Às vésperas de estrear comédia, Renato Rabello comenta concorrência com youtubers: ‘Pessoas querem rir por rir’

Luiz Maurício Monteiro

Renato Rabello já fez 51 espetáculos em 30 anos de carreira Foto: Fauzi Musa/Divulgação

Na tradicional lista de 10 perguntas da nossa seção “Perfis”, uma delas geralmente recebe respostas muito semelhantes por parte dos entrevistados. Ao serem questionados sobre qual seria o maior desafio da carreira de um ator de teatro, eles costumam dizer que é “sobreviver de teatro”. Perfil da vez, Renato Rabello corroborou com essa linha de raciocínio, mas chamou atenção para um obstáculo contemporâneo: o movimento migratório cada vez mais comum dos youtubers e seus milhões de seguidores da Internet para os teatros.

Às vésperas de estrear no Teatro Vannucci a comédia “Um Casamento Feliz”, que fala de um casamento forjado entre dois homens para que um deles possa receber uma herança, Renato, de 47 anos, acredita que por mais sucesso que as celebridades cibernéticas façam, seus conteúdos não estão no nível das tradicionais peças teatrais.

— A pessoa vai lá e vê o cara falando umas bobagens, porque é isso o que ela quer, mesmo sabendo que tem espetáculos que podem fazer rir, mas com uma história bem elaborada. As pessoas estão perdendo essas mensagens, querem rir só por rir — lamenta.

Ao longo da entrevista, que está na íntegra abaixo, Renato também falou de sua identificação com a comédia. “Um Casamento Feliz” é a peça de número 51 dos seus 30 anos de carreira, que foi muito marcada pelo gênero. Na TV, o humor também o acompanhou em trabalhos como o programa “Zorra Total” e a novela “Kubanacan”, ambos da Globo. Confira:

Espetáculo mais marcante da carreira?
São vários! Mas um legal que deu uma virada na minha carreira foi “Vítor ou Vitória” (2001), que tinha Marília Pêra (1943-2015), Drica Moraes, Daniel Boaventra, Léo Jaime… Esse espetáculo ficou só em São Paulo, não hegou a vir para o Rio… Mas eu fazia um personagem muito legal, e a partir dali minha carreira deu uma virada mesmo, inclusive em musicais. Teve também “Somos Irmãs” (1998), um dos mais bonitos que participei, mas o primeiro que vem à cabeça é “Vítor ou Vitória”.

Renato com Eri Johnson (E) e Raymundo de Souza colegas de “Um Casamento Feliz” Foto: Marcio Rangel/Divulgação

Um fracasso?
Claro que todos nós já participamos. Não tenho nem como fazer as contas, não saberia enumerar (risos). Mas qualquer trabalho sempre rende alguma coisa, te alimenta como ator, acrescenta na carreira. Fracasso é não trabalhar (risos).

Trabalho dos sonhos?
Não tenho um personagem dos sonhos. Jogo muito com o quê vem. Mas deixa eu ver… O que acontece é que a gente vai mudando com a idade, vai mudando os sonhos. Se fosse mais novo, te diria alguns papéis. Mas agora não tenho mais idade para isso (risos).

Não se vê em que tipo de trabalho?
Não me vejo fazendo tragédia, tragédia grega… Não me vejo fazendo um personagem de cunho altamente dramático. Gosto mesmo de comédia. Faço personagens mais sérios, claro, mas muito carregado, não tenho esse sonho. Acho que o mundo precisa de alegria nesse momento.

Como recebe as críticas em geral?
Normal! Opinião é de cada pessoa. Um trabalho às vezes recebe críticas de pessoas que não pensam no trabalho que deu para aquele espetáculo ser feito. Como eu disse, opinião é de cada pessoa , o que não significa que vai ser unânime. Encaro bem, às vezes pode ser construtiva, pode mostrar um lado que você ainda não viu. Aliás, geralmente, são construtiva.

Uma referência no teatro?
Sempre gostei do Paulo Autran (1922-2007). Nunca pensei em fazer personagens tão dramáticos quanto ele, mas sempre o admirei. E ele pouco flertou com a TV, fez uma carreira mais sólida no teatro. E é difícil viver nesse país basicamente de teatro. Paulo Autran conseguiu ser um monstro por esse trabalho basicamente apena sno teatro, assim como faz a Bibi Ferreira.

Um gênero de preferência?
Comédia! Sempre gostei. Foi na comédia que fiz minha carreira, minha vida… Devo muito à comédia. Às vezes é uma coisa que as pessoas dão menos importância, mas não é todo mundo que consegue fazer. Acho que é um dom saber fazer rir.

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
Sobreviver da profissão. Porque é um ofício que demanda seriedade. Viver para o teatro é uma coisa que tem que ter uma vocação, saber sobreviver de arte é uma arte.

Já pensou em desistir da carreira?
Sabe que não? Graças a Deus, sempre tive sorte de conseguir mesclar TV com teatro. Então sempre consegui construir minha carreira. Às vezes fica uma pouco assim… Com os sinais desses novos tempos, a gente competindo com blogueiros, youtubers… Não é mais o ator somente, a pessoa que bomba na Internet, pode montar um espetáculo, porque é o que está acontecendo. Não condeno, todo mundo tem seu espaço, mas temos que nos moldar a esses novos tempos. A competição aumentou. O artista novo também está tendo essa ferramenta, mas o ator mais antigo tem um pouco de resistência. Acho que hoje, com essa coisa rapidez, as pessoas se ligam mais em coisas cotidianas, às vezes até em bobagens, um pouco sem compromisso. Não tem se ligado coisas mais políticas, artísticas… O que vejo é um escapismo, a pessoa vai lá e vê o cara falando umas bobagens, porque é isso o que ela quer, mesmo sabendo que tem espetáculos que podem fazer rir, mas com uma história bem elaborada. As pessoas estão perdendo essas mensagens, querem rir só por rir.

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Tentaria carreira na música, seria cantor. Já faço musicais, tenho até um show montado. Mas não me vejo fora das artes, não me vejo trabalhando com outra coisa.

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