As diferentes visões dos críticos de teatro nos jornais do Rio de Janeiro – entrevista

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Esta semana, fugirei às críticas que escrevo sobre os espetáculos em cartaz, no Rio de Janeiro, para reproduzir uma entrevista, concedida, há menos de duas semanas, a LUCAS ARAÚJO, estudante de jornalismo da Universidade Castelo Branco, para o seu trabalho final de curso.

As minhas respostas às suas perguntas servem para que os que têm o hábito de ler as minhas críticas fiquem com uma ideia do que norteia o meu trabalho e o que penso sobre o papel da “crítica” teatral.

O que o inspirou a ser crítico de teatro? Conte, por gentileza, um pouco de sua trajetória profissional:
Eu sou ator profissional, professor de Arte Dramática e de Língua Portuguesa (aposentado). Sou apaixonado por TEATRO, desde a adolescência. Na década de 70, participei, como ator, dos musicais mais importantes, montados no Brasil, como HAIR, JESUS CRISTO SUPERSTAR, GODSPELL e outros. Sou apaixonado por musicais. Quando não consegui mais conciliar o TEATRO com o magistério, fiquei apenas neste, por ser uma atividade mais segura, e dando aulas de TEATRO, para me realizar mais profissionalmente. Considero-me “rato de TEATRO”. É a minha paixão. Hoje, vou ao TEATRO todos os dias, de 2ª feira a domingo. Muito raramente, fico em casa um dia ou dois, por sema. Às vezes, assisto a mais de um espetáculo no mesmo dia. Até a três, aos sábados. Assisto a mais de trezentos espetáculos por ano. Antes de ser crítico, ia ao TEATRO numa média de quatro vezes por semana. Quando, há poucos anos, fui convidado, pela APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), para fazer parte do júri do Prêmio APTR de TEATRO, já escrevia minhas críticas, de modo meio superficial, e as publicava na minha página, numa rede social. A partir daquele momento, fui incentivado, por vários amigos, a criar um blogue e assumir, com seriedade, a posição de crítico de TEATRO, o que me dá um grande prazer. Hoje, já não sou mais jurado da APTR, mas faço parte do júri do Prêmio Botequim Cultural.

Atualmente, qual o objetivo da crítica de teatro no Brasil?
Não sei se existe um único objetivo definido e se o atual, ou os atuais, é/são diferentes do(s) de outros tempos. Creio que a crítica, seja ela a que tipo de arte for destinada, tem por objetivo geral estabelecer um julgamento, por meio de uma análise técnica e criteriosa, o mais isenta de paixão possível, da obra em questão. Isso pode servir de parâmetro, ou não, para as pessoas. Eu não tenho a pretensão de me achar dono da verdade, mas fico feliz, quando sei que ajudei a alavancar um espetáculo e quando as pessoas me agradecem pelas minhas indicações. Graças a Deus, sou bastante respeitado, no meio em que convivo, e conto com uma boa legião de leitores, que procuram conferir o que escrevo e compartilham as minhas críticas, nas redes sociais.

Como é feita a seleção dos espetáculos para serem avaliados?
Não sei como isso se dá nos órgãos de imprensa, que publicam muitíssimo menos do que eu, uma ou duas críticas por semana. Não sei se o editor é quem decide sobre que peças o(a) crítico(a) deve escrever ou se a decisão parte do(a) próprio(a). No meu caso, assisto a mais de 90% dos espetáculos que ficam em cartaz no Rio de Janeiro, além de viajar, algumas vezes por ano, para São Paulo, e, um pouco, para o exterior, e escolho sobre quais peças quero escrever. É claro que não disporia de tempo para escrever sobre todas. Estabeleci meu critério: só escrevo sobre espetáculos que me agradam, sejam eles grandes produções ou modestas montagens. O que me interessa é a qualidade do espetáculo. Jamais escrevi, ou escreverei, sobre alguma peça de que não goste. Por quê? Porque eu não estaria contribuindo, positivamente, em nada, com nada ou ninguém. Pelo contrário, estaria prejudicando quem trabalha honestamente, quem está fazendo o seu melhor, aquilo que julga ser um bom trabalho. O que não agrada a mim pode ser do agrado de outras pessoas. Não ganho absolutamente, nada, “detonando” uma peça. Respeito, antes de tudo, o ser humano e, logo em seguida, o profissional. Sou ator e conheço o outro lado. Sei, muito bem, o quanto custa erguer um espetáculo neste país, que nega apoio às artes, principalmente ao TEATRO.

Existe um interesse de divulgação do espetáculo, no texto crítico, e que abandona a visão que o crítico realmente possui?
Não deve, é claro, embora, indiretamente, esteja havendo uma divulgação do espetáculo, quando a crítica é tornada pública. Se ela é favorável (todas as minhas o são), isso pode levar um público a assistir a uma peça. Se for negativa, pode fazer com que algumas pessoas percam o interessa em assistir a um determinado espetáculo. Mas isso não é o objetivo primeiro do crítico. Favorável ou não, o crítico não pode abrir mão de seus instrumentos de julgamento de valores acerca do espetáculo.

Antigamente, a crítica tinha um espaço maior nos jornais impressos. Por que, hoje, tem um espaço limitado?
Talvez seja a pergunta mais fácil de responder. Falar de ARTE não vende, não traz retorno, não dá lucro. Isso é, apenas, um reflexo do tratamento que os governos atribuem às artes. Aqui é o país do futebol, do carnaval, dos escândalos políticos e das celebridades. Os jornais visam a lucros. Simples assim! O GLOBO, por exemplo, já teve três ou quatro críticos, que escreviam sempre, muito, simultaneamente. Hoje, salvo engano, trabalha com dois, que se revezam.

A crítica dos espetáculos, feitas nos blogues ou em “sites”, ocorre com mais frequência do que nos impressos. Há chances de a crítica perder o seu limitado espaço no jornais impressos?
Infelizmente, sim. Esta pergunta está relacionada à anterior. É só ler a minha resposta à pergunta 5. Resta-nos o consolo de constatar que está crescendo bastante o número de blogues e “sites” que tratam de crítica teatral, o que, por outro lado, apesar de bem democrático, é um perigo, pois muita gente se julga crítico, sem o gabarito que a atividade exige. No Rio, há alguns de excelente qualidade.

Como é analisado o espetáculo de teatro e de que maneira é escrita para o público?
A análise deve partir do geral para o particular. O espetáculo deve ser analisado pelo que pode contribuir para o lazer e a cultura das pessoas e pelo que ele acrescenta ao momento político e social de quando está sendo encenado ou acrescentou, numa outra época. Primeiro, deve ser observado como um todo e, posteriormente, cada item ou detalhe deve ser apreciado: o texto, a direção, o elenco, o cenário, o figurino, o desenho de som, o desenho de luz, a coreografia (se for um musical), a trilha sonora, o visagismo (caracterização) e tudo o que merecer um justificado comentário. Isso deve ser escrito em linguagem clara, objetiva e concisa, de modo a que qualquer pessoa de QI médio possa entender, sem muito esforço. Há críticos, infelizmente, que escrevem na base do “em matéria de principalmente, não há nada como não resta a menor dúvida”. Isso significa “falar e não dizer”; escrevem de uma maneira hermética, que, talvez, nem eles entendam. Dizem algumas pessoas maldosas que isso é um subterfúgio, para não se comprometerem. Não é o meu caso.

Você se identifica com a forma de crítica da Barbara Heliodora?
NÃO!!! Jamais a tive, ou terei, como exemplo, ainda que reconhecesse seu grande conhecimento do ofício, a maior especialista em Shakespeare, no Brasil. O que me incomodava, no seu estilo, era a maneira, muitas vezes, “descortês” e perversa (aqui vão dois eufemismos) como falava mal de um espetáculo ou de algum profissional. Em respeito à sua memória, prefiro parar por aqui.

Por que, hoje em dia, há críticas sendo feitas por repórteres e não por críticos de teatro?
Deve custar mais barato aos veículos de comunicação, que não estão interessados na qualidade da crítica, mas nos lucros para a empresa.

Você tem alguma referência pessoal na crítica?
Vou ficar só no Rio de Janeiro. No passado, Yan Michalski, infelizmente, já falecido. Hoje, aprecio bastante as críticas de dois queridos colegas: Lionel Fischer e Tânia Brandão.

Com a sua vivência, como crítico de teatro, alguma história interessante que possa compartilhar?
Como crítico, especificamente, não. Talvez fosse pertinente falar que já vi críticos aplaudindo, de pé, alguns espetáculos, na estreia, e, depois, falando mal sobre eles.