‘Ayrton Senna – O Musical’ – nem melhor, nem pior; apenas um ‘musical’ ‘diferente’

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Quem me conhece e acompanha o meu trabalho sabe que não escrevo sobre espetáculos que não me agradam, o que não significa dizer que, se não escrevi sobre uma determinada peça, foi porque, necessariamente, não tenha gostado dela. Indo ao TEATRO, praticamente, todos os dias, cinco vezes por semana, no mínimo, assistindo, às vezes, a mais de um espetáculo no mesmo dia, todo tempo de que eu dispusesse seria insuficiente, para escrever sobre tudo o que vejo e que valeria a pena ser registrado.

Por outro lado, se não gostei, não escrevo mesmo, porque tenho por princípio respeitar o ser humano, em primeiro lugar, e o trabalho de profissionais, que estão fazendo o que “julgam ser o melhor”, e não me acho no direito de atrapalhar a vida de ninguém que está exercendo sua profissão honestamente, ainda que de forma a não ser do meu agrado. O meu silêncio me basta; não quero magoar ninguém, menos, ainda, a mim. Quem não concordar com esse meu posicionamento, fique na sua. Agradeço.

E cá estou eu escrevendo sobre “AYRTON SENNA – O MUSICAL”. Sinal de que gostei? Não! E por que estou escrevendo? O melhor seria dizer que gostei até quase a página 100, de um livro de 200. Cheguei próximo ao meio do caminho. MAS NÃO FICO EM CIMA DO MURO.

Se resolvi perder muitas horas – isso mesmo: HORAS, do meu precioso tempo, porque não escrevo por escrever; pesquiso bastante –, é porque acho que há muita coisa, sobre o espetáculo, que merece ser dita e eu não ficaria em paz, se não exorcizasse os meus fantasmas e enaltecesse o que deve ser enaltecido.

Sim, eu assisti a esse espetáculo, na sessão para convidados (acho a expressão “sessão VIP” muito cafona e pedante) e saí triste do Teatro Riachuelo, com os erros graves que, NA MINHA VISÃO, computei.

Li todas as críticas publicadas, sobre a peça, e, de uma forma geral, elas me incomodaram bastante, pela “contundência” de cada uma, embora EU RESPEITE A POSIÇÃO DE TODOS OS CRÍTICOS, MESMO QUE COM ELAS NÃO CONCORDE, ASSIM COMO EXIJO QUE RESPEITEM A MINHA.

Pondo, numa balança, os prós e os contras, senti que o prato dos “contras” pesou mais. Não escrevi sobre a peça e esperei a poeira baixar. Não me deixei levar pelo emocional, uma vez que, por experiências ruins anteriores, em espetáculos com a chancela da AVENTURA ENTRETENIMENTO – muitas -, já parti para aquela sessão com uma expectativa muito pequena de assistir a um bom espetáculo. Em outras palavras, levei comigo um “pré-conceito”. E não tenho vergonha nenhuma de assumir e confessar isso. Sou humano.

Sim, eu revi “AYRTON SENNA – O MUSICAL”, no último sábado, dia 2 de dezembro de 2017), e resolvi escrever sobre o espetáculo, o que, até então, não estava nos meus planos.

Tudo o que vi de errado, SOB O MEU PONTO DE VISTA, continua lá, errado, infelizmente, e não vejo possibilidade de ser mudado, porque está associado a um conceito da direção / produção, porém consegui enxergar aspectos positivos, que me fugiram, na primeira apreciação, ou que não me pareceram tão relevantes. Revi e mudei meus conceitos.

Embora, para muitos leigos, possa parecer fácil e uma grande brincadeira, fazer um musical é algo muito sério, uma tarefa dificílima, porque, além do básico, que é a parte dramatúrgica, ainda entram componentes muito complicados, que são o canto e as coreografias.

Quando alguém se propõe a montar um espetáculo musical, deve estar consciente de que terá de quebrar muita pedra, sob um sol escaldante, passando fome e sede, sabendo que, por melhor que possa ser o resultado, ele nunca vai agradar a gregos e a troianos, como, aliás, acontece, também, com qualquer outro tipo de espetáculo. Aliás, como acontece em qualquer atividade artística. A exposição de uma obra de arte, o torná-la pública, naturalmente, vai gerar opiniões, favoráveis ou não. Há um público e uma crítica especializada, prontos a aplaudir ou a vaiar.

O que acontece neste “musical” (as aspas não foram colocadas por acaso nem para atribuir realce positivo)? É porque foge ao MEU conceito de MUSICAL.

Em primeiro lugar, temos de entender que a produção do espetáculo vem com uma proposta, já posta em prática em montagens anteriores, que agrada a uns e desagrada a outros. É necessário deixar bem claro que o conceito de “musical” deles não bate com o meu e dos seus críticos opositores. Até aí, nenhum problema. Cada um que conceitue o seu musical como bem entender. Não podemos, porém, deixar de reconhecer que a produção de “AYRTON SENNA – O MUSICAL” não quer enganar ninguém, não esconde, de ninguém, o que pretende com suas montagens. Nesse aspecto, são autênticos e honestos: “Buscamos realizar um musical diferente: um espetáculo atemporal, misturando canto, dança, interpretação e circo – todas as artes cênicas num mesmo espetáculo, apresentando músicas originais, criadas, especialmente, para ele”.

O trecho anterior foi extraído do programa da peça, assinado por seus produtores, representando a AVENTURA ENTRETENIMENTO.

O adjetivo “diferente” é que faz toda a diferença. “Diferente” em quê? Por quê? “Diferente” para o positivo ou para o negativo?

Para ser curto e direto, dois são os grandes problemas do espetáculo, que, A MEU JUÍZO, geraram tantas críticas negativas e que são, realmente, muito sérios. São o texto e a direção. Esses elementos são os dois vilões da peça. Não é que não existam outras falhas, mas a dramaturgia é o que, antes de tudo, sustenta o TEATRO, ao lado do dedo certo de um bom diretor, ambos associados a outros elementos.

A dramaturgia deixa muito a desejar. É inconsistente, as cenas são previsíveis e desprovidas daquele elemento mágico, que faz o espectador mergulhar na trama. Se o público se interessa pelo que está vendo no palco, é porque se trata de AYRTON SENNA, embora a peça não seja biográfica.

                                                                                        SINOPSE

 A história do brasileiro AYRTON SENNA, tri-campeão mundial de Fórmula 1, o levou a ser reconhecido como um dos maiores pilotos de todos os tempos, herói nacional e ídolo internacional. Mas é a essência da sua personalidade e caráter, com espírito guerreiro e de solidariedade, que é retratada no espetáculo.

Não se trata de um musical biográfico nem o roteiro é apresentado de forma linear. Embora seja inspirado em fatos reais, da vida do piloto, trata-se de uma ficção, baseada nos momentos que duraram, para ele, a fatídica corrida do Grande Prêmio de San Marino, em 1º de maio de 1994, em Ímola, na Itália, na qual AYRTON perdeu a vida, ao colidir com um muro de proteção, quando, inexplicável e lamentavelmente, não conseguiu completar uma curva, a Tamburello, que, hoje, não faz mais parte do circuito.

Tudo se passa no inconsciente do piloto, durante as últimas cinco voltas da corrida, com inúmeros momentos de “flashbacks”, e mostra o lado humano de uma pessoa, que, apesar de viver desafiando a morte, a mais de 300 km/h, também sentia medo.

Antes da corrida, SENNA se deixa abater, emocionalmente, em função de um acidente, envolvendo o colega de pista, Rubens Barrichello, e pela morte do piloto austríaco Roland Ratzenberger, nos dois treinos que antecederam a prova.

Na verdade, o roteiro se desenvolve em duas histórias paralelas, com momentos marcantes da vida de AYRTON (HUGO BONEMER) e de BECO (JOÃO VÍTOR SILVA), seu apelido, fora das pistas.

Os bastidores de uma corrida de Fórmula 1 estão presentes nesta produção.

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Para os “sennamaníacos” ou os mais ligados à vida pessoal do grande nome da Fórmula 1, aqueles que, pelo menos, tiveram a oportunidade de ler uma de suas várias biografias, não é tarefa tão complicada entender a peça, desde seu início. Para mim, por exemplo, apenas um grande admirador do piloto, que não perdia uma de suas corridas e que, após sua morte, jamais voltou a ver uma, e, certamente, para a maioria da audiência, fica um pouco difícil compreender o que se passa em cena, em função da estrutura dramatúrgica eleita pelos autores da peça.

Custa-me muito dizer isso, uma vez que o texto é assinado por dois queridos amigos, cujos expressos talentos não consegui reconhecer ali. Não vi um décimo da competência de CLÁUDIO LINS, o mesmo que escreveu uma obra-prima do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO, a vitoriosa versão musical de “Beijo no Asfalto”; menos, ainda, a genialidade de CRISTIANO GUALDA, que, a oito mãos, escreveu uma excelente “ópera-rock”, motivo de orgulho para quem ama musicais, “Zé Com A Mão Na Porta”. Ambos os autores estão anos-luz de distância de suas obras-primas.

Mais comprometedora que a dramaturgia é a equivocada direção, de RENATO ROCHA, que fez a sua opção, de quase desprezar o TEATRO, para privilegiar o circo, em especial o ótimo trabalho dos oito excelentes artistas acrobatas. A direção peca, e muito, pelo excesso, pelo exagero daquilo que, se bem dosado, poderia ser um grande ganho para o espetáculo, mas que acaba aborrecendo e, até mesmo, irritando; a mim, pelo menos.

Para que tanta “pirotecnia” acrobática, tantos brilhos, tantos “neons”, tantos “leds”, tanto apelo visual, em detrimento de um espetáculo teatral? A resposta, porém, a esta pergunta está no “release” e no programa da peça. É uma pena que a intenção de quem produziu e dirigiu o espetáculo tenha sido elevada à milionésima potência.

Se formos conferir o currículo de RENATO ROCHA, constataremos que ele é vasto e brilhante, uma vez que nele constam trabalhos de uma bela carreira internacional, por quase dez anos, ligados ao circo, principalmente, com destaque para  espetáculos em Londres (para a Royal Shakeaspeare Company, The Roundhouse, LIFT – Festival Internacional de Teatro de Londres – e Circolombia), para a Bienal Internacional de Artes de Marselha, Teatro Nacional da Escócia, Festival Internacional de Dança de Leicester, União Europeia e Unicef.

Que lindo!!! Bravo!!! Parabéns!!! MAS AQUI NÃO FUNCIONOU.

Isso acontece. E só acontece com quem faz. Picasso não foi Picasso desde que lhe deram uma palmadinha no bumbum, quando, para nosso deleite, o grande pintor veio ao mundo. Shakespeare não escreveu apenas obras-primas. Os grandes mestres do nosso TEATRO, nas mais diversas funções, também já cometeram seus “pecadinhos”. São todos seres humanos.

Do “release” da peça, enviado por BRUNA TENÓRIO (MNIEMEYER ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO), extraí um trecho de uma declaração do diretor: “Não tem como fazer um espetáculo sobre SENNA sem muita velocidade, sons e luzes. Teremos muitos números aéreos e pendulares. Será uma experiência sensorial, multidisciplinar, uma grande homenagem a um dos nossos maiores heróis”. Concordo, em parte, com RENATO, só que não precisava pisar tão fundo no acelerador. Acelera, AYRTON! Pisa no freio, RENATO!

Eu achei que o plural poderia ser mais singular.

A primeira vez em que vi a peça não valeu muito, porque era uma sessão para convidados e isso faz uma diferença enorme de quando o público é pagante e vai assistir ao espetáculo porque tem interesse em fazê-lo. Na sessão para convidados, à saída, ouvi muitos comentários desabonadores, alguns cruéis, de gente que, supostamente, entende de TEATRO e que, paradoxalmente, aplaudiu e gritou “Bravo!”. O velho corporativismo e a triste falsidade. Alguns, talvez, com uma pontinha de inveja. Com relação a meia dúzia daquelas pessoas, tenho certeza disso.

Quando revi o espetáculo, cuja audiência, que lotava os mil lugares do Teatro Riachuelo, era composta de pagantes, tirando alguns “gatos pingados” de convidados, como eu, só ouvi elogios, de gente que não entende, tecnicamente, de TEATRO; de musicais, principalmente. Sim, são leigos. Mas o que isso importa? Elas gostaram e se emocionaram, dizendo que iriam recomendar a peça a seus parentes e amigos. Soube, também, que essa reação vem acontecendo após cada sessão. São elas quem garante uma bilheteria, a qual, por si só, não basta, para manter um espetáculo daquele porte em cena por muito tempo.

Mas voltemos aos erros da direção. Não faz o menor sentido, por exemplo, uma cena importante, um diálogo sério, inserido no contexto da trama, quase no proscênio, sendo relegada a segundo plano, por gente passando, de um lado para o outro do palco, ao fundo, andando de monociclos, de patins ou se equilibrando sobre pneus, com figurinos excessivamente apelativos, agredindo os nossos olhos, numa tremenda poluição visual, com um mar de luzes brilhando, freneticamente, ou pessoas penduradas por cordas, contorcendo-se, sem nenhuma relação com a cena, dividindo a atenção do espectador ou desviando-a, totalmente, do foco dramatúrgico, ainda que este fosse fraco. O mais grave é que isso se repete muitas vezes. Esse é, A MEU JUÍZO, o pecado maior da direção.

Confesso minha total ignorância, até que alguém me explique o porquê de colocar HUGO BONEMER, que vive o protagonista da “história”, pendurado, de uma maneira nada confortável, conversando com os pais (de AYRTON), sentados, ou melhor, deitados no chão. Explico: o casal está sentado em duas poltronas, com as costas destas apoiadas no chão. Dá para visualizar a cena? Não entendi a proposta e a achei bizarra. Alguma relação com o “cockpit”? Repito que o problema pode estar em mim, porém divido-o com dezenas de pessoas que me disseram a mesma coisa.

Ainda que todos saibamos da existência de corrupção no meio policial (E como!!!), as cenas em que um “homem da lei” exige propina do personagem BECO (JOÃO VÍTOR SILVA), apelido de AYRTON, em dinheiro e o seu relógio, são de um mau gosto incrível; é conferido a elas (são dois momentos) um destaque exagerado, desnecessário (Apareceu, do nada, por estar, infelizmente, na ordem do dia?), assim como totalmente desnecessária é a cena em que umas moças ensaiam para um “show”, ou coisa parecida, num clube.

Mas é claro que também há acertos, por parte da direção, como a cena da largada de uma das corridas, feita com acrobacias aéreas, que também servem para mostrar as várias ultrapassagens. Isso é muito bom.

Outra boa cena é a que trata da discussão, sobre a segurança nas corridas, entre os pilotos e seus organizadores, a cúpula da Fórmula 1.

Também merece destaque positivo a cena em que BECO e WANDSON (LUCAS VASCONCELOS) pegam um táxi (Para fugir de um engarrafamento, os três – eles e o motorista – são içados, acima dos carros, numa das corridas. É ótima essa fusão.), rumo à escola do adolescente, onde BECO se passaria por um primo do jovem e falaria sobre sua profissão. Esse momento também é muito bom, embora o texto seja um pouco exagerado, caindo na pieguice, se bem que a mensagem nele presente seja construtiva. É uma pena que, nesse momento, dois patinadores, com patins e roupas cravejadas de “leds”, fiquem fazendo firulas, no palco, criando uma “sombra” para o texto. Se não me equivoco, esta cena acaba sendo suja, também, com a entrada de alguns guarda-chuvas com aplicações de “leds”. Desperdício de imaginação.

Não compromete a cena em que são abordados os amores de SENNA. A ex-esposa, Lílian Vasconcelos (casaram-se em 1981) é vivida por ESTRELA BLANCO, que interpreta uma das mais belas canções da peça, se bem que num tom, pereceu-me, muito desconfortável para ela. As duas namoradas famosas, Adriana Galisteu e Xuxa, aparecem nessa cena, representadas por duas atrizes, as quais participam da canção que ilustra a cena, sem, contudo, serem identificadas. O público percebe quem são as duas.

A famosa rivalidade entre SENNA e ALAIN PROST, vivido por IVAN VELLAME, é bem explorada numa cena em que ambos trocam acusações, por meio de uma canção, interpretada em dupla, que mereceu tantas críticas negativas, mas da qual gosto muito: “Meu Rival”.

Aliás, com relação à trilha sonora original, com quinze canções, compostas por LINS e GUALDA, também tão criticada, dela gosto bastante, principalmente de umas cinco ou seis canções. Compraria, sem pestanejar, o CD, se a trilha fosse gravada e posta à venda. Gostaria muito de poder ouvi-la, em casa, outras vezes.

Agradou-me, também, a cena em que AYRTON vence um Grande Prêmio do Brasil, em Interlagos, pontuada por uma canção muito bonita.

Um dos maiores acertos, dos poucos, desta direção é o tratamento poético dado à morte de SENNA. Emociona, por ser sugerida, não mostrada, fria e cruamente, sem falar na beleza da canção que ilustra a cena, uma das melhores letras da trilha: “E eu vou / Sem medo / Pro encontro mais bonito / É esse o meu destino / Eu vou / Sem medo / E levo aqui comigo / Milhões de coração de um país / Foi onde eu aprendi que ser feliz / É sempre por um triz”.

O melhor momento do espetáculo, para mim, é a longa cena, ligada à corrida em que AYRTON sofreu seu mais grave acidente, no México, que retrata o seu medo, o que até parece ser estranho; ele, que era conhecido e admirado por sua ousadia nas pistas e pela preferência por correr sob a chuva, o que torna o esporte mais perigoso ainda. Mas AYRTON SENNA era, antes de tudo, embora obstinado pelas vitórias, um HOMEM e também tinha direito ao sentimento do medo. A cena é brilhante, pelo conjunto da obra: a canção, o uso de música eletrônica, a interpretação, a coreografia, o cenário, a luz e os figurinos. “Quem tem medo do rugido dessa fera que persegue, pronta pra te atacar? / Quem tem medo desse bicho escondido sob a pele? / O pior rugido vem de dentro / Vem como um silêncio”. Especialmente nessa cena, merece um destaque a atuação de NATASHA JASCALEVICH, que interpreta a metáfora da morte, cantando, de forma ímpar, a canção “Medo”.

O que de melhor existe, no espetáculo, é o elenco, todos afiadíssimos, com excelentes trabalhos, sendo que os devidos destaques vão para HUGO BONEMER, JOÃO VÍTOR SILVA, VICTOR MAIA, LUCAS VASCONCELOS e IVAN VELLAME.

HUGO está perfeito, na pele do protagonista. Talhado para musicais, ele revela, a cada trabalho novo, uma maturidade artística a olhos vistos, dominando a interpretação, o canto e a dança. Depois de sua brilhante atuação em “Yank – O Musical”, espetáculo em que não pôde ser indicado a prêmios, pelo fato de a temporada não ter atingido um número mínimo de apresentações, exigido pelos diversos Prêmios de Teatro do Rio de Janeiro, este é, sem dúvida seu melhor trabalho. O ator é exigido, física e emocionalmente, ao extremo, durante o tempo que dura a peça, participando de quase todas as cenas. Pareceu-me, contudo, que ele não está cantando confortavelmente, o que poderia ser melhorado com as canções que interpreta passadas para um tom mais baixo. É a impressão de um leigo, porém de bons ouvidos. Mesmo assim, é um enorme prazer ouvi-lo cantando. No cômputo geral, o resultado é muito bom.

JOÃO VÍTOR também está à altura de representar o outro AYRTON, o BECO, seu apelido, na intimidade, antes de sua notoriedade. Fiquei encantado com o trabalho desse rapaz, que interpreta e canta muito bem e, além de tudo, é dono de um grande carisma e presença de palco. É excelente a “química” entre ele e LUCAS VASCONCELOS, responsáveis por alguns dos bons momentos da peça.

VICTOR MAIA, que vive um engenheiro, ou pode ser um chefe de equipe, o qual conversa com SENNA, passando-lhe instruções, durante as corridas, aplica, em cena, tudo o que aprendeu em sua carreira, em musicais, pontuada de grandes sucessos. Como ator, cantor e dançarino, VICTOR – pode-se dizer – é um “ladrão” de cenas. Está cantando de uma forma admirável, comovente. O seu solo, na canção “Herói Impune” é arrebatador, embora a letra da canção seja uma das que deixam a desejar: “Não dá pra ser herói impunemente”.

Quanto a LUCAS VASCONCELOS, o adolescente que está debutando, no TEATRO, com experiência, apenas, no canto, por ter participado do programa “The Voice Kids”, chamo a atenção de quem me lê para o seu trabalho. Como canta o rapazinho! Há de ser, certamente, um grande nome do TEATRO MUSICAL. Na sessão para convidados, como não poderia ser de outra forma, LUCAS demonstrou um certo nervosismo, completamente superado. Sua atuação sofreu um grande “up”, quando o vi pela segunda vez. O jovem, que não morava no Rio de Janeiro, para cá está de mudança, a fim de estudar e investir na carreira teatral. Tenho certeza de que nós, amantes dos musicais, vamos lucrar muito com essa sábia decisão.

IVAN VELLAME entra, como destaque, por seu personagem, tão marcante na vida de AYRTON. Não são tantas as suas cenas como ALAIN PROST, entretanto, em cada uma delas, seu trabalho é bastante notado.

FELIPE HABIB, profissional tarimbado, acerta bastante nos arranjos, contudo deveria ser mais aplicado na direção musical. Como já tive a oportunidade de dizer, algumas canções me pareceram estar num tom não muito confortável para seus intérpretes. Foi a impressão com que fiquei.

Gostei bastante dos cenários e da direção de arte, a cargo de um grande especialista no assunto, GRINGO CARDIA. Quase tudo no tamanho XXG. Todo material cênico, como não poderia deixar de ser, reporta ao universo das pistas de corridas de Fórmula 1. São capacetes, boxes, arquibancadas, faixas, sinalizações e pneus, por exemplo, inclusive um gigantesco, muito bem explorado na cena do medo. Não poderia faltar um enorme painel de “led”, ao fundo, onde são projetadas belas imagens, em videografismo, e dois “boxes”, montados nas duas laterais do palco, que servem para ocultar a banda, revelada apenas ao final do espetáculo.

Dentro da proposta da peça, os figurinos, de DUDU BERTHOLINI, se encaixam perfeitamente, alguns, porém, de gosto duvidoso, como os das duas namoradas de SENNA (muito estranhos), em contrate, por exemplo, com a genialidade dos figurinos da cena do medo (Ela, outra vez, citada.). Os macacões – todos – são um espetáculo à parte. Lindos! Há de se louvar a técnica empregada na confecção desses figurinos, considerando os muitos movimentos dos atores em cena, daí a resistência do material empregado e o apuro na confecção, visando a proporcionar conforto aos artistas, facilitando-lhes o trabalho em cena.

LAVÍNIA BIZZOTTO, com sua experiência em trabalhos com a Intrépida Trupe e a Cia. de Dança Deborah Colker, assina uma boa coreografia, tanto na parte do solo como no que se refere à aérea.

Um brasileiro, que faz parte da equipe de criação do Cirque du Soleil, RODOLFO RANGEL, foi contratado para um trabalho, essencial, de suporte a tudo o que se refere a números circenses. Além de contar com oito artistas profissionais da acrobacia, RODOLFO aproveitou o potencial, para isso, de alguns atores do elenco, o que enriquece o trabalho e ajuda a que seja atingida a proposta da peça. Um grande acerto da produção.

O espetáculo é um “show” e, para tanto, necessitava de uma luz de “shows”. Essa era a proposta; assim o fez o conceituado “designer” de luz RENATO MACHADO.

Quando as luzes da plateia do Teatro Riachuelo se apagam, para o início do espetáculo, durante um bom tempo, antes que a ação, propriamente, comece, são ouvidos, no escuro, os ruídos ensurdecedores do ronco dos motores, antes da partida de uma prova, e o público começa a ser transportado para a arquibancada de um circuito. É tudo muito real, graças ao bom trabalho de desenho de som, de CARLOS ESTEVES, que, porém, apresentou vários problemas, no dia da sessão para convidados, alguns já sanados. Nas duas vezes em que assisti à peça, mais na primeira, o som da banda, muito alto, abafa, por vezes, as vozes dos cantores, impedindo que sejam entendidas as letras das canções, que são fundamentais, no desenvolvimento da trama. Esse problema, creio eu, é fácil de ser resolvido, como uma boa equalização.

Com todos os altos e baixos, mais estes que aqueles, não se pode negar que o objetivo desta montagem é alcançado, com relação ao grande público. Agrada e emociona. É justíssima a homenagem a alguém que fazia mais coloridas as nossas manhãs de domingo. O espetáculo toca na memória afetiva de todos e isso já é algo de muito bom.

A AVENTURA ENTRETENIMENTO nos apresenta uma proposta na qual eles acreditam e muita gente também. E tem de ser respeitada, porque há público para todo e qualquer tipo de espetáculo. E não podemos nos esquecer de que profissionais de variados ramos e setores, mais de uma centena de pessoas, estão trabalhando, neste momento de crise, graças a “AYRTON SENNA – O MUSICAL”.

Não me arrependo, nem um pouco, de ter assistido à peça, embora não fosse o que eu gostaria de ver, menos, ainda, por duas vezes, e acho que ela merece ser vista, sim, e que cada um tire as suas conclusões.

Dúvidas, críticas e sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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