Autor e diretor Márcio Azevedo revela motivação para tratar drama familiar em ‘A Noiva de Cristal’: ‘Preconceito’

Luiz Maurício Monteiro

Dulce (Ana Gasque, de branco), tem a companhia da sinistra enfermeira de preto, interpretada por Joana Izabel

Drama familiar, poesia, psiquiatria, atmosfera sombria e um ato contra o preconceito. Como se não bastasse reunir todos estes elementos, o espetáculo “A Noiva de Cristal” – que estreou nesta sexta-feira (23), no Teatro Glauce Rocha, no Centro – ainda é inspirado numa história real. Em entrevista ao RIO ENCENA, o autor e diretor Márcio Azevedo falou um mais sobre a montagem que nasceu a partir de um drama que ele testemunhou na própria família: após ter o casamento cancelado, em meados dos anos 50, sua prima-avó Dulce mergulhou numa crise emocional e acabou internada numa clínica psiquiátrica, onde ficou mais de 15 anos – entre idas e vindas – passando pelos mais diversos e dolorosos tratamentos.

A razão para o desequilíbrio de Dulce, aliás, está diretamente ligada a outro ponto importante da peça: a interferência que uma pessoa pode ter na vida e no destino de outra. Acreditando estar fazendo o melhor para a filha, o pai de Dulce lhe diz que o noivo desistira do casório, quando, na verdade, o homem havia morrido. Sentindo-se abandonada, ela começa a apresentar alguns transtornos, e a família, sem saber o que fazer, opta pelo isolamento.

Márcio Azevedo escreveu a peça em apenas 24 horas Foto: Divulgação

O caso de Dulce simboliza um tempo em que acreditava-se que a internação em clínicas, manicômios, sanatórios e afins, era o melhor a se fazer com pessoas que mostravam um mínimo de desvio daquele comportamento considerado o ideal pela sociedade. Tal realidade já não é mais esta, mas Márcio acredita que internações compulsórias – e desproporcionais – ainda são comuns. Daí sua motivação para escrever, em 24 horas, “A Noiva de Cristal”, o nono dos cerca de 15 espetáculos que tem em 26 anos de carreira.

— Antigamente, as pessoas tratavam o louco como doente. Com a Dulce, era assim! Era vista como uma pobre coitada, e isso ficou na minha memória. Naquela época, eu era novo. Hoje, estou com 46 anos, e ainda existe esse preconceito — afirma Márcio, lembrando a convivência com a prima por parte de pai: — Era um amor de pessoa!

Batizada também como Dulce, a protagonista do espetáculo coube a Ana Guasque. Em cena, ela conduz a trama passando pelos questionáveis tratamentos psiquiátricos; com seu sinistro convívio com uma enfermeira vestida toda de preto; e ainda citando trechos de textos de diferentes personalidades como Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Frida Kahlo, Oscar Wilde, Sigmund Freud, Rimbaud e Sócrates, entre outros.

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

O que te motivou a montar esta peça inspirada numa história tão particular da sua família?
O equívoco que se tem em relação à loucura. Antigamente, as pessoas tratavam o louco como doente. Com a Dulce, era assim! Era vista como uma pobre coitada, e isso ficou na minha memória. Naquela época, eu era novo. Hoje, estou com 46 anos, e ainda existe esse preconceito. Já tem uns 30 anos que ela faleceu, e o louco ainda é visto assim: “não pode tocar no louco”, “tira a criança de perto do louco”… As pessoas não conseguem normalizar a loucura, quando, na verdade, trata-se apenas de crises. Mas tem horas, que o chamado louco está bem. Só que não entendem assim.

E o que essa peça tem de real e de ficcional?
Acho que 50% para cada lado. O final é lúdico. Com a louca internada, está uma enfermeira de preto, que no fim, descobre-se que é a morte. E a morte está com a louca desde que ela nasceu. Na verdade, elas são melhores amigas. Isso é ficcional, claro.

Esse é o ponto mais sombrio da peça?
A peça virou um drama de terror. Nunca vi ninguém fazer isso, talvez eu seja o primeiro. Em Porto Alegre (RS), durante uma sessão, uma pessoa começou a rezar na cena em que a louca amaldiçoa o noivo. É uma cena macabra! Tivemos que parar o espetáculo. Numa outra sessão, estavam mãe e filha, e a menina chegou a esconder o rosto para não ver a cena. A trilha sonora também é macabra, o ambiente é todo preto… Então, acabamos dando esta conotação. Depois das apresentações, sempre realizamos debate com psiquiatras e psicanalistas, e várias pessoas dizem acreditar que todos os personagens estão, na verdade, mortos.

A personagem passa por questionáveis tratamentos psiquiátricos Fotos: Jorge Aguiar/Divulgação

Sobre o texto, como você encaixou nomes tão distintos como Drummond, Freud e Frida?
Eu trabalho muito com poesia, e muitas pessoas julgam que todo poeta é doido. Então, nos momentos de lucidez da personagem, ela fala poemas de Fernando Pessoa, por exemplo. Cito Freud quando se explica o que é loucura. Lima Barreto foi internado. Rimbaud também. Já Frida é sobre definição dela do que é loucura. Como todos são domínio público, peguei trechos e fui introduzindo. A exceção foi Drummond. Tive que pagar R$ 1 mil por uma poema dele, podendo usá-lo por um ano.

Ainda sobre o texto, você chama atenção também para a interferência que uma pessoa pode ter na vida e no destino de outra…
O pai acha que a filha vai se recuperar mais rápido se disser que o noivo a abandonou, quando, na verdade, ele morreu dias antes do casamento. A gente conta a história de uma travesti que foi internada na infância. O pai achava que o filho tinha jeito afeminado. Ele ficou num sanatório e quando saiu, virou travesti. Também falamos de uma menina médium que falava com espíritos, e a família, evangélica, a trancafiou por 32 anos. A menina morreu sem receber visitas. Nos anos 50, houve um surto de pessoas usando ópio, se drogando. E uma família decidiu internar um parente viciado. Além da protagonista, contamos estas histórias baseadas em pesquisas feitas em sanatórios. E havia muita maldade, tudo era motivo para mandar alguém para um sanatório. Não tinha parâmetro. E no caso da Dulce, ela é internada depois que o pai conta uma mentira achando que vai salvá-la.

Como foi sua convivência com a Dulce?
Convivi com ela até meus 20 anos. Era uma pessoa querida, mas, claro, tinha suas manias. Ela andava com um saquinho de arroz para entrar em casamentos de quem nem conhecia e jogar arroz nos noivos; existia uma revista de casamento que ela comprava todo mês; chorava em qualquer cena de casamento em novelas. E chorava, ficava toda se tremendo quando alguém sacaneava ela, quando levantavam a saia dela, quando os primos mostravam o p… para ela. Gritava muito! E a Dulce morreu virgem. Cada vez que se falava em sexo, ela entrava em crise. Mas era um amor de pessoa, e eu a amava. Tanto que fiz a peça para ela. Acabou morrendo de velhice.

Vocês levantam alguma bandeira em relação à área da psiquiatria?
Todas. A gente mostra que o sistema manicomial evoluiu, mas ainda existem sanatórios que usam choque elétrico. Esta história da médium que eu contei, ela se repetiu há pouco tempo numa clínica na Gávea. Tem uns quatro anos. Uma família riquíssima internou uma parente umbandista lá. Algumas coisas não mudaram tanto. Outra pessoa foi internada por compulsão sexual. Com algumas condições da esposa, um marido aceitou ser internado. E na peça, a gente fala que a melhor coisa para o loco é o afeto. Se quiser que ele melhore da depressão ou da esquizofrenia, por exemplo, dê afeto.

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