‘Ayrton Senna, o Musical’: coragem da proposta e excelente elenco não salvam o espetáculo

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Riachuelo, na Cinelândia, “Ayrton Senna – o Musical” narra aspectos do ídolo a partir da última corrida de Senna, onde a plateia acompanha seus pensamentos. Mesmo com uma dupla originalidade e coragem, ao construir uma narrativa não linear (não tão original assim…) e utilizar o circo no lugar normalmente ocupado pela dança em espetáculos musicais, a peça não consegue arrebatar o espectador nem pelas mensagens que tenta emplacar nem pela memória afetiva. Na real, não entendi a proposta da encenação.

O cenário de Gringo Cardia, como sempre, é grandioso. Aqui justifica-se pois estrutura os diversos números musicais circenses.

Os figurinos de Dudu Bertholini são icônicos, o que é fundamental, uma vez que é o principal elemento que remete ao mundo de Ayrton, funcionando como referência de realidade e ponte entre espectador e ídolo.

A iluminação de Renato Machado e as atuações vão além da impecabilidade técnica e inserem nuances em um espetáculo calcado no apoteótico. Todo o elenco executa muito bem (quando não brilhantemente) seus personagens e seus papeis corporais e musicais. Destaque para Victor Maia, que lida com os três aspectos (canto, corpo e interpretação) o tempo inteiro e consegue se mostrar igualmente a vontade em todos!

Em suma, na contramão do que poderia ser uma digital diferente ao gênero, a peça fica no meio termo: não foca em dar relevo aos personagens (carência comum em grandes musicais), em especial àquele que todos foram ver (e neste quadro, o bom ator Hugo Bonemer pouco pôde fazer), e também não consegue construir números musicais memoráveis (salvo algumas exceções, como “Herói Impune”), em parte porque eles não resultam de uma condução dramática consistente (ou seja, não se justificam), em parte porque os temas destes números são, em sua maioria, conceitos saturados (como perseverança, disciplina e ganância) e já amplamente associados a Senna.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas e sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.