‘Benedita’ – Um espetáculo que surpreende, pela excelência de sua qualidade

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Um dos fatores que mais me encantam, no TEATRO, é a sua capacidade de me surpreender. Ir ao teatro, para assistir a um determinado espetáculo, escrito por um autor consagrado, dirigido por um diretor renomado e contando com um elenco de conhecidas estrelas, muitas delas de grande apelo popular, via a poderosa mídia, que é a TV, não gera, via de regra, no espectador, muita surpresa. Às vezes, a gente se decepciona, é verdade.

Quando,porém, o espetáculo é um monólogo, idealizado, escrito, dirigido e interpretado, brilhantemente, por um ator que não frequenta a grande mídia, mas tem um talento incomum, a alegria da surpresa positiva, o encantamento, que nos arrebata, é incomensurável e não tem preço.

Que bom foi ter assistido ao espetáculo “BENEDITA”, em cartaz no Teatro Café Pequeno, com BRUNO DE SOUSA, cujo talento já era do meu conhecimento, de algum tempo, porém, infelizmente, ainda não conhecido do grande público, motivo que me faz recomendar muito o espetáculo, para que todos os que gostam do bom TEATROfeito com competência e seriedade, tomem conhecimento da existência desse grande multiartista, que a Bahia nos deu.

O espetáculo não é inédito, no Rio de Janeiro, já tendo sido apresentado aqui várias vezes, anteriormente, porém seu retorno ao cartaz teatral carioca contribui para marcar a boa qualidade dos espetáculos que abriram o ano teatral de 2018.

 

SINOPSE

O espetáculo traz à tona a preservação de um “Patrimônio Imaterial Cultural”, quando leva o público a conhecer, de perto, BENEDITA, uma misteriosa senhora, genuinamente brasileira, contadora de histórias.

Ela carrega uma gigantesca trouxa na cabeça. Em meio aos panos que traz, existem roupas sujas, de cores vivas.

BENEDITA conta a historia dessas indumentárias especiais – peças que marcaram sua vida centenária, de perdas, encontros, afetos, maledicências, tragédias, risos, dores…

Sua apresentação é um ritual de passagem, que passeia entre o trágico e o cômico, para a construção de uma personagem genuinamente brasileira. Uma mulher-mito, contadora de histórias, lavadeira/curandeira/ bruxa/feiticeira, em seu limite de vida.

Com uma declarada relação com o misticismo e com o indizível, ela perpassa o curandeirismo e a espiritualidade. BENEDITA tece destinos, através dos casos que conta, relatando uma história arquetípica e mitológica.

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“BENEDITA” conta com um extenso e importante “currículo”. O espetáculo já participou, em média, de 20 festivais ou mostras nacionais, com 18 prêmios e mais de 30 indicações.

Em 2016, a peça realizou a circulação nacional, pelo projeto “PALCO GIRATÓRIO – SESC”, rodando por diversas capitais e interiores do país. Nesse mesmo ano, participou do SOLOS EM CENA – festival de monólogos, em NiteróiRJ. Integrou, também, o XII FESTIVAL DE TEATRO DE FORTALEZA – CE”.

Em SalvadorBA, fez quatro temporadas de sucesso, em 2011/2012 (Teatro Gamboa Nova, Teatro XVIII, Teatro SESI e Teatro Martins Gonçalves).

Já no Rio de Janeiro, o monólogo fez duas temporadas, em 2014: no Teatro Maria Clara Machado – Planetário Gávea (junho) e no Teatro Ziembinski (outubro).

Em festivais, participou do FIT – FESTIVAL NACIONAL IPITANGA (BA) DE TEATRO 2012, tendo sido indicado a 8 categoriasMelhor Espetáculo AdultoMelhor DiretorMelhor AtorMelhor CenárioMelhor Trilha SonoraMelhor FigurinoJúri Popular e Melhor Maquiagem, premiado nessa categoria. No mesmo ano, participou do MUST – MOSTRA UNIVERSITÁRIA SALVADOR DE TEATRO (evento organizado pela Escola de Teatro da UFBA) e foi selecionado para integrar o FILTE – FESTIVAL LATINO AMERICANO DE TEATRO DA BAHIA . Foi selecionado, também, para a grade de espetáculos da MOSTRA CARIRI DE ARTES 2012, no Ceará.

Em 2013“BENEDITA” venceu o FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO HOME THEATRE, na cidade do Rio de Janeiro, levando o prêmio de Melhor Cena. Venceu, ainda, 5 categorias do 1º FESTIVAL DE ESQUETES DA ESCOLA DE TEATRO MARTINS PENA RJ – Melhor Ator. Melhor Figurino, Melhor Maquiagem; 3ª lugar no Júri Técnico e 2ª lugar no Júri Popular, além das indicações de Melhor CenografiaMelhor Direção e Trabalho Corporal. Premiado, também, no FESTIVAL NITERÓI EM CENA RJ 2013, como Melhor Ator e 3º lugar pelo Júri Técnico, além de outras indicações. No FESTIVAL DE TEATRO DE PETRÓPOLIS RJ 2013BRUNO DE SOUSA levou o prêmio de Melhor Ator.

O espetáculo, em agosto de 2013, fez parte da programação da MOSTRA NACIONAL TEATRO NA CONTRAMÃO, proposta pela Escola SESC de Ensino – SESC Jacarepaguá, no RJ.  Em setembro do mesmo ano, participou do FESTIVAL NORDESTINO DE TEATRO DE GUARAMIRANGA, no CEARÁ, e FESQ – FESTIVAL DE ESQUETES DE CABO FRIO, no RJ. Participou, também, da MOSTRA SOLOS BRASIL, em MARANGUAPE, no CE (novembro 2013) e da FAU –FEIRA DE ARTE URBANA RJ, na Fundição Progresso (dezembro 2013) Vencedor, também, do FESTIVAL ZIEMBINSKI 2014 DE TEATRO, no RJ, nas categorias: 1º Lugar Melhor CenaMelhor AtorMelhor Texto e Melhor Maquiagem, além das indicações de Melhor DireçãoJúri Popular e Maquiagem. No FESTIVAL FETAERJ 2014, ganho o prêmio de Melhor Ator. No FESTIVAL DE SÃO GONÇALO RJ 2014, também, como Melhor Ator, além de diversas indicações, incluindo Pesquisa e Estudo AntropológicoComposição Visual e Direção, dentre outros. Foi selecionado para o 7º NITERÓI EM CENA 2014, concorrendo com mais de 180 peças inscritas. O seu mais recente prêmio foi no FESTIVAL DE SUMARÉ – SÃO PAULO 2014, na categoria Melhor Ator, além do Prêmio Funarte Myriam Muniz 2014, que possibilitou o solo de circular pelo nordeste e Rio de Janeiro, em 2015, no projeto CARAVANAS TRÊS MARIAS.

Ufa!!!

O premiadíssimo espetáculo volta ao Rio de Janeiro, após circulação por 16 estados e mais de 40 cidades do Brasil.

Não foi à toa que resolvi utilizar um espaço bem razoável, muitas linhas, para contar a trajetória do espetáculo: é para que você, leitor, entenda o porquê de tanta admiração, de minha parte, pelo espetáculo e pelo grande multiartista BRUNO DE SOUSA, para que possa avaliar a qualidade do espetáculo e se interessar em assistir a ele, nas poucas oportunidades que terá, visto que a temporada é bem curta.

Transcrevo um trecho do “release” da peça, com o qual concordo plenamente: “Em tempos de avanços tecnológicos e de modernidade, reconhecer, valorizar e homenagear um personagem vivo da nossa cultura popular tem sido uma prática essencial para a manutenção de tradições ameaçadas ao esquecimento.

Não à toa, BRUNO DE SOUSA, ator e criador do espetáculo ‘BENEDITA’, traz, para a cena, tal reflexão. Quantas figuras do nosso imaginário popular, folclórico ou não, ícones, que formaram nossa infância ou comungaram, de algum tipo, de influência na nossa formação, estão caindo no ostracismo? Quem nunca teve uma vizinha benzedeira, lavadeira? Ou conheceu alguém detentora de sabedorias naturais diversas? A anciã que cura os males mais inusitados?

São figuras que, de alguma maneira, todos nós conhecemos ou das quais já ouvimos falar e que enriquecem a cultura brasileira. ‘BENEDITA’ reúne, na cena, esses diversos ícones populares, através da personagem título da peça, na tentativa de compreender e estimular o respeito à diversidade e a valorização da identidade.

Via personagem, a montagem também discute temas vários, como o aborto, o misticismo, o abuso de poder, a ética e o papel do idoso em nossa sociedade.

O espetáculo se encontra atrelado a duas matrizes de trabalho: o Teatro Físico e a Contação de História. Nessas duas searas cênicas, tanto o discurso corporal como o verbal, produzido pela personagem BENEDITA, têm um valor semântico estabelecido.

Toda a movimentação e os modos de fala, assim como os argumentos, estabelecem uma trama de referências, que levam o espectador a criar o interesse pelas ações, assuntos e detalhes presentes no espetáculo.”.

Para analisar o espetáculo, partindo da ficha técnica, o nome de BRUNO DE SOUSA, inevitavelmente, será, várias vezes, invocado, pelas funções que exerce na peça.

Seu primeiro mérito está na idealização do espetáculo, pela preocupação, muito bem explicitada no trecho acima, extraído do “release” da peça. Realmente, faz-se necessário, cada vez mais, que pessoas demonstrem interesse pela preservação e valorização das nossas tradições culturais e, mais que isso, ajam, ponham a mão na massa, produzindo obras de arte, voltadas para essa temática, em qualquer que seja a linguagem. No TEATRO, serão, sempre, de grande valia, devido à maior proximidade do público com o material explorado cenicamente.

Como diretor de si mesmo, seu trabalho também deve ser louvado. Ficar em cena, sozinho, por uma hora, ainda que cercado de tantos atrativos visuais, não é tarefa fácil para um ator, que depende muito das soluções de um bom diretor, para que o espetáculo não caia na monotonia, principalmente quando se trata de um monólogoEnfadonho é tudo o que este espetáculo não é, em função das excelentes resoluções encontradas pela direção, assim como o trabalho de direção de movimento, que parece ter surgido naturalmente, à medida que o processo ia se desenvolvendo e a personagem tomava corpo. É claro que, sendo o diretor e o ator, a mesma pessoa, aquele irá procurar, com mais sentido, o que o faça este permanecer melhor, numa zona de conforto.

Já que o ator foi chamado às minhas observações, tenho a dizer que é uma pena que BRUNO, ou melhor, o espetáculo, não esteja habilitado a concorrer aos prêmios de TEATRO, de 2018, no Rio de Janeiro, pelo fato de não ser inédito, porque, se lhe fosse permitido participar de tais competições, o nome de BRUNO DE SOUSA, certamente, estaria concorrendo à categoria de Melhor Ator, com grandes chances de vitórias. É, para mim, uma tarefa difícil, traduzir, em palavras, a minha enorme emoção, ao vê-lo atuando. Sua composição de personagem é das mais interessantes que já vi, na minha vida, trabalhada, centímetro a centímetro, na postura corporal, nas máscaras faciais e na voz. Há, para isso, uma considerável ajuda de uma maquiagem surpreendente, sem artificialismos, de uma naturalidade incrível, a ponto de dar a impressão de que o ator usava uma máscara de látex, daquelas que aderem, totalmente, à pele, quando, na verdade, se trata de um riquíssimo trabalho artesanal, feito para cada sessão, pelo próprio ator, e retirado, parte dele, ao final do espetáculo, na hora dos aplausos.

A verdade que BENEDITA, ou melhor, Bruno nos passa é fantástica. Sua interpretação é irretocável, irrepreensível, natural e emocionante. Não há como não reconhecer isso.

Quanto ao texto, este é o único elemento sobre o qual não poderei tecer tantos elogios, porque vi, nele, apenas um ponto de partida, um referencial, para que o ator pudesse mostrar o seu trabalho, o eu enorme talento de intérprete. Não é ruim; há, inclusive, algumas passagens bem interessantes, mas, no todo, creio que faltou algo à dramaturgia, o que, de forma alguma, torna o espetáculo menos lindo.

Seria injusto, se não citasse os nomes de DANILO PINHO e FÁBIO VIDAL, na “orientação”, segundo a ficha técnica, o que entendi como um auxílio na direção, salvo engano.

cenografia é uma obra-prima, uma obra de arte. Não vou entrar em detalhes, para não tirar, aos que ainda verão a peça, o prazer, o deleite de ver e descobrir como ele vai sendo desconstruído e construído, em cena, pelo próprio ator. Só posso adiantar que se trata de uma idea muito original, criativa, que cabe numa gigantesca trouxa de roupas para lavar e que também seria merecedora de premiações.

O brilhantismo do espetáculo está muito, também, na linda iluminação, a cargo de PEDRO DULTRA, que idealizou um desenho de luz capaz de pôr em evidência detalhes do cenário e da interpretação, assim como serve para separar o onírico do real.

Neste espetáculo, um dos fatores mais interessantes é que todos os elementos “tecno-cênicos” dialogam entre si, todos falando o mesmo idioma. Assim, há uma perfeita comunhão entre cenáriofigurinovisagismoiluminação

figurino, assinado por DIANA MOREIRA, também impressiona, por sua “suigeniridade” (merece até um neologismo). É inventivo, prestando-se ao desenvolvimento das cenas, pois comporta “n” bolsos e bolsas acopladas, de todos os tamanhos, de onde saem elementos essenciais para o desenrolar do espetáculo. Uma genialidade!

Quanto ao visagismo, termo que passou a ser utilizado para fazer referência à caracterização física de um personagem, abrangendo a maquiagem, vou me deter nesta, sobre a qual já fiz referência, para louvar o trabalho de criação de RAMONA AZEVEDO, capaz de transformar o rosto do jovem BRUNO no de uma anciã, caquética, quase sem dentes, envelhecida e desgastada, pelas dores da vida Outra obra que merece todos os aplausos.

Além dos muitos sons e onomatopeias produzidos pelo próprio BRUNO, durante todo o espetáculo, o clima da peça, o universo de BENEDITA, também é criado pela ótima trilha sonora, a car4go de LEANDRO VILLA.  

“BENEDITA” é um espetáculo que emociona muito, mas também diverte; que nos transporta a um Brasil tão distante de nós, mas que não pode, nem deve, ser ignorado; que é uma prova viva de que não é necessário um caminhão de dinheiro, para se produzir um excelente espetáculo teatral; que nos faz acreditar no artista brasileiro e colocá-lo na posição de destaque que merece.

Assistir a “BENEDITA” é quase uma obrigação, para quem gosta de TEATRO, com todas as maiúsculas.

E VAMOS AO TEATRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, escreva para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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