Às vésperas de estreia, Hugo Bonemer relembra reação ao saber que interpretaria Ayrton Senna em musical: ‘F…’

Luiz Maurício Monteiro

Hugo Bonemer, de vermelho no centro, posa com o elenco e a equipe criativa

A poucos dias da estreia, marcada para essa sexta-feira (10), às 20h30, no Teatro Riachuelo Rio, a produção de “Ayrton Senna, o Musical” convidou a imprensa para uma entrevista nesta terça (07),  a fim de apresentar um pouco mais sobre a nova empreitada da Aventura Entretenimento, realizada em parceria com o Instituo Ayrton Senna. No encontro, foram abordados diversos temas, como o surgimento da ideia de um musical sobre o tricampeão de Fórmula 1, o processo criativo e a trilha sonora. Mas o que mais chamou atenção mesmo foi a sinceridade do protagonista Hugo Bonemer ao recordar sua reação quando soube que estava escalado para interpretar o personagem principal.

– O sentimento foi de ficar feliz e depois falar “f…”. Em muitos momentos, eu fiquei na dúvida ou desesperado. Porque é o tipo de trabalho que todo ator deseja, mas dá medo. Mas como é uma grande responsabilidade, você engole e vai com medo mesmo – explica o paranaense, de 30 anos, que superou cerca de 100 candidatos nas audições para o papel.

Ao lado do protagonista, estiveram no palco também os atores Victor Maia e João Vitor Silva, representando o elenco de mais de 20 atores/cantores/dançarinos/acrobatas; e integrantes da equipe criativa, como Cristiano Gualda, que assina texto e canções originais ao lado de Claudio Lins – que não pode comparecer -; o diretor Renato Rocha; Aniela Jordan, uma das sócias da Aventura; o diretor musical Felipe Habib; o figurinista Dudu Bertholini; e a coreógrafa Lavínia Bizzotton.

Hugo superou cerca de 100 candidatos nas audições para o papel principal Fotos: Luiz Maurício Monteiro

Além da sinceridade de Hugo, o que ficou claro também foi a proposta da montagem. Renato e Cristiano explicaram que, desde o início, a proposta foi fugir do modelo convencional de musicais e também de uma simples biografia de Senna, para levar ao palco uma encenação mais lúdica, com enfoque nos sentimentos e na pessoa do homenageado. Os três números de exibição realizados no encontro (confira um trecho de um deles no vídeo abaixo) apresentaram uma estética de circo, com acrobacias, figurinos coloridos e grandes estruturas que complementam as performances do elenco. Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

PRIMEIROS PASSOS

Aniela Jordan – sócia da Aventura Entretenimento
“A ideia surgiu há três anos. Mas não queríamos nada dentro do padrão, porque não fazia sentido contar a biografia do Ayrton, mas, sim, passar a garra, a determinação e a pessoa humana dele. E se há três anos, achávamos que precisávamos passar isso para o público, hoje precisamos ainda mais. O povo precisa de uma figura como ele e da alegria que ele dava”.

Cristiano Gualda – autor e responsável pela trilha sonora
“Ele é um personagem ligado ao pensamento por um país melhor. E esse espírito nos contaminou na hora de tentar tirar o melhor de cada cena. É um espetáculo sinestésico, em que a gente busca passar emoção, valores e sentimentos.

ESTUDOS PARA A CONSTRUÇÃO DO ESPETÁCULO

Cristiano Gualda
“Primeiro, apresentamos a peça para a família. E estar com eles foi impactante, porque você pesquisa sobre alguém e de repente está com irmã daquele cara, que conheceu ele melhor do que ninguém. E depois, você mergulha num universo gigantesco de tudo o que foi dito e escrito sobre ele. E isso foi novo para mim: perceber quantos milhões de vidas a trajetória desse cara tocou. E ele começou a ser conhecido dos brasileiros por volta de 1984, então teve um tempo relativamente curto, uns 10 anos, para cativar daquela forma tanta gente. Pesquisamos muito sobre eventos importantes para o Ayrton dentro e fora da pista. Depois desconstruímos para transformar isso em linguagem teatral musical.

Renato Rocha – Diretor
“Fomos correr de kart. Tínhamos que sentir o cheiro de combustível. Quando chegamos lá, foi legal porque todo mundo virou Ayrton, ninguém queria deixar ninguém passar. E pensamos que era aquilo que precisávamos levar para o palco. Não interpretar, mas deixar fluir”.

Hugo Bonemer – Intérprete de Ayrton Senna
“Fui a corridas, corri de kart com o Bruno Senna (sobrinho de Ayrton), fui a Tarumã (SP), numa corria de Stock Car, convivi com alguns pilotos. Então, deixei que as pessoas me trouxessem as referências que tinham do Ayrton. Cada uma me trouxe uma coisa diferente. E várias delas, coloquei na peça”.

MUDANÇAS DURANTE O PERCURSO

Renato Rocha
“Tivemos que desistir de algumas coisas, mas rapidamente pensamos em outras (risos). O processo é vivo. Nenhum processo criativo vive sem a crise. Agora há pouco, acabou de cair uma ideia, mas já estamos colocando outra no lugar”.

ESCOLHA DO PROTAGONISTA

Renato Rocha
“Foram dezenas de candidatos. E no Ayrton, o quê me tocava, era o olhar pelo capacete, que me emocionava. Quando Hugo começou a cantar, dizendo que foi até limite, deu tudo, aquilo me atravessou fortemente, eu não precisava ver mais ninguém. Ali, eu vi o olhar do Senna, que olha além do que as pessoas normais costumam ver. Era isso que eu queria trazer”.

A estética circense do musical traz figurinos coloridos, acrobacias e grandes estruturas

OBJEÇÃO DA FAMÍLIA SENNA

Cristiano Gualda
“Sinceramente, não houve objeção. Desde que apresentamos para eles, viemos com uma ideia que dificilmente ia causar constrangimento. É um espetáculo que foge do realismo. Há uma questão na história dele, mas na verdade, não quero dar um spoiler. É melhor as pessoas assistirem, senão, estraga a surpresa. Mas quando falamos desse aspecto para a família, eles adoraram. Então, foi muito mais apoio do que qualquer outra coisa”.

TRILHA SONORA

Cristiano Gualda
“Buscamos inspiração em cima de alguns sentimentos. Tem uma música que fala do medo, um sentimento que pilotos têm que conviver, administrar e até ignorar. Falamos dos amores do Ayrton, dos encontros; de superar seus próprios limites; dessa coisa de ser herói, quando um outro personagem diz ‘não dá para ser herói impunemente. Se você quer ser herói, vai ter que pagar um preço por isso’. Uma outra canção também fala da relação dele com a chuva, porque muitas pessoas achavam que era incrível quando chovia, por que o Ayrton era o rei da chuva. Mas para ele era dificílimo, porque ficava tudo pior, era mais perigoso, um risco maior de acidente.

TEMA DA VITÓRIA

Felipe Habib – diretor musical
Quando eu dizia que ia fazer a direção musical de um espetáculo sobre Ayrton Senna, todo mundo perguntava se ia ter o “pã pã pã”. Eu pensava se colocava ou não. Bom, o “pã pã pã” aparece várias vezes, entre os arranjos. Pode ser que apareça num momento especial. Não sei (risos)

MORTE RETRATADA NO ESPETÁCULO

Cristiano Gualda
“A primeira música que fizemos, chamada “Tudo ou Nada”, foi sobre esse momento. Buscamos uma interpretação sobre a morte que pudesse dar voz ao Ayrton. É como se ele soubesse que, para se tornar um mito, tivesse que fazer esse sacrifício. Então, a canção fala sobre uma atitude que uma pessoa pode ter diante do momento da morte. É como se ele dissesse “vou sem medo para o encontro mais bonito,  é esse meu destino. Vou sem medo e levo aqui comigo milhões de corações de um país. Foi onde eu aprendi que ser feliz é sempre por um triz”. A gente tentou traduzir um pouco da alma do brasileiro, da alma dele, de estar sempre no limite. É uma espécie até de liberdade poética. Claro, se colocar num contexto realista, ninguém escolhe morrer, não foi esse o caso do Ayrton,. Mas aqui o que existe é uma interpretação poética daquilo que na vida real aconteceu numa fração de segundos. A gente pega essa fração, expande ela, abre um tempo teatral, lírico, para ele cantar isso”.

RESPONSABILIDADE DE INTERPRETAR UM ÍDOLO NACIONAL

Hugo Bonemer – intérprete de Ayrton Senna
“O sentimento foi de ficar feliz e depois falar “f…”. Em muitos momentos, eu fiquei na dúvida ou desesperado. Porque é o tipo de trabalho que todo ator deseja, mas dá medo. Mas como é uma grande responsabilidade, você engole e vai com medo mesmo”.

“A primeira coisa foi entender que não é personagem. O personagem, a gente constrói, e estou trabalhando com a figura do imaginário popular brasileiro, uma pessoa real. Vi muita coisa dele, mas parei e pensei: ‘Não estou fazendo uma imitação dele. Senão, ferrou!’. Não posso ser um cosplay, brincar e vestir a roupa. É tentar entender a imagem que o espectador espera vir aqui e encontrar. E como conseguir sentir junto com quem está assistindo. Não preciso mostrar para as pessoas quem foi Ayrton, todo mundo conhece. Só preciso tratar com respeito e carinho e deixar que enxerguem ele em mim enquanto estiver em cena e confiar que existam coisas em mim que não atrapalhem essa construção que vocês vão ter dele”.

RISCOS NAS ACROBACIAS

Hugo Bonemer
“Essa é a parte mais divertida. Para quem assiste, fica aquela coisa “ai meu Deus”. Mas para quem faz é gostoso. Tem adrenalina. Por isso esses caras correm a 300 km/h, adrenalina vicia, eles ficam tomados por adrenalina. É a primeira vez que faço uma cena que me jogo lá de cima, e uma galera me segura. No início, deu medo, mas depois, é gostoso. Nunca tinha saltado cinco metros em cima de alguém.

RELAÇÃO COM O AUTOMOBILISMO

Hugo Bonemer
“Minha relação com ele é mais pós-acidente, pela questão da educação do Instituto Ayrton Senna. Lembro de começar a usar o cinto de segurança com um manual do Senninha. E a lembrança do dia do acidente também. Estava em casa, acordei com meu pai e meu irmão em prantos. Só se falou disso por uma semana”.

“Admiro cada vez mais uma pessoa que se coloca em risco a 300 km/h num caro, admiro a família que vê um pai ou um filho arriscar a vida tidos os dias, sem saber se voltam. É muito maluco isso. Eu achava que passava riscos com uma profissão que não garante salário todo mês. Mas aí descobri que tem gente que corre muito mais risco do que eu (risos)”.