Balanço teatral: 2018 teve excelentes espetáculos mesmo diante da panfletagem política

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Como o Rio Encena realiza todo ano, hoje fazemos uma espécie de “retrospectiva”, ou “balanço” do circuito teatral carioca de 2018, ano eleitoral que jogou para os palcos um viés político impossível de ser ignorado.

Foram inúmeros os espetáculos que panfletaram, divulgaram uma visão política, inseriram frases prontas e “hashtags” em voga nas redes sociais que, por vezes, sequer tinham qualquer coisa a ver com a peça. Uma mancha no ano, como não cansei de opinar em diversas críticas, mesmo diante da afirmação rasa de que “todo teatro é político” (frase corrente entre setores da classe artística e acadêmica). Ainda que seja empregada com variações (como “todo teatro é um ato político”), o maior problema do uso desta frase é o estreitamento que se faz de “política”: em uma de suas acepções mais primordiais, “política” seria aquilo que diz respeito à vida em comunidade. Neste sentido, não poderia haver melhor descrição para o ato teatral, que, até por ser uma arte coletiva, tem na vida em sociedade o seu objeto. Isso não significa que as encenações devam insinuar julgamentos, ironizar ou sugerir posições ou leituras sociais para seus espectadores. Fazer isto é direcionar, não estimular a reflexão.

Mesmo com esta prática, houve montagens que de fato se dedicaram à discussão política de forma contundente, e que me sinto compelido a destacar como contraposição à distorção que apontei como herança negativa do ano: “A vida não é um musical”, “Será que vai chover”, “Lugar nenhum” e “A última aventura é a morte”, enumeradas na ordem em que foram assistidas.

Para sair da marca político-partidária, e que entendo ter sido muito motivada pelo ano eleitoral e pela polarização em que estamos vivendo há anos no Brasil, tivemos ótimos exemplos de espetáculos de envergadura que empregaram linguagens originais: “As mil e uma noites” foi, talvez, o que mais me marcou pela singularidade da proposta, enquanto “Catarse [uma para-ópera]”, “A Garagem”, “Jogo da Vida” e “Sobre o que não sabemos” traduzem a confluência de uma ideia ímpar com a continuidade de um trabalho: são casos de um tema e/ou formato diferenciado que alcançaram um estágio de maturidade.

Por último, duas peças que me tocaram muito, e por mais que eu tenha tentado dissecar meu arrebatamento emocional nas críticas, não posso negar seu protagonismo: “Vim assim que soube”, em que o ator Renato Carrera expõe uma condição de morte anunciada, e “Maria!”, monólogo do ator Claudio Mendes com direção de Inez Vianna, uma joia, uma beleza, o espetáculo que mais me marcou no ano de 2018.

Um abraço e até o ano que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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