‘As Comadres’ – Para fazer rir e refletir

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Antes de mais nada, uma reverência toda especial a um grupo de mulheres, da melhor estirpe, corajosas, audaciosas, guerreiras, que se juntaram para erguer um espetáculo que não julgávamos ser possível acontecer nos dias de hoje, nas trevas em que estamos vivendo, por conta do descaso e da tentativa de desmonte da ARTE e da CULTURA, no nosso país, por parte de um tríplice (des)governo (federal, estadual e municipal), formado por gente ignorante e insensível. BURROS resume tudo!!! Não é nada fácil montar um espetáculo de qualidade com 20 (ISSO MESMO: 20!!!) atrizes no elenco, revezando-se, em vários papéis, por sessão. MAS ELES NÃO NOS VENCERÃO!!!

peça em questão chama-se “AS COMADRES”espetáculo musical, que traz a primeira direção da grande encenadora ARIANE MNOUCHKINE, fora do Théâtre du Soleil, que ela fundou e lidera, desde 1964. Extraído do “release”, enviado por PEDRO NEVES (FACTORIA COMUNICAÇÃO)“‘AS COMADRES’ é um projeto que nasce marcado por encontros e reencontros. Após quase 30 anos no Théâtre du Soleil, JULIANA CARNEIRO DA CUNHA desejava retornar aos palcos nacionais e trazer para cá toda a bagagem e o processo de criação da lendária companhia francesa. Com o auxílio de FABIANNA DE MELLO E SOUZA e JÚLIA CARRERA, ela convidou ARIANE MNOUCHKINE (…) para assumir a empreitada brasileira. A ideia inicial da encenadora foi montar ‘AS COMADRES’, inspirada em ‘Les Belle-Soeurs’, peça do dramaturgo canadense Michel Tremblay, escrita em 1965 e considerada o primeiro drama quebequense, pelo fato de o texto utilizar  o ‘ojoual’, dialeto usado pela classe trabalhadora da cidade. Após virar um ícone e ser traduzido em mais de 25 idiomas, ele chega ao Brasil, na versão musical do diretor francês René Richard Cyr. Dessa maneira, o projeto marca a confluência de uma dramaturgia canadense com encenação francesa e equipe brasileira.”.

Quando encenado, no Canadá, um país de primeiríssimo mundo, a meu juízo, o espetáculo ganhou grande destaque, por conta de provocar muitas discussões acerca da situação das mulheres canadenses, que não é muito diferente do que enfrentam as de quase todo o planeta. O texto foi escolhido por ARIANE, por ter reconhecido nele, uma dramaturgia, no fundo, feminista, muita relação com as mulheres brasileiras, principalmente no momento atual.

 

SINOPSE

 

A ação acompanha um dia na vida de GERMANA (FLÁVIA SANTANAno dia em que assisti à peça), moradora de um bairro periférico, que ganha um milhão de selos premiados e reúne amigas e familiares, para colar os selos, em cartelas, e jogar conversa fora.

Convidadas por GERMANA, para lhe ajudar a colar um milhão de selos e, assim, a sortuda poder  ganhar tudo o que é preciso, para mobiliar sua casa, LINDA, MARIÂNGELA, BRANCA, ROMILDA, LISA, ROSA, IVETE, LISETE, ANGELINA, TERESA, PIETRA, GABRIELA, OLIVINA e GINETE… são personagens que podem estar reunidas, neste momento, na periferia de São Paulo, no subúrbio do Rio ou à margem de qualquer grande cidade do mundo. Mulheres que trabalham, cuidam de seus filhos e marido, que traem e são traídas, que rezam. São amigas, cunhadas e vizinhas, “comadres” as quais, reunidas na cozinha, colando os selos, falam dos seus sonhos e dissabores, desejos e medos, anseios e frustrações.

Com o passar da tarde, diversas situações dramáticas se desenrolam e envolvem, como pano de fundo, questões contemporâneas, como opressão, repressão e desvalorização da mulher, além de falar sobre os desejos e frustrações da classe média.


Embora tenha declarado que sua encenação seria fiel ao que fizeram Tremblay e Richard, aquele escrevendo, este dirigindoARIANE conseguiu dar um toque de brasilidade ao espetáculo, muito por conta, quero crer, da colaboração de tantas excelentes atrizes brasileiras, as quais levaram, para o palco, suas próprias vivências e as de pessoas próximas a elas. Dá para enxergar, em cena, um subúrbio carioca, paulista ou de outra parte do Brasil, que eu não conheça. Diz a diretora que a montagem à qual assistiu em Paris a levou ao riso e às lágrimas, ao mesmo tempo, o que também ocorre por aqui. Diversão a perder de vista; emoção na mesma proporção, bastando, para isso, o exercício da empatia.

O inusitado maior do espetáculo é que ele tem um elenco que conta com 20 mulheres, todas excelentes atrizes, que se revezam, nas sessões, em 20 personagens, a cada dia, como é comum acontecer no Théatre Du Soleil, e cada atriz pode se desdobrar em mais de uma personagem. É uma tentação, para o público, o qual costuma assistir à peça mais de uma vez, e um problema, para os críticos e jurados de prêmios de TEATRO, já que só podem julgar o que viram, como é o meu caso. Gostaria de ter condições de assistir ao espetáculo outras vezes, embora saiba ser impossível ver a todas as combinações. Satisfaço-me, portanto, com o que vi e de que gostei bastante.

Segundo JÚLIA CARRERA, que traduziu o texto e é uma das produtoras da montagem“Diferentes atrizes atuam em diferentes personagens, guardando suas particularidades, sem qualquer tipo de hierarquização ou julgamento de valor. Ganham as atrizes, que se multiplicam em cena; ganha o público, que assiste a diversas versões de um mesmo espetáculo; ganha o TEATRO BRASILEIRO, que vê suas possibilidades ampliadas com a passagem de ARIANE MNOUCHKINE pelos palcos do país.”. Ter, realmente, essa mulher, ARIANE, à frente de um projeto teatral brasileiro é um luxo incomensurável.

“Ariane potencializa tudo isso, porque o fazer teatral, para ela, é baseado na força do coletivo”, completa FABIANNA DE MELLO E SOUZA, que esteve no Théatre du Soleil, por mais de uma década, e também atua no espetáculo e também o  produz.

É impressionante perceber como o texto tem tudo a ver com a nossa brasilidade, ainda que o hábito de colecionar selos promocionais esteja bem distante da realidade brasileira. Mas o colar selos é só o pretexto, para que as mulheres se reúnam, a fim de juntar forças e se ajudarem, mutuamente, a despeito de um final nada ético, o que vem a provar que a falibilidade do ser humano, a distorção de caráter não distingue sexo, cor, classe social… É muito fácil, para nós, identificar, em cada uma daquelas mulheres, com suas histórias de vida, suas inquietações, desejos e sonhos uma “Maria, Maria”, de Milton NascimentoUma mulher que merece viver e amar / Como outra qualquer do planeta (…) / É o som, é a cor, é o suor / É a dose mais forte e lenta / De uma gente que ri, quando deve chorar. / E não vive, apenas aguenta. / Mas é preciso ter força, / É preciso ter raça, / É preciso ter gana sempre. / Quem traz no corpo a marca / Maria, Maria / Mistura a dor e a alegria. / Mas é preciso ter manha, / É preciso ter graça, / É preciso ter sonho sempre. / Quem traz na pele essa marca / Possui a estranha mania / De ter fé na vida.”.

Não tenho condições de analisar, uma a uma, as atuações das atrizes e, para não cometer nenhuma injustiça, destacando um detalhe ou outro, no trabalho desta ou daquela, prefiro dizer que o conjunto da obra é ótimo, o que não poderia ser de outra forma, já que, misturadas, estão em cena, atrizes com mais ou menos tempo de profissão, porém todas, sem exceção, com grande talento e muito boas interpretações.

Só uma profissional do gabarito de ARIANE MNOUCHKINE, para posicionar 20 atrizes num palco, sem que ninguém se atropele e de modo que cada uma assuma um protagonismo, quer quando está diretamente fazendo parte da cena, quer quando “apenas” ajuda a compor o ambiente e a cena. Por que não?

Uma produção levantada com muito sacrifício, quase na base da “ação entre amigos”, não poderia ostentar riqueza no cenário e no figurino. Mas também não era necessário. O importante é que ambos os elementos técnicos estivessem inseridos nas exigências do texto. Isso os responsáveis pelos dois trabalhos souberam fazer com competência. A cozinha, que compõe a cenografia, criada por MINA QUINTAL, reproduz, com riqueza de detalhes, aquele cômodo da maior importância nas casas brasileiras, que serve para agregar, em volta de uma mesa. Nas laterais do palco e numa espécie de jirau, ficam cadeiras, para as atrizes que não estão atuando ou fazendo coro. O figurino, assinado por TIAGO RIBEIRO, deixa a impressão de que cada uma das atrizes trouxe o seu de casa, peças que fazem parte do seu próprio guarda-roupa. Todas se vestem da forma mais condizente com sua personagem.

HUGO MERCIER foi discreto e preciso na iluminação. Fez uma luz quase “de salão”, para iluminar bem um cômodo da casa, de uma forma geral, não apresentando muitas variações, porém ocupou-se de, em poucas cenas, enfatizar certos personagens e suas ações, que bem mereciam esses destaques.

É alvo de um aplauso especial WLADIMIR PINHEIRO, pelo difícil e complicado trabalho de direção musical, um verdadeiro desafio. Nesta seara, um crédito positivo vai para as canções originais, compostas por DANIEL BÉLANGER, com letras de WLADIMIR e SÔNIA DUMONT. As canções são executadas ao vivo, contando com o acompanhamento de duas excelentes musicistasCATHERINE HENRIQUES KARINA NEVES.

Uma das atrizes da peça me confidenciou que considerava a montagem como um “marco histórico”, para o TEATRO BRASILEIRO, o que cheguei a repetir, para duas ou três outras, depois, dando o crédito a quem me dissera aquilo. Na sua euforia, ao confraternizar comigo, após a sessão, achei interessante a sua colocação, na hora. Refletindo sobre aquela assertiva, de volta para casa, cheguei a considerá-la, talvez, um certo exagero, levando em conta o seu grande entusiasmo e alegria por estar participando do projeto. Não demorou muito, porém, para, considerando vários componentes, eu concordar, completamente com aquela atriz e amiga, em gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural) (Nada concorda em grau – normal, comparativo e superlativo -; é um equívoco de quem faz uso da expressão “Concordo em gênero, número e grau”.).

Recomendo bastante o espetáculo, o qual, pelo grande sucesso que vem fazendo, com relação ao público e à crítica, com casas LOTADAS, uma raridade, hoje, no Rio de Janeiro, teve sua temporada esticada até o dia 2 de junho, o que me dará a oportunidade de revê-lo.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE  MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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