‘Batistério’ traz personagens bem desenhados e direção precisa

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Casa de um Pastor. Esposa, empregada. Valores expostos oralmente, mas não praticados. Aparências vazias, imagem familiar falsa, que os próprios envolvidos sabem que é falsa, mas não param de repeti-la entre si. Aborto, infidelidade, submissão, inércia. Ambiente pesado… difícil de ser retratado em uma peça sem cansar ou ferir o público. Mas não fere: faz refletir. Escolhas cênicas simples e absolutamente sensíveis tornam o espetáculo “Batistério” – que deixa o Espaço Sergio Porto neste fim de semana – um ótimo exemplar de um teatro realista de excelentes personagens.

Como o próprio autor e diretor do espetáculo, João Cícero, escreve no programa da peça: “quem nunca esqueceu de seus vícios moralizando o dos outros?” O Pastor não abandona o estereótipo de homem “do bem”, altruísta, educado… mas também não abre mão de seus desejos mais egoístas, como o tesão pela empregada (que, submissa, não o nega) ou a exigência de ser chamado de “pai” por um filho que mandou para ser criado pela tia.

Sua esposa, uma mulher completamente conformada com a vida que acabou se abatendo sobre ela, não esconde a insatisfação para o marido, os próprios sentimentos para o filho, ou o cuidado com a empregada, para quem se coloca quase como uma aliada, uma semi-confidente, ainda que não consiga mais estabelecer uma relação de doçura.

A empregada tenta implantar uma alegria a cada momento, e ficamos na dúvida por toda a peça se essa leveza é de fato um aspecto dela que não se perdeu dentro daquela casa, ou se é também uma fabricação artificial para tornar possível o convívio com a realidade.

O filho, personagem de menos contradições dentro da peça, é o ser externo que, quando aparece, centraliza os vetores, invertendo os papéis, trazendo à tona emoções que pareciam inexistentes e desencadeando um desfecho inesperado para o enredo.

Saindo dos personagens, opções simples fazem toda a diferença, tanto reflexiva (a citação de passagens da bíblia exponencia o absurdo moral de uma casa “cristã”) quanto cenicamente: o uso de comida real sobre a mesa colore uma atmosfera de tom pastel no início, que gradativamente se escurece; as metáforas com o leite como sêmen e o próprio vestido da empregada como sangue conseguem imprimir uma concretude em assuntos com os quais não temos coragem de nos embater sequer em pensamento.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, escreva para pericles.vanzella@rioencena.com.br.