‘Aracy’ – Como arrancar o Lobo Mau da barriga da Vovozinha

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

E a temporada dos monólogos segue a todo vapor. A cada convite para um novo, que recebo, não consigo me conter e perguntar a mim mesmo: Será que este é bom? Será que valerá a pena dedicar meu precioso tempo para ir a um Teatro, às vezes, bem distante da minha residência, e voltar para casa frustrado? Um bom monólogo é um deleite; um ruim é um sofrimento.

Felizmente, a grande maioria dos que tenho visto, desde o início deste ano (2019), tem me agradado bastante. Com o que passo a comentar, somaram-se 23, ao todo, até o momento, sendo que 17, na minha classificação, recebem o selo do “bom” para cima, como é o caso de “ARACY”, em cartaz no Teatro 1, do SESC Tijuca.

Este segundo solo de FLAVIA MILIONI, o segundo autoficcional, da atriz e dramaturga, é uma espécie de documentário teatral, uma “prestação de contas”, o “pagamento de uma dívida”, “uma investigação do processo de invisibilidade social da mulher, na linha hereditária feminina. Trata-se da busca de uma neta pela história de sua avó, esbarrando com as imposições do patriarcado estrutural”.

É um espetáculo lindo e comovente, no qual a plateia é convidada a percorrer, num “flashback”, com a autora/atriz, os caminhos e meandros que a levaram à essência da avó, que ela não conheceu, mas pela qual nutre aquele amor puro de neta.

 

SINOPSE

 

ARACY se matou em 1954, aos 26 anos de idade.

Para lançar luz a uma história trágica e, infelizmente, não tão rara, a peça mergulha em temas comuns a todas as mulheres, como o machismo e o patriarcado estruturais e suas consequências.

Investigando a misteriosa história de sua avó materna, através dos rastros deixados por ela, FLAVIA MILIONI deparou-se com as consequências devastadoras do patriarcado na vida das mulheres.

Debruçada sobre uma história real e de foro íntimo, a montagem se vale da autoficção, que também foi objeto de pesquisa da autora/atriz em seu mestrado.

Evocando uma memória inventada, a relação de avó e neta, que nunca existiu, o espetáculo cria um resgate de um laço ancestral, já que representa o apagamento existencial das mulheres na sociedade e apresenta um assunto tido como tabu ainda nos dias atuais, o suicídio.


O que você sabe acerca das suas avós? Das famílias de suas avós? Das mães de suas avós? De seus sobrenomes. “Poucas pessoas sabem, mas os sobrenomes possuem origem absolutamente oriunda dos pais e os demais antecessores masculinos, o que faz com que todas as mulheres sejam ‘anuladas’, com o passar do tempo. Essa foi uma das descobertas de FLAVIA MILIONI no processo criativo de “ARACY”… (Retirado do “release”, enviado por BRUNO MORAIS – MARROM GLACÊ ASSESSORIA).

Mas não é assim mesmo? Já há bastante tempo, ao se casar, as mulheres podem preservar o seu nome de solteira, porém, se optarem pela tradição, vão agregar, ao seu prenome e ao sobrenome do pai, o do marido; ou melhor, o do pai do marido. E os sobrenomes das mães desaparecem, via de regra (Há mulheres que os mantêm, mas isso é bem raro.). É como se a mãe fosse anulada, apagada da vida da filha.

Segundo FLAVIA(“ARACY) “É um trabalho que propõe, ao público, refletir sobre as mulheres que vieram antes de nós, e encontrar essas mulheres que somos ou que queremos ser. A peça evoca uma memória inventada, uma relação de avó e neta, que nunca existiu, criando o resgate de um laço ancestral, que, no fim, une todas nós”. E segue: “Um dos pilares deste tipo de TEATRO é o uso do relato e da confissão na cena. Também pode ser entendido como uma subversão da autobiografia, já que admite que a memória está diretamente associada à imaginação”.

Sobre a questão do suicídio, ainda com base no citado “release”, falando do ponto de vista estatístico, “Em escala mundial, o suicídio mata mais do que todos os homicídios, incluindo os mortos em guerras. Ninguém gosta de falar no assunto e, ao mesmo tempo, todo mundo conhece alguém que se matou. Por que não enfrentamos essa sombra? Os casos só aumentam e os números são alarmantes. Falar sobre isso é parte do processo de cura”, acredita a artista.

Para dar forma ao espetáculo, escrevê-lo, salvo engano, a dramaturga levou dois anos, percorrendo quatro cidades, deslocando-se, de uma a outra, nos mais diversos meios de transporte, em busca de parentes que não conhecia, para buscar informações sobre a pesquisada, e sentindo que, por fim, teve um encontro consigo mesma.  Segundo ela, “O espetáculo evidencia que a luta das mulheres continuará, enquanto formos oprimidas e excluídas. Hoje, somos inundadas por termos como ‘machismo’, ‘misoginia’, ‘sexismo’, ‘mansplaining’, ‘gaslighting’, ‘sororidade’… Nenhuma dessas palavras fazia parte do vocabulário de ARACY, mas ela sentiu, na pele, cada um de seus significados. Tocar na ferida, através da história de uma mulher específica, é propor a reflexão sobre o machismo nas relações mais íntimas. ARACY está prestes a cair no esquecimento. Ela é cada uma de nós. Não podemos deixar que nos esqueçam”, encerra.

Apesar de tudo o que transcrevi, das palavras e depoimentos de FLAVIA, acho que a peça não pode ser considerada um “libelo”, um desfraldar de bandeiras a favor do feminismo. Vejo-a, simplesmente, como a constatação de uma triste verdade, que precisa ser redefinida, alterada, deixada para trás.

espetáculo é muito simples, singelo e extremamente comovente, mexe com a emoção e a sensibilidade dos espectadores, pela temática, pela belíssima atuação da atriz e pelos demais elementos que cercam a montagem.

ARACY era costureira. Esse detalhe inspirou as cenógrafas ELSA ROMERO e LIA MAIA, ao colocar, em cena, uma velha máquina de costura, com alguns objetos ligados a esse universo; um varal, com algumas peças penduradas, incluindo um lençol, no qual são projetadas imagens de vídeos das viagens de FLAVIA, em busca de suas origens, e de fotos; e, numa das pontas do que seria o proscênio, um grande vaso, com um pé de araçá, fruto de pequeno porte, semelhante à goiaba, que deu origem à cidade onde FLAVIA nasceu, Araçatuba“terra abundante em araçás”.

A própria FLAVIA criou seu figurino, que consiste numa grande saia comprida e rodada, branca, de tecido leve e esvoaçante, simbolizando, ou personificando, a avó. Essa peça é vestida sobre um segundo figurino, um vestido, também branco, mais do dia a dia.

espetáculo não pede uma iluminação muito específica, elaborada ou especial, e o trabalho que executam LARA CUNHA e FERNANDA MANTOVANI estão bem apropriados à proposta da encenação.

Infelizmente, a ficha técnica não aponta o crédito para quem assina a direção musical do espetáculo, quem selecionou a trilha sonora, mas esta é feita com bastante competência e ajustada à montagem.

Quase ia me esquecendo de fazer alusão à boa direção, da própria FLAVIA MILIONI, que contou com a codireção de NATASHA CORBELINO, também esta responsável pela correta direção de movimento.

 “ARACY” é, acima de tudo uma linda e comovente homenagem a uma mulher que, embora bem à frente do seu tempo, lutou por um amor proibido, clandestino, em meio a uma sociedade conservadora, do interior paulista, mas não conseguiu aguentar a pressão e os julgamentos por muito tempo e decidiu abrir mão de sua própria vida, na flor dos seus 26 anos, deixando duas pequenas crianças, duas meninas, entregues à generosidade de outra mulher, para que as criasse. “ARACY” acabou por ser vítima de sua ousadia e coragem.

Recomendo bastante o espetáculo!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
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O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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