Ator cadeirante estreia peça sobre inclusão e ressalta falta de acessibilidade para artistas deficientes nos teatros

Luiz Maurício Monteiro

Luciano sofreu em 2004 o acidente que o deixou paraplégico Fotos: Fernanda Chemale/Divulgação

Os anos de 2004 e 2017 são marcantes na vida de Luciano Mallmann. No primeiro, com mais de uma década de carreira, o ator gaúcho, já morando no Rio de Janeiro, sofreu uma queda durante uma acrobacia aérea e, devido a uma lesão medular, acabou ficando paraplégico. Já 13 anos depois, após desistir das artes e voltar atrás, ele levou ao palco seu trabalho mais emblemático: “Ícaro”, que chega à capital fluminense estreando no Poeirinha nessa quinta (01/11). Idealizador, autor e protagonista do solo documentário, ele mistura sua experiência a relatos de outros cadeirantes para levar empatia ao publico em geral.

Sem cenário ou marcações bruscas na direção de Liane Venturella, Luciano trata de inclusão para deficientes não falando de rampas ou elevadores, mas de situações que são comuns a todos e, consequentemente, causam a identificação que ele tanto desejara ao idealizar o projeto. Sozinho em cena, explorando seu corpo apesar das limitações, ele aborda preconceito, resiliência, relações familiares e amorosas, suicídio, maternidade e gravidez.

Em entrevista ao RIO ENCENA, entretanto, o ator acabou falando sobre acessibilidade e inclusão propriamente ditas, como não poderia deixar de ser. E por já ter vivido os dois lados – de com e sem deficiência – ele admite que antes de se acidentar, dava pouca importância a adaptações. Mas agora, inclusive dentro dos próprios teatros onde fala de tais questões, sente na pele a falta que uma simples rampa faz para quem anda sobre as duas rodas de uma cadeira.

— Para chegar ao camarim tem que subir escadas, a cadeira não passa na porta do banheiro, não existe rampa para o palco… — destaca Luciano, que no papo abaixo fala também um pouco mais sobre seu solo, o público que costuma receber e a locomoção pelo Rio de Janeiro.

O ator estreou o solo em 2017, 13 anos após o acidene

Há uma grande mensagem que uma peça protagonizada por um cadeirante possa passar?
Sempre fui ator, mas com o acidente, pensei: “não quero mais trabalhar com isso”. Tinha todos os movimentos e depois fiquei limitado. Mas me chamaram para participar da novela “Viver a Vida” (TV Globo, 2010), com a personagem da Aline Moraes, que era cadeirante. Foi uma cena rápida, mas ali voltei a atuar. Foi então que decidi fazer minha história. Voltei a trabalhar e acabei produzindo “Ícaro”. Cresci ouvindo que ser ator é ter um papel social além de entreter. E até ali, nunca tinha feito nada tão relevante. Pela forma como aborda o tema, a peça tem uma função bacana. Não tem uma militância – pedindo construção de escadas ou para que não estacionem em vagas especiais – o que é muito importante – mas tenho recebido depoimentos de pessoas sem deficiência se identificando com os personagens cadeirantes, porque abordo temas comuns a todos, como relacionamentos amorosos, desejo de ser mãe, abandono… Nada foi friamente calculado, mas acho que a bandeira do espetáculo é que o mais importante, além de acessibilidade e inclusão, é que se trate a pessoa com deficiência como qualquer outra. Idealizei a peça pela necessidade de trabalhar, mas tem gente que me dá um sorriso com ar de pena ou me cumprimenta sem me conhecer. Não que não queira ser cumprimentado, quem dera isso fosse comum entre as pessoas. Mas não é! Acontece de me verem como super-herói ou um guerreiro que se superou. Não, sou apenas uma pessoa comum explorando meu corpo para poder viver.

E como foi esse período em que você quis desistir da carreira e voltou depois?
Conheço dançarinos de cadeira de rodas, mas a maioria conheceu a arte depois de se acidentarem. Assim, a arte até funciona como essa mudança. Mas eu como já era artista antes. Pensava: “vai ser uma frustração”. Antes tinha todas as possibilidades com meu corpo e movimentos e depois fiquei limitado. Então, voltei para Porto Alegre e comecei a trabalhar com publicidade – que eu já era formado. Mas atuar é o que sei fazer. Acredito que tenha essa essência, e ela permaneceu. Aí teve a novela e depois pensei que tinha que produzir minha história. Precisou uma tragédia ocorrer para botar minha veia empreendedora para fora. Antes do acidente, eu esperava ser chamado para um trabalho. Agora não! Este foi o lado bom que a deficiência trouxe. Já em 2011, montei em Porto Alegre um espetáculo de Nelson Rodrigues que contava a história de um cara tão ciumento, que fingia ser cadeirante para testar a esposa. Mas a estrutura era muito grande, e, como não tinha patrocínio, acabei parando. Depois de um tempo, na AACB (Associação de Apoio à Criança Deficiente), trabalhando com recreação, tive vontade de voltar com a arte. E como “Ícaro” não é grande, tem dado certo, porque posso viajar, às vezes até sozinho. A logística é simples.

Voltando a falar da peça, como se divide seu público entre pessoas com e sem deficiência?
Antes de estrear, esperava mais pessoas com deficiência. Mas no mundo existem menos pessoas com deficiência, não é? Então acho que é proporcional. Vai uma média de três cadeirantes por sessão. Mas tenho visto que tem aumentado e fico orgulhoso disso. Mas, como disse, pessoas sem deficiência também se identificam. Vejo no meu Facebook e Instagram pessoas relatando coisas de suas vidas, dizendo que assistiram à peça e se sentiram motivadas a botar seus sonhos em prática. As histórias que eu conto que motivam as pessoas.

“Ícaro” estreia no Poeirinha no dia 1 de novembro

Qual é a importância dos relatos que você colheu para a peça? Por que não se limitou apenas à sua experiência?
Sempre gostei da linha teatro documentário, quando você não sabe o quê é verdade ou ficção, e no fim, só importa o quê foi contado. Pela experiência que tive, sempre me cobrava por ser ator e nunca ter feito uma peça com uma mensagem bacana, um conteúdo que transformasse em vez de só entreter. E a minha história junto com as de outras pessoas, achei que seria o ideal. Então, fui pegando informações pela Internet, falando com pessoas. Chegaram a me chamar para dar palestras, mas nunca fui. Não é porque estou numa cadeira de rodas que, necessariamente, tenho algo a dizer. A ideia sempre foi pegar estes relatos para fazer um produto artístico, para cumprir minha missão de ator. Nunca fui militante e me cobrava por isso. E agora acho que com este trabalho, estou cumprindo este papel.

Acha que os teatros em geral, estão preparados para receber pessoas com deficiências?
Se você ler a Lei Brasileira de Inclusão, parece o mundo perfeito. O problema é que as leis não são aplicadas. E as pessoas precisam ter a consciência de tornar tudo mais acessível para quem tem deficiência curtir a vida. Falta empatia! Eu mesmo, quando não usava cadeira, não ligava se não tinha rampa na calçada. No teatro, há mais a preocupação com o público do que com artista. Para chegar ao camarim tem que subir escadas, a cadeira não passa na porta do banheiro, não existe rampa para o palco… Mas não me acanho. Me preparo na coxia mesmo; como uso sonda, faço xixi num cantinho mesmo; não me importo de ser carregado para o palco. Não faço barraco, mas procuro explicar o quê preciso e pedir ajuda. E nunca tive problemas, até pelo contrário, as pessoas dizem que vão dar um jeito, colocar uma rampa… E às vezes, a solução é simples. O ideal é que todos os teatros do mundo tivessem esse acesso.

E no Rio, como é sua experiência em relação a deslocamentos e acessos?
Como em todo lugar, o mundo não é perfeito para cadeirantes. Quem depende de transporte público se rala. Quando estive no Rio pela última vez, andava mais de Uber ou táxi. Então, tinha como transportar a cadeira. Sempre me programo para ir a lugares onde sei que tem acessibilidade. Procuro pesquisar antes de sair de casa, vou com alguém que possa me ajudar. E por mais que o lugar esteja adaptado, sempre pode melhorar. Mas uma coisa que achei legal foi no Leblon, onde as calçadas não têm degraus. Elas sem transformam em rampas sem muita inclinação. Se todo o universo fosse assim, seria perfeito.

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