‘As Brasas’ – A história das palavras não ditas e das ‘certezas’ em forma de cinzas

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

“AS BRASAS”“A Gyertyák Csonkig Égnek”, no original, espetáculo teatral em cartaz no Teatro Das Artes (Rio de Janeiro), me levou a um universo que eu, infelizmente, ignorava por completo, o de SÁNDOR MÁRAI (1900 / 1989), um dos maiores e mais consagrados escritores da língua húngara, autor de 46 livros e que também trabalhou como jornalista, além de ter sido poeta e dramaturgo. Os estudiosos de sua obra o definem como “um verdadeiro amante dos valores morais e civis”, o que, facilmente, se nota na peça aqui analisada. “MÁRAI foi sempre um crítico inconformado com a ascensão do comunismo. Considerava a liberdade de pensamento fundamental, para que o homem pudesse conquistar respeito e conhecer a felicidade” (Wikipédia).

A despeito de também ter escrito para o TEATRO, a peça em tela, na verdade, foi adaptada para os palcos, com dramaturgia de DUCA RACHID e JÚLIO FISCHER, de um de seus romances, que fala, basicamente, de amizade, paixão, honra e lealdade; esta, parece-me, com maior peso.

 

SINOPSE

 

HERSON CAPRI e GENÉZIO DE BARROS vivem, respectivamente, HENRIK e KONRADprotagonistas de uma história visceral de amor e amizade, marcada pelo rancor e o ressentimento.

Ainda meninos, eles se conheceram na escola militar, tornaram-se amigos inseparáveis e, ao longo dos anos, partilharam descobertas e experiências da infância, juventude e vida adulta.

HENRIK pertencia a uma família rica, enquanto KONRAD era um pobretão, se comparado àquele.

Eles não se viam há 41 anos, desde o dia em que KONRAD desapareceu, após uma caçada na floresta nos arredores do castelo de HENRIK, seguida de um jantar, em 1899, na Hungria, no sopé dos Montes Cárpatos, cercado por densas florestas.

Os amigos haviam saído, quando jovens, para uma caçada habitual. Num determinado momento, HENRIK avistou um belo cervo, um excelente troféu para seu caçador, e, imediatamente, parou, com a impressão de que KONRAD, até então, o fidelíssimo amigo, situado alguns passos atrás, havia empunhado sua espingarda, posicionando-a, como seria o correto, na altura do ombro, preparando-se para o tiro. Mas o alvo “não seria o animal silvestre, e sim o próprio HENRIK”. Foi essa a impressão que ficara. KONRAD demorou a puxar o gatilho e o cervo, arisco, percebendo a iminência da morte, fugiu, desaparecendo da linha de tiro, ficando nela apenas HENRICK e sua dúvida. Imobilidade total e silêncio constrangedor dos dois. Sem maiores explicações, KONRAD toma seu rumo e desaparece da vida de HENRICK, por 41 anos.

Entre os dois, há um segredo que ronda o dia da caçada e as lembranças de KRISZTINA (NANA CARNEIRO DA CUNHA), mulher de HENRIK e amiga, de infância, de KONRAD, e o segredo daquele fatídico dia da caçada está prestes a ser desvendado e compreendido.

Entre eles, reina, absoluta, o “fantasma” de KRISZTINA, a mulher por quem ambos estão dispostos a lutar e que fora apresentada a HENRICK por KONRAD.

Após quatro décadas e um anoHENRIK, agora general da reserva, recebe uma carta do amigo KONRAD, que havia abandonado, “inexplicavelmente”, a caserna, informando-lhe estar de volta à cidade, levando-o a se preparar para esse tão aguardado confronto final.


Nascido em Kassa, uma pequena cidade húngara, que, hoje, pertence à EslováquiaMÁRAI sempre foi um inconformado com o regime comunista de seu país, um grande crítico desse sistema de governo, exilando-se, em 1948, tendo morado em vários países, como a Suíça, a Itália e a França. Em 1979, fixou-se na CalifórniaEstados Unidos, onde se suicidou, com um tiro de revólver, aos 89 anos de idade, às vésperas do fim do comunismo europeu.

Pouco conhecido por aqui, a despeito de seu enorme talento, é a primeira vez que SÁNDOR MÁRAI ganha uma adaptação de uma obra sua para os palcos, no Brasil, pelas mãos de DUCA RACHID e JÚLIO FISCHER, os quais contaram com a colaboração dramatúrgica de PEDRO BRÍCIO, que também dirige o espetáculo.

DUCA e JÚLIO leram o romance homônimo, há quase dez anos, quando trabalhavam, juntos, em outro projeto, e a paixão de ambos pela obra levou-os à ideia de transformá-la em TEATRO, de primeiríssima qualidade, diga-se de passagem, como as peças que se fazia antigamente e que, infelizmente, hoje em dia, são bissextas nos palcos cariocas. O espetáculo fez sua estreia nacional em 28 de setembro de 2018, no SESC Santana, em São Paulo, onde cumpriu uma bela temporada, contando com a aprovação do público e da crítica local.

Segundo DUCA, que escreve, pela primeira vez, para o TEATRO, o que mais a impressionou, após a leitura do livro, “…foi a relação entre esses dois amigos. É tão profunda, uma amizade tão forte, que, como acontece, às vezes, na vida, se estabelece uma relação de poder. Existe uma tensão entre os dois, que acaba sendo projetada naquela mulher (…). Eles a usam para projetar aquele amor que sentem um pelo outro e não conseguem realizar. Existe essa tensão erótica…”, sem envolvimento carnal, necessariamente. Concordo com a dramaturga, uma vez que, embora, de forma bastante velada, se pode perceber, nas entrelinhas, uma pitada de homoerotismo no relacionamento dos protagonistas. Vale ressaltar que a sugestão para isso, no lugar de uma situação escancarada, é muito mais saborosa para o leitor/espectador.

Pode-se dizer que traição, mortes e vingança são ingredientes básicos do romance “AS BRASAS”, que deu origem ao espetáculo, entretanto há um elemento que se sobrepõe a todos esses: a questão da lealdade. Não é preciso muito para o espectador perceber, na trama, diversos traços comuns com uma das obras-primas do mais genial dos escritores brasileiros, Machado de Assis. Em “Dom Casmurro”, o “Bruxo do Cosme Velho” deixa bem claro, ao leitor, que o motivo que fazia sangrar o coração do protagonista, Bentinho, quase levando-o à loucura, era chegar à certeza de que teria sido consumada uma traição de sua amada Capitu“olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, com o seu melhor amigo, Escobar. O enigma, até hoje, desafia os leitores a discussões profundas, sem que se consiga chegar a uma conclusão, ainda que algumas pessoas já a tenham, com convicção, entre as quais me incluo. Traiu, sim!!!  #prontofalei.

Em “AS BRASAS”, a situação também está presente. Teria existido um romance clandestino entre KONRAD e KRISZTINA? O que não faltam são evidências, porém o que atormentava a vida de HENRICK não era exatamente isso. O que lhe faltava, e ele cobrou do amigo, à exaustão, até onde conseguiu, era outra certeza, uma revelação que não cabe aqui ser informada, uma vez que tiraria, totalmente, do futuro espectador, o prazer de saborear as surpresas que estão reservadas para o final, aberto, da história. São duas, na verdade: uma relacionada ao título da peça, excepcionalmente escolhido; outra, à concretização, ou não, do desejo de esclarecimento dos fatos, por parte de HENRICK. É preciso, de verdade, assistir à peça, para ficar sabendo e tirar as suas conclusões.

A ação se passa, logo após o início da 2ª Grande Guerra Mundial, dentro de uma sala abandonada do castelo de HENRICK, fechada havia quatro décadas, desde aquela fatídica noite, consequentemente, revelando traços de um abandono, de desgastes naturais, provocados pelo tempo. Metaforicamente, representa o interior daqueles dois amigos, frente a frente, para um combate final. Aos olhos do espectador, está, concretamente, o retrato do estado interior do anfitrião, principalmente, tudo fantasticamente concebido pela genialidade de BIA JUNQUEIRA, que assina um cenário/instalação, puxando para o abstrato, dos mais impactantes com os quais travei contato nos últimos tempos e completamente oportuno, com relação à peça. Praticamente, todo o palco, incluindo as coxias, à mostra, é ocupado por duas poltronas da época, derrubadas e cobertas por panos empoeirados; pouquíssimos móveis revirados; muitos conduítes pretos, de vários calibres, espalhados pelo chão e alguns pendentes, em amontoados disformes, um dos quais é utilizado, numa cena, de forma brilhante, pela direção, para representar um animal selvagem a ser caçado. Ainda compõem o ambiente, fazendo parte da arte da instalação, lâmpadas fluorescentes, que se acendem em determinadas cenas, em que são requeridas, e uma grande mesa, apenas com um tampo, que desce do teto, suspensa por fios de aço, para o jantar de “boas vindas”, que não chega a ser consumado.

Tão importantes, naquele “duelo”, como as palavras são os silêncios, os quais, muitas vezes, de tão expressivos e valorizados pela dupla de atores, ganham mais força na trama. Eles fazem parte das histórias, acusações, evasões, dissimulações relacionadas à vida dos protagonistas e, também, envolvendo o terceiro elemento do “triângulo amoroso”KRISZTINA (NANA CARNEIRO DA CUNHA), já não mais presente, uma vez que já havia morrido, e levado para o túmulo uma suposta desconfiança do marido, para ajudar a esclarecer o grande mistério, a dúvida cruel que atormenta o infeliz HENRICKNANA, que, na verdade, atua mais como violoncelista, executando uma bela trilha sonora original, composta por MARCELO ALONSO NEVES, tem seus raros momentos de atriz, com pequenas intervenções, mais em “flashbacks”, como aquela que disparou a seta da desconfiança.

texto gira em torno de lembranças; as duras e cruéis ofuscando as doces, de uma infância pura e saudável. Mais que amigos, os protagonistas tinham almas gêmeas, que se deformaram e foram perdendo a identidade, com o passar do tempo, em função de uma única noite e da interferência de uma personagem, sem cuja existência, não haveria conflito. Mulher bonita e atraente, KRISZTINA, a “femme fatale” (Chegaria a tanto?!), a qual, para pôr mais pimenta na trama, havia sido apresentada ao marido, HENRICK, exatamente por KONRAD, como já revelado. O destino e suas travessuras… KRISZTINA se dizia parente de Chopin, amava a música, um ponto em comum entre ela e KONRAD.

Os diálogos são muito bem alinhavados, construídos com esmero, destacando-se grandes “bifes”, ditos por HENRICK; este se comunica mais pelos sons das palavras; o amigo, pelas expressões faciais e corporais; mais, ainda, pela expressividade de seus silêncios, o que é obtido por um belíssimo e competente trabalho de direção,  por parte de PEDRO BRÍCIO, e de uma atuação impecável, irretocável, de dois atores do primeiro time do TEATRO BRASILEIROHERSON CAPRI e GENÉZIO DE BARROS.

Como é prazeroso ver e ouvir HERSON e GENÉZIO num palco! Que aula de TEATRO os dois nos oferecem! Que vozes, firmes, bem colocadas, impostadas, ambas com timbres marcantes! Tão acostumados estamos a ver atores, hoje em dia, fazendo uso da tecnologia, com o auxílio de microfones, para fazer com que suas vozes cheguem ao público, que nos causa uma alegria muito grande ver dois excepcionais atores explorando uma de suas ferramentas de trabalho com tanta clareza, beleza e potência! Saudade de quem teve o privilégio de ter aprendido a usar a voz com Dona Edmée BrandiDona Lilian Nunes e Dona Glorinha Beauttenmüller, por exemplo! E como conseguem se entregar totalmente aos seus personagens esse dois! Duas brilhantíssimas atuações!!!

Como grandes destaques desta montagem, além dos já citados textodireçãoatuação cenografia, devemos um crédito muito positivo a outros elementos, como o discreto e impecável figurino, assinado por, MARINA FRANCO, que marca, muito claramente, com suas escolhas, a diferença dos perfis dos protagonistas. Enquanto KONRAD se apresenta, elegantemente, com um belo traje civil, demonstrando que o menino pobre evoluiu para um bem sucedido homem, HENRICK, também de forma elegante, se bem que na reserva, veste uma espécie de dólman militar, sem divisas nem medalhas, disfarçado de identidade civil; ele saiu da caserna, mas a caserna parece não ter saído dele, por completo.

Ponto alto e, também, de grande importância, no espetáculo, é a bela trilha sonora original, composta por MARCELO ALONSO NEVES, executada, ao vivo, no decorrer de toda a encenação, pela violoncelista NANA CARNEIRO DA CUNHA, a qual alterna a função de musicista com algumas intervenções, de pequena monta, como atriz, mas bem interessantes.

RENATO MACHADO ratifica sua posição de um dos maiores profissionais de iluminação do TEATRO BRASILEIRO, tantas vezes premiado, com uma luz sem a qual a montagem perderia muito, já que soube captar a essência de cada cena e encontrar a necessidade de iluminação para cada uma delas, conseguindo criar belos momentos de revelação e mistério.

“AS BRASAS” é um espetáculo de rara aparição nos palcos brasileiros – cariocas, principalmente -, nos últimos tempos. É aquilo que se pode chamar, sem a menor conotação pejorativa, de um “TEATRÃO”, como se fazia antigamente e que tanto agrada ao público, ávido de grandes produções, nas quais a essência do TEATRO continua viva, com grandes textosótimas direçõesbrilhantes interpretações e corretíssimos elementos de apoio.

O público sai do Teatro das Artes totalmente encantado, gratificado e agradecido pelo que viu em cena. São, certamente, 70 minutos de um grande envolvimento emocional e uma perfeita cumplicidade entre palco e plateia.

“AS BRASAS” é um dos melhores espetáculos que passaram pelos palcos cariocas, neste ano de 2018, quase a se findar, e, certamente, contém, de sobra, material para boas indicações a prêmios.

Tudo isso faz com que eu o recomende com o maior empenho, na torcida para que encontre uma oportunidade para revê-lo, que é o que costumo fazer quando uma peça muito me agrada.

Meus sinceros parabéns a todos os envolvidos nesse lindo e vitorioso projeto!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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