‘As Crianças’ – Muito além das consequências de um desastre nuclear

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Não raro, costumo assistir a algumas peças de TEATRO mais de uma vez, para começar a escrever sobre elas. Não porque não tenha entendido alguma coisa; menos, ainda, porque não me tenha definido quanto ao fato de ter gostado ou não delas, a ponto de merecerem a minha atenção e a ocupação de meu valioso tempo, uma vez que, como já é mais do que sabido, só escrevo sobre os espetáculos de que gosto, que me tocam. É o oposto: gostei tanto, que preciso revê-las, para captar detalhes que possam ter-me escapado, de tanto que fiquei hipnotizado pelo que vi. Assim ocorreu com “AS CRIANÇAS”, que considero uma OBRA-PRIMA, em cartaz no Teatro Poeira.

Saí de lá, naquela noite de 11 de janeiro de 2019, em sessão fechada, para convidados, completamente encantado com o que vira, afogado em emoções e triste por não ter levado meu caderninho de anotações, para os devidos registros, os quais me fariam ser o mais fiel possível nos meus comentários. Voltei, então, em exatas três semanas depois, com o firme propósito de não permitir que nada me escapasse da magistral montagem de RODRIGO PORTELLA, interpretada por ANALU PRESTES, MÁRIO BORGES e STELLA FREITAS, sobre um texto de LUCY KIRKWOOD, magnificamente traduzido por DIEGO TEZA, muito embora eu não tenha conhecimento dele no original. Arrisco-me, porém, a fazer tal comentário, por conhecer outras brilhantes traduções e adaptações do DIEGO.

 

SINOPSE

 

Um casal de físicos aposentados, DAYSE (ANALU PRESTES) e ROBIN (MARIO BORGES), vive só e sem vizinhos, numa casa improvisada, perto da costa, numa região inóspita, assolada, no passado, por um acidente nuclear.

Após uma ausência de quase quarenta anos, ROSE (STELA FREITAS), antiga colega de profissão e amiga, chega a essa casa, com uma ideia, ou melhor, uma missão, que poderá mudar, para sempre, a vida do casal.

Para complicar as coisas, ROBIN tivera uma relação extraconjugal com ROSE, no passado, e muitas recordações vêm à tona durante a inesperada visita.


“AS CRIANÇAS” é uma peça sobre a qual sinto um pouco de dificuldade para iniciar uma crítica, fazendo um esforço hercúleo, a fim de praticar um distanciamento, para ser imparcialcomo deve ser todo crítico, esquecendo-me dos laços de amizade e admiração que me ligam ao diretorRODRIGO, e aos atoresANALUMARIO e STELA (ordem alfabética), para me prender, única e exclusivamente, à contribuição de cada um deles na construção desta OBRA-PRIMA (Serei repetitivo, mas não me importo: OBRA-PRIMA, sim!). Mas o que fazer? Não posso, de maneira alguma, omitir tudo o que vejo de correto no espetáculoPara mim, tudo está correto nele. Esta análise crítica vem sendo escrita há bastante tempo, em doses homeopáticas, em várias “sessões”, algumas breves, outras mais longas, durante cerca de três semanas, já que era obrigado a interromper o trabalho, sempre que sentia um “desconforto”, sem conhecer, claramente, o motivo, para dar prosseguimento a ele, ou porque me faltava tempo ou me chamavam outros afazeres. E eu precisava de muita concentração, para pôr, no papel, tudo o que a peça me provocou de reflexões e me impeliu a pensar o mundo de uma maneira diferente. Tomara que seja para melhor!

Tenho três ou quatro textos dramáticos, incompletos, armazenados, no meu computador, aguardando que eu me arme de coragem, para lhes dar uma conclusão. Antes, porém, preciso ter a certeza de que, bem ou mal, eu poderia ser um dramaturgo. Ocorre, entretanto, que, quanto mais fico conhecendo textos brilhantes, como o desta peça – e isso, felizmente, vem acontecendo tanto, nos últimos tempos -, mais me pergunto: De onde os dramaturgos tiram tantas excelentes ideias e, o melhor, como conseguem transformá-las em originais e magníficas peças de TEATRO? E me sinto um grão de areia no Saara, diante deles. Nessa hora, abandono a tela em que pretendia continuar trabalhando, desenvolvendo as minhas humildes “pecinhas”, e vou adiando o projeto de me revelar um dramaturgo, nem que seja para mim mesmo. Acho que é muita pretensão, da minha parte, diante, por exemplo, de alguém que escreve perfeitamente, como a festejada e premiada jovem dramaturga e roteirista inglesa LUCY KIRKWOOD, de 35 anos apenas, um nome de destaque na sua geração, que parece ter bebido, à farta, em fontes tão gabaritadas, como alguns de seus compatriotas e outros grandes mestres da dramaturgia universal.

Mas deixemos de digressões e falemos do que, realmente, é importante: comentar uma montagem teatral, em todos os seus compartimentos, da forma mais dissecada e, ao mesmo tempo, simples possível.

Antes de mais nada, devo dizer que o texto, encenado, pela primeira vez, em Londres, em 2016, com estrondoso sucesso, é bastante atual e, em se tratando de Brasil, chega num momento muito especial, uma vez que a origem do roteiro remonta a um grave acidente numa usina nuclear, ficcional, ocorrido quatro décadas atrás, em relação ao tempo cronológico de uma inoportuna visita, e nós, brasileiros, estamos, hoje, testemunhando, na realidade, e sofrendo, na pele, desastres ecológicos de menor abrangência (ou não), porém nem por isso menos importantes e sérios, por negligência humana, descaso para com o próximo e muita ganância material, em forma, por exemplo, de rompimentos de barragens de rejeitos tóxicos, criadas e “mantidas” por mineradoras. E o perigo continua iminente.

Aparentemente, a trama envolve um relacionamento muito restrito, entre um casal de engenheiros nucleares, aposentados, sobreviventes de uma catástrofe nuclear, confinados, como ermitões, numa casa perdida no universo, e uma velha amiga de profissão e trabalho, que também sobreviveu ao desastre, a qual procura os dois, com uma proposta extremamente altruísta, porém difícil de ser aceita. Isso, no entanto, é apenas um “gancho”, para discussões e reflexões que extrapolam o que está contido no reencontro dos três.

ROSE (STELA FREITAS), já contaminada por um câncer, advindo do contato com elementos radioativos, em função de sua atividade profissional, no local em que se dera o tal acidente, e, também, mutilada, sem os dois seios, com os dias, praticamente, contados, chega com uma proposta esdrúxula (Ou não? O julgamento fica a critério de cada espectador. Pelo menos, insólita.), de reunir antigos engenheiros e funcionários da usina, de sua geração e do casal de amigos, vinte pessoas, pelo menos, que sobreviveram ao terrível desastre nuclear, ainda que com severas sequelas, para substituir os jovens que trabalham no que restou da tal usina. Essa atitude empática e a decisão, do ponto de vista humanitário, são lindas e, até, compreensíveis, todavia mexe com muitos valores éticos, morais, religiosos e pessoais, que vão gerar uma zona de atrito, combustível para manter o espectador atento até a última cena, sempre na expectativa de algo mais surpreendente do que aquilo que já lhe fora revelado nas cenas anteriores.

De acordo com o “release”, enviado pela ASSESSORIA DE IMPRENSA (JSPONTES COMUNICAÇÃO – JOÃO PONTES E STELLA STEPHANY), a peça “…levanta duas camadas de reflexão: num nível individual, fala da relação do ser humano com a passagem do tempo e seu inventário de perdas e ganhos; e, num nível coletivo, trata de discussões éticas, sobre a responsabilidade com o uso dos recursos do planeta e com as gerações futuras. Reparação e redenção são temas dessa peça que volta seu olhar para os catastróficos resultados da interação entre os humanos e a natureza.”. Querem algo mais atual do que isso?

Durante toda a conversa, ROSE tenta persuadir os amigos a aceitar sua proposta, sob a alegação de que estariam praticando um gesto nobre, abrindo mão de suas próprias vidas, como um ato para a salvação de outras pessoas, jovens, com muito ainda a viver, enquanto os três já haviam vivido “o suficiente”, o que “tinha para ser vivido”; em suma, já haviam experimentado todas as emoções e conquistas, pessoais e profissionais, ao longo de algumas décadas de vida. Só que ninguém pode decidir sobre a vida alheia, estabelecer um limite para uma existência, determinar o que venha a ser velhice, se vale a pena vivê-la, e até quando. Ninguém tem o direito de estabelecer códigos de conduta ou pensar por outrem. Isso ROSE não consegue perceber, tão profundamente mergulhada está no seu firme propósito, no seu “nobre gesto altruísta”. Seu, somente, não; compulsoriamente, dos outros, como ela gostaria de que fosse.

ROSE carrega, por quatro décadas, uma culpa, que não é dela, somente, e, de modo quase explícito, revela, com seu intento, uma forma de “reparação”, pelo desastre nuclear e pelos danos causados a terceiros – a ela inclusive -, e “redenção”, no sentido de se redimir, de resgatar sua dignidade, de se libertar de um fantasma que a atormenta.

Cabem reflexões sobre o que fizemos/fazemos/faremos com as nossas vidas. O que ainda pretendemos fazer com elas? Cabem reflexões sobre o que é ser ético e como o fazer. Cabem reflexões sobre o mau trato que damos aos elementos da Natureza, exatamente aqueles que podem garantir a perpetuação da raça humana. Então, por que não valorizamos e protegemos tão pouco os nossos mananciais aquíferos, as nossas áreas verdes, a pureza do ar que respiramos? Por que transformamos os rios, mares e oceanos em lixões? Por que somos tão desumanos, estúpidos e cruéis com o próximo e com nós mesmos, os ditos “humanos”?

Não poderia deixar de transcrever o que diz o grande diretor da peça, no já referido “release”“A discussão da peça está para além da questão nuclear. Ela nos provoca a pensar em como usamos os recursos disponíveis. Entendo que KIRKWOOD quer que pensemos em nossa responsabilidade com as futuras gerações. Para mim, a grande pergunta da peça é: salvar as crianças de um futuro catastrófico é um ato de heroísmo ou uma obrigação?”OBRIGAÇÃO, ANTES DE TUDO – digo eu. Nesse caso, não há espaço para “heróis”, e sim para seres humanos conscientes e responsáveis. Mas daí a aceitar a proposta de ROSE… Há muito o que pensar e avaliar nesta peça.

Não tenho a menor dúvida de que o questionamento de RODRIGO PORTELLA é o que fica na cabeça da maioria dos que assistem à peça e conseguem enxergar as entrelinhas do texto. Não se trata de um conflito enclausurado entre quatro paredes, mas de um problema que extrapola o que se passa em cena e precisa ser levado a sério, o quanto antes possível, para que tenhamos garantido um futuro melhor para as novas gerações e as que esperamos que ainda venham por aí. Falta muito pouco, para que se feche a janela que pode nos permitir a salvação da raça dita “humana”. Depois de trancada, de vez, teria existido um planeta Terra.

dramaturga abre espaço para que os personagens vão, paulatinamente, se mostrando, revelando seus sentimentos, enquadrando-se e mergulhando nos seus problemas afetivos e nas dúvidas quanto a uma postura ética “adequada”, frente à sociedade em que vivem, da qual, na verdade, tentaram se isolar (DAYSE e ROBIN), porém não conseguiram lograr êxito.

O desastre externo e os internos, de cada um dos personagens, se mesclam e atuam, de forma consciente, para os três, e devastadora, de forma a delinear os contornos de um drama irreversível.

Depois de, sucessivamente, emplacar tantos sucessos de público e de bilheteria, que lhe renderam inúmeros prêmios, RODRIGO PORTELLA nos brinda com mais uma pérola de direção, reafirmando sua posição de um dos melhores encenadores de sua geraçãoum jovem grande diretor de TEATRO, com todas as maiúsculas. Como poucos, RODRIGO sabe decodificar, com todas as letras, as intenções do autor de um texto dramático e as traduz, com maestria e criatividade, num palco. Mais do que isso, é um “diretor de atores”, o que equivale dizer que se dedica a cada um elemento de seu elenco, observando-lhes as particularidades e investindo, pesado, na técnica de construção e interpretação de um personagem, o que fica bem mais fácil, quando encontra, pela frente, atores do gabarito dos que compõem o elenco de “AS CRIANÇAS”.

O seu trabalho de direção, a forma que ele dá aos espetáculos, via de regra, acompanha o crescimento emocional que os dramaturgos por ele encenados apresentam em seus textos. Assim, o ritmo, que se mostra, aparentemente, morno, no início da trama, vai ganhando calor, até atingir um momento máximo de ebulição. Isso se dá em, praticamente, todas as suas montagens, como se fora uma sua digital. Quem não se lembra, por exemplo, de “Antes da Chuva”“Alice Mandou um Beijo” e o premiadíssimo “Tom na Fazenda”, só para citar alguns dos trabalhos assinados por RODRIGO? Nessas montagens, como nesta, há um certo “marasmo” inicial, que, num processo de evolução rítmica, deságua em épicos finais. Refiro-me às criativas soluções que ele vai propondo, ao longo de cada trama, e à liberdade, parece-me, que concede, a cada ator, de exercitar e expor, gradativamente, o crescimento interior de seu personagem, sem limites, sem rédeas.

É muito interessante a opção que ele, em consonância com o profissional que se ocupa da cenografia, faz de concentrar diversos espaços num só, utilizando poucos elementos cenográficos, os quais proporcionam, ao espectador, a sensação de estar vendo “locações”, como no cinema, diferentes ou, no mínimo, imaginando-as. É um excelente exercício para o público: ver sem ver; acreditar no que não ganhou forma concreta. Neste caso, o mérito é dividido com o(a) cenógrafo(a) – aqui, ele mesmo e JÚLIA DECCACHE. Falarei sobre a cenografia e a direção de arte adiante.

Nesta montagem, dois detalhes da direção, bastante interessantes, chamaram a minha atenção. Um deles é o fato de os atores não se ausentarem do espaço cênico, quando não fazem parte da cena, ficando, porém, com os olhares atentos, sempre um observando os outros dois, acompanhando os diálogos, trabalhando diferentes expressões faciais, como se estivessem ouvindo o que eles estão dizendo, muitas vezes, todos próximos, o que poderia, sem o dedo do RODRIGO, confundir alguns espectadores, no entanto garanto que ninguém fica perturbado ou confuso com essa exposição. A direção, a meu juízo, provoca, com isso, o espectador, no sentido de fazê-lo entender quando é o ator ou o personagem o que aquele está vendo, num processo de total distanciamento entre a realidade e a ficção.

O outro é concernente à função, que o diretor passou aos atores, de dizerem as rubricas contidas no texto, o que já vi em outros espetáculos, porém, aqui, ganha contornos diferentes. De início, causa uma certa inquietação, um estranhamento, em algumas pessoas, porém, em pouco tempo, todos se acostumam e parecem já esperar, de vez em quando, uma intervenção de alguém que está atuando ou do(a) terceiro(a) ator/atriz, que apenas observa a cena, para dizer algo como (Apenas uma exemplificação; não está na peça.) “Fulano(a) abre a geladeira e retira, de lá, o pudim.”. Seria uma espécie de “regressão” aos trabalhos de mesa, como se estivessem lendo o texto.

elenco de “AS CRIANÇAS” é motivo de orgulho para o TEATRO BRASILEIRO. Há pouco tempo, enquanto dirigia, a caminho de outro Teatro, ocorreu-me um pensamento; na verdade, um questionamento: Quem lucraria mais: RODRIGO, por dirigir ANALUMARIO e STELA ou estes, por serem dirigidos por aquele? Jamais conseguiria responder a essa pergunta. Na verdade, lucram os quatro, lucramos todos.

São três dos melhores atores do TEATRO BRASILEIRO, os quais, a despeito de atuarem em outras mídias, são, por essência, atores de TEATRO, com uma vasta experiência, de mais de 40 anos, atuando em peças memoráveis, para a História do Teatro Brasileiro, além de serem grandes amigos, na vida privada, e de já terem trabalho juntos em outras produções. Esse histórico propicia um entrosamento total do trio, em cena, uma cumplicidade percebida por qualquer um, mesmo por aqueles que os estão vendo, em ação, pela primeira vez. Se eu fosse enumerar todos os seus grandes trabalhos, isso ocuparia considerável espaço nesta crítica.

ANALU PRESTES, cuja carreira é pontilhada por dezenas de grandes sucessos e personagens as mais distintas, é uma parte do incrível tripé que sustenta o espetáculo, falando, apenas, em termos de elenco. Sua personagemDAYSE, é uma mulher que, por força do destino, talvez, tenha aberto mão de sua profissão, para se dedicar, “full time”, ao lar e à educação dos filhos, o que fazia dela uma mulher recatada, meio submissa, sem muita iniciativa, presa a padrões éticos conservadores e que se recusa, terminantemente, a embarcar na “loucura” de ROSE. Parece ser a que mais sofreu, do ponto de vista psicológico, com aquele desastre e a que guardou as mais indeléveis marcas que ele deixou. Ela se recusa a ver, com os próprios olhos, a realidade, nega-se a conferir os estragos que o acidente nuclear causou e, de forma alguma, aceita participar do rescaldo, em meio aos escombros; de uma vida, inclusive. É alimentada pelas mentiras criadas pelo marido. Assim, ela sofre menos. Ou aparenta isso. Em nome de não se sabe lá bem o quê, finge não ter conhecimento dos muitos “pulos” que o marido dava, com as antigas colegas de trabalho, com destaque para ROSE. Uma aceitação própria das mulheres de sua época, talvez.

MARIO BORGES, que assume lugar de destaque na galeria dos grandes atores brasileiros, assume a identidade de ROBIN e é cobrado, durante toda a peça, sobre em que mundo vive: o das verdades ou o das mentiras. Parece que, por pura conveniência, ele resolveu reconhecer e viver este, como forma de aliviar seus dramas e purgar-se, por seus erros, ao longo de uma vida. A chegada de ROSE representa uma ameaça maior para o personagem, uma vez que se sente diante da possibilidade de um “revival” dos momentos de relacionamento íntimo com a colega de trabalho, no passado. Ele se sente mexido, atraído, pela antiga amante. Alimenta, em DAYSE, a ideia de que “tudo está bem com as vacas”, as quais ele “visita”, diariamente, nas cercanias da usina, com o propósito de alimentá-las e de cuidar delas, as quais já não existem mais. As vacas, mortas, são a metáfora da mentira, praticada com a melhor das intenções, a de não machucar nem aterrorizar mais a pobre DAYSE. Por conhecer a verdade acerca das consequências do desastre nuclear e por ter escolhido escondê-las da esposa, recaiu sobre os seus ombros um misto de culpa e de coragem, esta, pelo menos, aparente. No fundo, sua fragilidade emocional se esconde atrás de um escudo, que revela a falsidade de um homem “forte”.

Compondo o último elemento de sustentação do já referido tripé, temos a grande atriz STELA FREITAS, que, com sua ROSE, representa o estopim da explosão de todo o drama, o qual passa a existir a partir de seu retorno, naquilo que, antes, poderia ser chamado de “calmaria”, dentro do possível. É inquestionável a ligação que tem de ser feita entre a sua atitude, de procurar os antigos amigos, com uma proposta “maluca”, e seu temperamento, sua personalidade. Jamais se poderia esperar tal atitude por parte de DAYSE, por exemplo, de quem ROSE é o oposto. Uma mulher decidida, independente, de sangue frio, que prioriza o racional, que consegue encarar o futuro como uma decorrência de atitudes presentes, desprezando o passado, sem deixar de se mover pelas consequências deixadas por ele. Fica no ar a dúvida de que a personagem sempre tenha sido e agido como no momento do encontro dos três. Fica uma dose de incerteza, a respeito de tão caro altruísmo não passar de uma forma racional de pensar que “se, para mim, já não há solução, que, pelo menos, possamos praticar o bem em favor do próximo, os mais jovens”; ou se também é uma forma de assumir uma culpa, como já falei, e tentar sair, o mais possível, “limpa” de tanta “sujeira”.

Não me surpreenderia com indicações dos atores deste precioso elenco a Prêmios de TEATRO, como reconhecimento pelas magistrais interpretações do trio. Para o TEATRO, a reunião de ANALUMARIO e STELA, num só espetáculo, já é garantia de sucesso, porém, muito além disso, para o TEATRO BRASILEIRO, considero uma efeméride sem igual tal encontro. Regidos por um maestro de luxo, como RODRIGO PORTELLA, com olhos de lince, ouvidos de um tísico e sensibilidade à flor da pele, esse momento de total felicidade, para o nosso TEATRO, ganha um relevo maior ainda, com “AS CRIANÇAS”.

A beleza da encenação conta com insuperáveis reforços, como o da cenografia, assinada por RODRIGO PORTELLA e JÚLIA DECCACHE. Um pouco abstrata, para a compreensão do público em geral, um turbilhão metafórico, proposto pelos dois artistas. Saí – confesso, sem o menor constrangimento de assumir –, sem conseguir atingir, plenamente, a intenção de alguns detalhes cênicos, porém não posso negar que continuarei num exercício, para procurar digeri-los e entendê-los, nem que tenha de assistir à peça pela terceira vez, e não me furto a considerá-los de excelente bom gosto e ousadia. Tudo se passa numa suposta cozinha, sobre um grande “taluleiro” quadrado (De xadrez?), com um piso de cerca de um palmo de brita (duas toneladas), que provoca um belo efeito cênico, de apelo visual e auditivo. Vejo nisso, embora seja um ambiente interno, de uma casa, uma representação de quão desértico e inóspito ficou o local, após a explosão nuclear. O conjunto dos elementos cênicos, apesar de apresentar uma enorme mesa, de cujas gavetas, são retirados alguns, poucos, objetos de cena, além de algumas cadeiras e uma poltrona, também contém detalhes que sugerem (Apertem os cintos, para uma decolagem comigo!) um parquinho de diversões, com refletores pendurados, presos a pequenos balanços de jardins.

A infância também se faz presente, em cena, por meio de outros elementos do universo pueril, utilizados pelo diretor, tais como um velho cavalinho de madeira, resgatado do sótão e limpo por ROBIN (Para quê? Para quem?); um balão de aniversário, que aparece meio do nada; e pirulitos que os personagens (Ou seriam os atores?) chupam, em cena.

Nesta proposta de encenação iluminação ganha um grande destaque e, pelas competentes mãos, de PAULO CÉSAR MEDEIROS, contribui muito para que as intenções da direção sejam percebidas pela plateia. A luz privilegia, como não poderia deixar de ser, o desenrolar de uma cena, porém para quem não está participando dela, entretanto se encontra na área cênica, ainda que, às vezes, um pouco mais distante, não falta uma luz menos intensa, para deixar à mostra o(a) ator/atriz ou o personagem, permitindo que possam ser captadas suas reações, como espectadores da cena da qual não participam diretamente. Um trabalho de grande gabarito profissional.

Quanto aos figurinos, criação de RITA MURTINHO, não há muito o que dizer, além de que se ajustam aos personagens e guardam uma certa rusticidade, no material com que são confeccionados e nos cortes, algo relembrando roupas que guardam as marcas do desastre nuclear, gastas pelo tempo, até um pouco anacrônicas, em cores “secas”, tons pastéis.

É de muito bom gosto e ajuste ao espetáculo a trilha sonora original, muito significativa, a cargo de MARCELLO H e FEDERICO PUPPI, assim como podemos reservar um destaque, também, para o bom trabalho de preparação corporal, feito por MARCELO AQUINO.

“AS CRIANÇAS”, em pleno início do ano teatral de 2019, já se credencia como uma forte candidata a prêmios, pelo conjunto da obra, pela reunião de tantos excelentes profissionais a serviço do bom TEATRO. Cada detalhe da peça foi, certamente, pensado e discutido, meticulosamente, para resultar numa OBRA-PRIMA (Eu disse que seria, intencionalmente, repetitivo. E não me arrependo.).

espetáculo provoca, desde a primeira cena, na plateia, um arrebatamento, num crescendo, abrindo comportas que guardam surpresas as mais interessantes possíveis. E o resultado de tudo isso vem em forma de calorosos e prolongados aplausos, ao final do espetáculo.

Recomendo, com o maior empenho“AS CRIANÇAS”, como uma das grandes sensações teatrais de 2019, ano que ainda promete muitas outras agradáveis surpresas; ou não.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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