Ator e autor sobre nova temporada de ‘O Incansável Dom Quixote’ no Café Pequeno: ‘Que o riso traga reflexão’

Luiz Maurício Monteiro

Além de protagonizar o monólogo, Maksin Oliveira é o responsável pela adaptação do texto Foto: João Julio Mello/Divulgação

Se você assistiu a “O Incansável Dom Quixote” nas suas duas primeiras passagens pelo Rio de Janeiro, em 2014 e 2015, muito provavelmente se surpreenderá caso queira conferir a nova temporada da comédia no Teatro Café Pequeno, no Leblon, que começa nessa quarta-feira (05), às 20h. Quem garante é Maksin Oliveira, protagonista do solo e responsável pela adaptação do clássico de 1605 do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). Em entrevista ao RIO ENCENA, ele ressalta que o humor continua forte na peça, mas agora empregado de maneira diferente.

– Naquela época, o riso era sedutor. Tinha muita piada, o que chamamos de “tiro”, para o pessoal rir. Mas isso quebrava o fluxo da narrativa, que é mais importante do que piada. Agora, retemos mais o público. Tem quem chore de rir ainda, mas também quem chore de emoção. Hoje, o espetáculo é mais elaborado, profundo e bonito. Segue engraçado, só não reduzimos apenas a isso. No começo, era engraçado ridicularizar, mas pensamos como chegar à consternação pelo personagem, que grosseiramente falando, é um cara que quer mudar o mundo, enfrenta desafios, mas é visto como louco. Optamos por ficar mais tocante. Queremos que o riso traga reflexão – destaca Maksin, sem descartar futuras adaptações: – Acho que uma peça nunca fica pronta. Está sempre viva.

No palco, Maksin imprime seu olhar sobre o romance ao narrar as aventuras de Dom Quixote e interpretar não apenas o próprio cavaleiro andante, como também seu fiel escudeiro Sancho Pança; Dulcinéia, a bela por quem se encanta; e seu cavalo Rocinante, entre outros. Ao redor, apenas uma corda, que delimita seu espaço, além de uma mala, de onde saca instrumentos musicais como os mais conhecidos flauta, sino e sanfona; e os espanhóis cucharas (duas colheres) e txistu, uma espécie de flauta.

Aliás, a decisão de se apresentar sozinho com poucos elementos em cena surgiu ocasionalmente. A princípio, Maksin queria ser apenas diretor de uma peça apresentada na rua com 20 atores e uma banda. Entretanto, numa viagem ao Ceará, ele se deparou com uma peça feita exatamente como imaginara. A partir daí, abortou os planos e, meses depois, num curso, acabou tendo a ideia de um monólogo. Talvez, a esta altura, o que ele não esperava era ser tão exigido fisicamente nessa encenação solitária.

– Desgasta bastante. Eu saio nojento (risos). Tem todo um trabalho de condicionamento, corro, alongo bastante antes e depois da peça… É bem cansativo – reconhece.

PARCERIA

“O Incansável Dom Quixote”, que já passou por países de língua latina como Argentina, Uruguai e República Dominicana, é resultado da parceria entre Maksin e Reynaldo Dutra, que assina a direção da montagem. Embora trabalhem com outros profissionais, como os responsáveis por figurino e iluminação, por exemplo, são os dois que estão de frente no projeto. Sobre essa dobradinha, o ator aponta o diretor como o nome ideal.

– É uma responsabilidade muito grande, porque ao mesmo tempo que os louros da vitória vão para os dois, os fracassos vão também. Então é uma situação difícil, mas muito enriquecedora. Ele tem uma pesquisa com trabalhos com máscara, com dança de rua, palhaçaria… Então a gente se completa. Eu queria alguém na direção para ajudar em potencialidades que eu não tinha. Queria alguém que me provocasse em outros lugares. E ele é essa pessoa. Com o trabalho corporal, me ajudou muito. Nos relacionamos muito bem. A gente cria, ele dá liberdade, a gente concorda, discorda… Somos tipo Dom Quixote e Sancho Pança (risos) – encerra.