‘Banaliz(ação)’: um olhar sobre o comportamento geral do público nos teatros

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Prazer! Sou Gilberto Bartholo, 67 anos, ator, professor, crítico teatral, jurado do Prêmio Botequim Cultural (já pertenci ao júri da Aptr) e mordido pelo bichinho do teatro desde sempre, mas, “oficialmente”, aos 15 anos de idade, depois de ter assistido a uma leitura dramatizada de “A Margem da Vida” (The Glass Menagerie), de Tennessee Williams. Feliz pelo convite para ocupar este espaço, farei uso dele com o objetivo de rabiscar sobre as coisas que envolvem este mágico mundo de realidade transformada em ficção. Críticas, principalmente.

Escolhi, para este primeiro texto, falar sobre o comportamento, em geral, das pessoas que frequentam teatro no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, as duas praças que visito habitualmente. Moro no Rio e é claro que o que vou escrever não diz respeito a todos, mas, infelizmente, atinge uma boa parcela dos ditos “espectadores”. Vou ao teatro, no mínimo, seis vezes por semana, quando não vou todos os dias e falo com experiência. No ano passado, assisti a 321 espetáculos, alguns repetidos.

Ninguém vai a um velório de sunga ou de biquíni; ninguém vai à praia de terno ou de vestido longo. Não! Não é dos trajes das pessoas que vou falar. Cada um que se vista como bem entender! É apenas para que se tenha uma ideia da dimensão do que desejo abordar: a adequação de comportamento; não no trajar, mas no comportar-se como um espectador. Também se aplica ao cinema ou a outros locais de lazer.

Quem se propõe a sair de sua casa, para ir a um teatro, expondo-se a vários perigos, disposto a gastar uma quantia, às vezes, considerável, com ingressos, combustível, estacionamento e um eventual jantar, deve ter em mente que o espetáculo tem de ser aproveitado do primeiro ao último minuto, e que ninguém tem o direito de estragar o deleite alheio.

É inadmissível que se durma numa plateia; que se converse, o tempo todo, com o (a) acompanhante, mesmo que seja para fazer comentários sobre o que se está vendo; que se faça piquenique nas poltronas, com a produção de sons desagradáveis. Há lugar e momento para tudo.

A maior das “heresias” é fazer uso do telefone celular, da forma que for. Para mim, isso é uma doença, na iminência de se transformar numa epidemia. Acima de tudo, trata-se de uma grande falta de educação e de consideração, para com os artistas e as pessoas ao seu redor. Incomoda, atrapalha, tira a concentração… Teatro não combina com celular!!!

É fundamental que o espectador se abstraia de qualquer coisa que não seja prestar atenção ao que está acontecendo no palco. É para ele que os atores lá estão. Foi para ele que alguém escreveu aquele texto. Seja para, simplesmente, fazê-lo se distrair, com uma peça de puro entretenimento, seja para fazê-lo refletir sobre o tema abordado, faz-se necessário que o palco seja seu único foco. Olho no que vê e ouvidos abertos para o que é dito!

Ultimamente, além da “praga” dos celulares, venho me incomodando muito com o aplauso de pé, o qual foi totalmente banalizado, em nome não sei de quê. As pessoas não conseguem perceber que há uma gradação no ato de aplaudir? O espetáculo pode agradar ou não. Muito ou pouco. Em intensidades distintas.

Sou do tempo em que o aplauso, tão ambicionado pelo artista, como forma de reconhecimento do seu trabalho e do seu talento, era, mais ou menos caloroso, marcado, apenas, pela intensidade de duas mãos produzindo sons. Aplaudir de pé e gritar “Bravo!” só ocorria em ocasiões muito especiais, quando uma Fernanda Montenegro ou um Paulo Autran, apenas para citar dois de nossos monstros sagrados (hoje, existem outros), faziam por merecer tal ovação.

Atualmente, aplaude-se de pé até quando o(a) ator(atriz) erra o texto ou leva um tombo em cena. Não estou exagerando. Basta que uma pessoa se levante, para que quase todos o acompanhem, mesmo que o primeiro a se levantar o tenha feito por ser das íntimas relações com alguém em cena, a despeito de a peça merecer apenas um aplauso “social”.

Proponho que as pessoas se conscientizem de que o teatro é um lugar “sagrado”, que tudo e todos os que lá estão merecem respeito e consideração. E que aprendam a se comportar numa casa de espetáculos, assim como devem saber como tem de ser o comportamento adequado numa festa ou numa sala de aulas.

Perdão, se não era bem isso o que desejavam ler ou se eu “peguei pesado!”, mas, para os que não me conhecem, não sou ranzinza; sou, sim, um grande amante do teatro e, por ele, dou minha cara a tapa.

Já ia me esquecendo: sinceridade é uma das minhas poucas qualidades. #prontofalei

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br

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