incômodo”, para os “outros”, os espectadores, na relação, não reside, evidentemente, na diferença de idade, 29 anos, e sim no fato de a menina ter apenas 12 anos, o que caracteriza o crime hediondo de pedofilia.

O encontro não se deu por acaso.  Foi UNA quem quis saber, e descobriu, o paradeiro de RAY, indo encontrá-lo, em seu local de trabalho, com o objetivo de culpá-lo por toda a sorte de sofrimento, de humilhação por que passara, após o romance ter-se tornado público.

Seria um encontro para um acerto de contas? Certamente.

Mas não é bem por esse trilho que o trem corre, quando nos deparamos com um final aberto, daqueles que fazem a plateia sair do teatro, discutindo se há ou não culpados, se é ou não possível a existência de um verdadeiro sentimento de amor por parte de uma “criança” de 12 anos, se é “normal” que um homem experiente, de 41 anos, possa, mesmo, acreditar na possibilidade de compartilhar um sentimento amoroso, mais do que um impróprio desejo carnal, com uma “mulher” muito ainda em formação…  E mais… e mais… e mais…

Perguntado do que a peça tratava, o autor apenas limitou-se a responder: “Eu tenho consciência de que estamos diante de um terreno minado e perigoso, pois todos nós sabemos que esse tipo de relacionamento não deve acontecer.  Mas foi muito importante, para mim, deixar esses dois personagens numa sala, juntos e sozinhos, para dizer qualquer coisa que quisessem um ao outro, sem censurá-los.  E eles podem e têm esse direito.  Porque são as duas únicas pessoas que sabiam exatamente como se sentiam e o que eles de fato queriam”.

Para o diretor, BRUCE GOMLEVSKY“O autor nos confronta com RAY e UNA, de alguma maneira, pedindo que não os julguemos.  Simplesmente, ele nos pede que os escutemos e que esgotem todo o dito e o não dito.  O que precisa vir à tona.  Os próprios personagens não conseguem entender e dar conta de sentimentos tão complexos.”

Na verdade, a pedofilia é apenas um pretexto, habilmente encontrado pelo dramaturgo, para contar a história de um amor não-convencional, vivido por protagonistas “gauches”, “tortos”, “pervertidos”, que merecem a “reprovação” dos que vivem dentro de uma “correta” ordem social, política, religiosa, praticantes, convictos, dos valores éticos e morais. Não é assim que age a grande maioria das pessoas?

É muito importante que fique bem claro que, sob qualquer hipótese, não há, em nenhum momento da peça, um mínimo resquício de um desejo, por parte do autor, de promover qualquer apologia à pedofilia.

Seguindo o “release” da peça, enviado por VIVIANI RAYES, “DAVID HARROWER é considerado, pela crítica do Reino Unido, como um dos mais importantes escritores da atualidade. Em 2005, escreveu “BLACKBIRD”… (…) O texto tem a força de desafiar o público a expandir a sua definição de amor como também interrogar os limites éticos e morais. Qualquer um que já tenha vivido um relacionamento e esse amor foi interrompido, como um casamento que terminou em divórcio amargo, entenderá o desafio dos personagens, através dos segredos e autoenganos, tentando compreender o passado para que eles possam seguir em frente”.

Em quatro anos de existência, no Brasil, “BLACKBIRD” conta com um histórico de grande sucesso, a saber:

– Destaque do Festival de Curitiba / Fringe / 2018 / 17, entre as peças com maior público no Festival, com suas sessões esgotadas.

– Comemorou a centésima apresentação no Fringe / 2017.

– Há 4 anos em cartaz e 7 temporadas no Rio de Janeiro (agora a 8ª) e Belo Horizonte.

– A peça foi adaptada para o cinema, tendo, como título, o nome da personagem principal: “UNA”.

– Considerada, pela revista Veja Rio, como uma das 10 melhores peças em cartaz no Rio de Janeiro, com 3 estrelas.

– Recebeu 4 indicações ao Prêmio Botequim Cultural, nas categorias Melhor Espetáculo, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Diretor.

– Recebeu uma indicação ao Prêmio Shell, na categoria Música.

– Recebeu uma indicação ao Prêmio Questão de Crítica, na categoria Trilha Sonora Original.

– Considerado um dos 21 espetáculos mais populares do “site” Teatro Encena, RJ.

– Classificada, pelo “site” Conexão Mundo, entre os 5 espetáculos imperdíveis no Rio.

– Listada, entre Os Melhores Espetáculos do Ano de 2014, no Rio de Janeiro, pelo crítico Gilberto Bartholo (jurado do prêmio Botequim Cultural).

O texto flui com muita naturalidade, ora mais leve, ora mais denso, obrigando os atores, em ótimas performances, a um permanente exercício de modulação da voz e equilíbrio emocional, para que as frases sejam ditas com a intensidade imaginada, e desejada, por quem as cunhou e por quem dirige o par de atores em cena.

Nada mais a acrescentar ao brilhante texto, a não ser elogiar a tradução de ALEXANDRE J. NEGREIROS. Mesmo sem conhecer o texto original, pareceu-me ser fiel e de muito boa qualidade.

Quanto à direção, BRUCE GOMLEVSKY, por tantos outros trabalhos, já demonstrou sua grande competência como diretor, além do ótimo ator que é.  Em geral, escolhe textos densos, que permitam amplas discussões e que tocam nas feridas adormecidas ou quase cicatrizadas das pessoas.  Seus últimos trabalhos de direção, alguns merecidamente premiados, atestam este comentário.  Mais uma vez, é digno dos meus aplausos, à frente da direção deste espetáculo, por erguer sua batuta à altura ideal, por saber levar os atores ao ponto certo de encontrar e gerar emoções, sem permitir que a peça pudesse se transformar num dramalhão de novela mexicana.

No que se refere ao elenco, o espetáculo conta com mais de um protagonista (no caso, dois) e, quando isso acontece, o ideal é que nenhum deles se sobreponha ao outro, em termos de potencial interpretativo, para que não ocorra um inevitável desequilíbrio de atuações, facilmente percebido pelo espectador mais atento.  Em “BLACKBIRD”, há uma estabilidade total, um nivelamento, proporcionado pelos excelentes trabalhos de YASHAR e VIVIANI.  Ambos atuam com muita paixão pelo ofício e com muita verdade e maturidade profissional.  É um privilégio ver o casal em cena.  É muito gratificante assistir ao trabalho de dois atores que nos representam, que são motivo de orgulho para o TEATRO.  Ambos mergulham, bem fundo, no âmago de seus personagens e trazem à tona todas as consequências daquele tsunâmi do passado. Pouco se pode falar de BIA VEDOVATO, visto que sua participação é quase “decorativa”, em termos de importância na trama, mas a atriz se sai bem no que lhe cabe fazer.

Falemos do excelente cenário, idealizado por PATI FAEDO. Simplesmente, fantástico!  Brilhante a ideia de transformar um contêiner num local, uma espécie de “puxadinho”, da empresa onde RAY trabalha, no qual se desenvolve toda a ação.  O espaço fica, propositalmente, muito reduzido, ainda mais com os móveis e objetos de cena; quase claustrofóbico.  Ao fundo, um janelão, com todos os vidros quebrados, marcas de pedradas (Seriam aquelas que, durante 15 anos, a sociedade atirou em RAY e UNA?).  Causa uma péssima impressão, à primeira vista, pelo lixo espalhado por todo o ambiente e que, vez por outra, é catado ou revirado. É magistral a cena da guerra de lixo promovida entre os protagonistas, em que um tenta “soterrar” o outro com o lixo do ambiente, o lixo de suas vidas.  Paradoxalmente, é o lugar em que os funcionários da empresa fazem suas refeições.  É insalubre, é, simbolicamente, o reflexo do que vai na alma dos protagonistas.  RAY, parece que, um pouco mais que UNA, tenta, de vez em quando, se livrar daquele lixo, mas a impressão que passa é a de que ele, o lixo, como uma praga, se multiplica facilmente.

Nenhum comentário especial sobre os figurinos, de TICIANA PASSOS. São corretos, ajustados aos personagens.

ELISA TANDETA assina uma boa iluminação, pontuando determinadas cenas e dando sua contribuição para o sentimento de claustrofobia, que o espaço cênico produz.

O espetáculo conta com uma trilha sonora original, criada por MARCELO ALONSO NEVES , que também funciona bastante, para sublinhar algumas cenas.  Percebemos, no bom trabalho, a marca de MARCELO.

“BLACKBIRD” é, sem dúvida, um dos melhores espetáculos teatrais dos últimos anos e merece todo o sucesso que vem fazendo.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O BOM TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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