Autor e diretor de ‘Dona Ivone Lara – O Musical’ comenta polêmica sobre tom de pele da protagonista: ‘Surpreso’

Luiz Maurício Monteiro

A diferença nos tons de pele de Fabiana e Dona Ivone gerou polêmica Fotos: Divulgação & Silvana Marques/Divulgação

“Dona Ivone Lara – O Musical” só estreia em 14 de setembro no Teatro Carlos Gomes, mas já está causando polêmica. Dona Ivone Lara (1921-2018), que era negra, será interpretada por alguém com um tom de pele bem mais claro. Trata-se de Fabiana Cozza, cantora de 45 anos, com 20 de carreira, formada na Universidade Livre de Música Tom Jobim, atual Centro Musical Tom Jobim. Tal diferença rendeu uma enxurrada de críticas na página da peça no Facebook. A maioria dos comentários – seja entre as avaliações ou nos comentários do post que anunciou Fabiana – questiona o porquê de não ter sido escalada uma atriz negra para representar um dos maiores ícones da cultura afro-brasileira.

Procurado pelo RIO ENCENA, Elísio Lopes Jr, autor e diretor do espetáculo, se disse surpreso com a repercussão negativa. Ele lembrou que a cantora foi uma escolha da própria família de Dona Ivone. Reforçou ainda que Fabiana – vencedora do Prêmio Música Brasileira 2005 na categoria “Melhor Cantora de Samba” – está apta a protagonizar a montagem por ter uma relação íntima com o samba e com a própria homenageada – já gravaram e se apresentaram juntas – além de ser, sim, negra.

— Estou surpreso porque, para mim, ela é negra. E foi uma sugestão da família. Eles têm acompanhado o processo, aprovaram o conteúdo e, numa reunião, falaram no nome da Fabiana por toda a história que ela tem com o samba e com a homenageada. Talvez seja uma das artistas que mais cantou com Dona Ivone. Não foi nada tirado da cartola. Foi uma escolha orgânica, verdadeira – explicou Elísio, revelando que Fabiana também ficou surpresa: — Mas respeitou as opiniões.

Ainda sobre a diferença entre os tons de pele da intérprete – da fase adulta ao estrelato – e da “grande dama do samba”, o diretor, que é negro, falou em variações dentro da própria negritude.

Fabiana Cozza já gravou e se apresentou ao lado de Dona Ivone Lara Foto: Divulgação

— Por falta de conhecimento, muitas vezes, acaba existindo a intolerância. Mas não é o caso desse espetáculo. O elenco, que está sendo definido nas últimas audições que estamos realizando, será formado em 80% por negros. E a Fabiana é só uma das três intérpretes de Dona Ivone. São três atrizes negras, cada uma com um tom de pele — ratificou.

No entanto, Elísio ponderou, ressaltando que as manifestações são legítimas.

— Se uma pessoa vai à Internet e posta um incômodo deste, é porque ali tem dor. E esta dor vem do racismo. É uma ferida aberta que precisa ser fechada. Acho super importante discutir a questão da representatividade, da presença do negro na mídia e nas artes, e fico feliz que a gente tenha despertado isto. Mas este não é o foco do nosso espetáculo. Queremos homenagear a Dona Ivone.

Entre os protestos, houve quem falasse em boicote ao espetáculo. Elísio, no entanto, não teme que esse tipo de manifestação possa prejudicar a primeira temporada do musical.

— De maneira nenhuma! Acho que esse foi um impacto inicial. Essa discussão ainda vai ganhar maturidade. Até porque só tem este tipo de reação quem não conhece o histórico da Fabiana e não sabe o espetáculo que está sendo montado. É preciso usar um espaço como as redes sociais para difundir a boa informação — complementou.

Situação semelhante na TV

O burburinho envolvendo “Dona Ivone Lara – O Musical” se dá pouco tempo após uma polêmica semelhante na TV. Em maio, estreou na TV Globo a novela das 21h “Segundo Sol”, que se passa na Bahia. Mas, mesmo a população do estado nordestino sendo composta majoritariamente por pessoas que se declaram negras ou pardas – 76%, segundo dados do Ibge de 2013 – os principais personagens são vividos praticamente apenas por atores brancos.

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