‘As mil e uma Noites’ é experiência da coletividade e efemeridade teatrais

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Oi Futuro do Flamengo, “As mil e uma noites”, do grupo Teatro Voador não Identificado, é espetáculo baseado na obra homônima, intercalada de relatos de refugiados abrigados pelo Brasil. Com histórias diferentes contadas a cada noite, a peça é exercício do que o teatro tem de mais particular: sua efemeridade e sua coletividade.

Para quem não conhece, “As mil e uma Noites” é um compilado de contos, histórias narradas por Sherazade para seu esposo, Shariar, rei da Pérsia. Este, traído por sua primeira esposa, decide desposar uma nova mulher a cada noite, matando-a na manhã seguinte, prevenindo assim qualquer infidelidade. Sherazade, então, na investida de evitar mortes em cadeia, casa-se com o rei, e conta-lhe uma história por noite, interrompendo-a ao nascer do sol. O rei, curioso para saber o fim da história, adia a execução, e assim Sherazade sobrevive por mil e uma noites, ao fim das quais Shariar, finalmente, revoga sua decisão.

Mil e uma noites, mil e uma histórias contadas ao rei; 33 sessões do espetáculo, 33 contos encenados, juntamente com relatos de refugiados. O que vemos no palco do Oi Futuro do Flamengo é um desdobramento do que o teatro tem de mais próprio: a noite de espetáculo é única também em seu conteúdo, e coletiva em sua autoria.

A peça intercala dois formatos: o conto da vez de “As mil e uma Noites” é narrado e encenado, enquanto a história de cada refugiado é contada por um ator, exatamente como Sherazade faz com o rei. O viés impresso em cada história contada transparece as diferentes mãos que contribuíram na elaboração dessa dramaturgia, e é, de longe, o que mais chama a atenção: a coletividade do Teatro Voador não Identificado, ao menos nesta montagem, não está na participação de todos em tudo (como costuma-se valorizar), mas na capacidade de diluição da criação, o que gera uma soma de individualidades, visões, digitais.

Se a obra original, literária, é uma reflexão sobre empatia, somada à ação altruísta de Sherazade de se desfazer de tudo, de colocar a própria vida em jogo para salvar outras mulheres, a peça busca despertar em nós semelhante empatia pelas histórias de refugiados narradas pelos atores, e exercita, tanto nas histórias quanto na encenação dos contos, um altruísmo, abrindo mão da própria noção de autoria: as histórias são dos refugiados tanto quanto de quem as ouviu, selecionou, editou e elaborou o discurso que chega à cena; são dos atores que as contam, diretores também das cenas que se organizam ao vivo naquela noite.

Com uma peça diferente a cada sessão, os próprios integrantes da companhia tornam-se espectadores, como nós. E nós, todos nós, o público de 33 sessões, somos Shariar, parte da narrativa, espectadores de peças diferentes, ouvintes de histórias distintas, co-participantes daquela noite, única em sua forma e conteúdo.

Em suma, podemos guardar a sensação de que cada sessão encerra-se em si, e também que todas elas formam um conjunto que é único, materializado pela ampulheta sensacional destacada pela cenografia de Elsa Romero, também atriz. A ampulheta comporta areia que perpassa as 33 sessões, assim como os textos que são deixados no canto do palco a cada noite, até o último que completará a pilha. A montagem é, portanto, as 33 sessões, tornadas coesas pelas questões comuns que permeiam os discursos e imbricam-se na forma. Até nisso, ela é coletiva.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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