Ao tratar de tema corajoso, ‘Casa Caramujo’ é infantil obrigatório

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Antes de mais nada, quero esbanjar minha felicidade de estar escrevendo a 100ª crítica do RIO ENCENA com “Casa Caramujo”, um espetáculo que representa tudo que para mim traduz um teatro de qualidade: exploração de linguagens de modo a criar os signos cênicos mais precisos e facilmente identificáveis pelo espectador. A partir daí, brincar com eles, extrair sua graça e sua dramaticidade.

Vamos à crítica! Com sua mãe de cama e alertando-o que sua saúde está por um fio, Jonas sai de casa e acaba esbarrando com a morte em seu caminho. A morte pergunta onde ela pode encontrar uma senhora que mora com seu filho ali perto e que está mal de saúde. Jonas, percebendo que a morte se referia à sua mãe, mente e (pasmem!) luta com a morte e acaba prendendo-a na concha de um caramujo. Sem a morte, toda a vida fica comprometida: é impossível quebrar ovos ou colher legumes; também não dá para cozinhar galinha ou peixe. Esse é o mote de “Casa Caramujo”, oriundo de um conto de tradição oral escocesa do século XI.

Com todas as ressalvas que podemos ter quando notamos que se trata de uma peça infantil que traz a morte como tema, “Casa Caramujo” consegue acertar em todos os riscos que corre: a peça é linda (plasticamente), sensível, criativa em cada escolha cênica, e carismática ao extremo!

Para começar, a representação da morte em acordo com a iconografia ocidental (o manto negro de capuz e foice) não suaviza o que poderia amedrontar muitos encenadores. É corajoso e honesto com os espectadores, além de respeitar a inteligência e a sensibilidade da criança (respeito este frequentemente ausente do teatro infantil). Mas também não existe motivo para pânico ou peso! A sinceridade plástica contrasta com a doçura com a qual a morte trata o menino Jonas. Gentil, amiga, conversa com ele o tempo todo e se comporta, de fato, como igual, como parte da vida. E nada como ver este encontro diante de nossos olhos para constatar a presença natural da morte no mundo.

A mímica corporal e a utilização de bonecos completam o elenco de linguagens simbólicas na abordagem de uma fábula (gênero simbólico por excelência) medieval. Opções precisas, criativas (nada como a ópera de legumes ou o “Charles Chaplin” como dono da venda local), corajosas e carismáticas. Todos os louros à Cia. Teatro Epigenia, ao diretor (e autor do texto teatral) Gustavo Paso, e a toda a equipe.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas,críticas e sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.