‘Ao Som de Raul Seixas, Merlin e Arthur – Um Sonho de Liberdade!’ – Um casamento perfeito

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

 Uma das melhores sensações, totalmente indescritível, para mim, é sair de um Teatro com a impressão de estar flutuando e de não perceber ninguém, e nada, à minha volta, como se estivesse sendo conduzido, para casa, guiado, empurrado, por seres invisíveis; talvez anjos. Acrescente-se a isso o sentimento (Pura impressão, é claro! L) de que minha massa corpórea se reduziu a menos da metade. Livre, leve e solto, pairando no ar. Felizmente, no último mês, por três vezes, experimentei tal sensação, que seria a desejada em todas as vezes em que assisto a um espetáculo teatral. Por coincidência (Ou não!!!), os três momentos aconteceram após eu ter assistido a três musicais, todos OBRAS-PRIMAS, cada um com características totalmente diferentes das dos outros: “O Som e a Sílaba”, “Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava” e “AO SOM DE RAUL SEIXAS, MERLIN E ARTHUR – UM SONHO DE LIBERDADE!”, espetáculo sobre o qual me proponho a escrever, tomado, ainda, de um sentimento de total êxtase, um estado de graça (Viva Clarice Lispector!!! “Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que, tantas vezes, acontece aos que lidam com a arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe.”), como ocorreu nas duas vezes em que assisti a este mais recente espetáculo, produzido pela AVENTURA ENTRETENIMENTO. E pretendo ver mais… e mais… e mais… Repeti as três OBRAS-PRIMAS.

Sou apaixonado por narrativas medievais, e tudo o que envolve a figura do REI ARTUR e os Cavaleiros da Távola Redonda me atrai compulsivamente. Um dos meus “vinis de cabeceira” foi gravado pelo tecladista Rick Wakeman e se chama “The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table”, uma joia da discografia do renomado artista, de quem sou fã incondicional, desde os tempos da banda “Yes”. São apenas sete longas faixas de um som totalmente fascinante. Recomendo muito o disco, hoje, praticamente, peça de colecionadores, como eu. A propósito, enquanto escrevo, delicio-me com as canções do álbum, como faço com certa frequência.

Para comemorar 10 anos no mercado dos espetáculos musicais, a AVENTURA ENTRETENIMENTO, sobre a qual já fiz sérias restrições, em críticas anteriores – justas, a meu juízo e olhar crítico, gosto pessoal – leva à cena uma grandiosa montagem, sob todos os aspectos, tendo escolhido contar a saga do REI ARTHUR, da Bretanha, suas aventuras e seus amores, sob a fantástica ótica de MARCIA ZANELATTO, dramaturga premiada, que, certamente, por este texto, se habilita a outros prêmios.

Não se sabe se as aventuras do afamado REI possuem algum fundo de verdade, se são reais ou completamente fictícias. O REI ARTHUR teria sido um lendário líder bretão, que, de acordo com as histórias medievais e os romances de cavalaria, os quais me matam de prazer, liderou a defesa da Bretanha, contra os invasores saxões, no final do século V e no início do século VI. Os detalhes das suas histórias pertencem à tradição oral e, portanto, são passíveis de dúvidas; até quanto à sua real existência, como já dito. Fazem parte do folclore e das invenções literárias, e sempre foi, e continuará sendo, um verdadeiro desafio para os historiadores, incluindo os contemporâneos. Não se tem um concreto contexto histórico acerca do REI ARTHUR, tendo sido construído, então, um universo arthuriano, a partir de várias fontes. Todas as bases históricas, para a lenda do REI ARTUR, vêm sendo debatidas, há bastante tempo, pelos acadêmicos de todas as partes do mundo, especialistas em História Medieval. A falta de evidências convincentes, robustas, insofismáveis, nos registros mais antigos, é o que leva muitos renomados historiadores a não considerar a figura de ARTHUR na história da Bretanha, o que, porém, para mim, pelo menos, é o que menos importa.

Reza a lenda que ele teria sido um sábio homem, probo, de caráter ilibado, generoso, gentil, fiel e leal a seus amigos e à sua amada, GUINEVERE, além de demonstrar um temperamento moderado e pacífico; às vezes, porém, frágil e errando nas decisões reais, apelando, sempre que se via diante de uma dúvida, para as sábias palavras e orientações de seu mentor, MERLIN, o Mago, acatando-lhe os conselhos.

Diz, ainda, a fábula que ARTHUR se tornou REI, depois de, sem entender o porquê, aconselhado por MERLIN, ter contribuído para que se cumprisse uma profecia, a de que aquele que conseguisse retirar uma espada, Excalibur, de uma enorme pedra, na qual fora encravada, seria coroado Rei da Bretanha. ARTHUR foi o responsável pelo feito, tentado, anteriormente, por tantos “candidatos”, e atingiu, assim, o topo da realeza.

Uma vez tornado monarca, ARTHUR, preocupado com as pendengas entre bretões e romanos, uma polarização semelhante ao que está acontecendo, atualmente, no Brasil, o que enfraquecia o seu reino, e na intenção de uni-los, com o objetivo de fazer frente a uma iminência de invasão de Camelot, pelos saxões, teve a ideia, a partir de uma visão, de criar a Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda, que também não se sabe ser um mito ou uma verdade, uma espécie de Congregação, de um Conselho, em que todos teriam o mesmo direto a opinar e, pelo fato de não haver uma cabeceira, não existiria um líder nem, consequentemente, a supremacia de algum de seus membros. Teria sido ele o precursor da ideia, surgida muitos séculos depois, trocada a ordem das palavras, de “fraternité, igualité, liberté”? Os Cavaleiros da Távola Redonda, cujo número difere, de história para história, de 12 a 150, ou mais, prevalecendo, na maioria delas, uma dúzia, seguiam um “Código de Cavalaria”, o qual se resumia em buscar a perfeição humana; apresentar retidão nas ações; ter respeito aos semelhantes; provar amor pelos familiares; ter piedade dos enfermos; mostrar doçura com as crianças e mulheres; e ser justo e valente, na guerra, e leal, na paz. Não poderia deixar de mencionar, também, o fato de que todos eram fiéis à Igreja Católica. Pregava, ainda, o Código aceitar as diferenças e respeitar as diversidades, pelo que tanto lutamos nos dias de hoje.

 

SINOPSE

 

O espetáculoAO SOM DE RAUL SEIXAS, MERLIN E ARTHUR – UM SONHO DE LIBERDADE!” fala de amor, lealdade e, sobretudo, da luta pela concretização de um sonho de liberdade.

ARTHUR (PAULINHO MOSKA), sem nenhuma pretensão, torna-se o Rei da Bretanha (Na juventude, o personagem é vivido por RODRIGO SALVADORETTI), desposa GUINEVERE DE CAMELIARD (LARISSA BRACHER) (Na juventude, interpretada por NATÁLIA GLANZ), de ascendência romana, e sonha unir dois grupos que estavam em conflito, no seu reino: os bretões, linhagem à qual ele pertencia, e os romanos, ambos habitantes de Camelot, para que, juntos e fortalecidos, pudessem lutar contra os saxões, que desejavam invadir a região e dominá-la.

ARTHUR era apaixonado por GUINEVERE, cujo pai já a havia prometido, em casamento, ao futuro Rei da Bretanha (ARTHUR, no caso.), porém ela já estava envolvida, amorosamente, com LANCELOT DE BERNOIC (GUSTAVO MACHADO) (SAULO SEGRETO, na juventude). Este renuncia ao seu amor por GUINEVERE, por lealdade ao REI, e, no dia do casamento, parte de Camelot.

Como estratégia, ARTHUR funda a Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda (Grande Conselho da Távola Redonda) e convoca seu amigo de juventude, LANCELOT, para voltar, 20 anos após sua partida, para, com sua bravura, coragem e lealdade ajudá-lo na luta de libertação de seu povo, contra os invasores, o que acaba ocorrendo.

Cria-se, então, e não poderia ser de outra forma, um clima constrangedor, no mínimo, entre o REI a rainha e o fiel amigo. Estaria formado um triângulo amoroso.

Um obstáculo, com o qual ARTHUR não contava, era a traição de DREADMOR (PATRICK AMSTALDEN), um de seus conselheiros, e ANAMORG (KACAU GOMES), aia da rainha e que ambicionava a sua coroa.

LANCELOT, sabendo que havia um traidor entre os seus, o qual levava informações a MEISSEN (RENATO CAETANO), o líder dos saxões, por dinheiro, combina, com ARTHUR, uma determinada batalha, falsa, para que DREADMOR ouvisse e passasse os planos ao inimigo, atacando os saxões, que eram em bem maior número, em outro momento e lugar, pegando-os desprevenidos e vencendo a batalha.

A paz, tão desejada, volta a Camelot, entretanto por pouco tempo.

Não satisfeitos, DREADMOR e ANAMORG planejam incriminar GUINEVERE e LANCELOT, num caso de adultério, que seria julgado com a pena de morte, e jogar ARTHUR e o povo contra os dois adúlteros.

O plano dá certo, até certo ponto, porque os três lados do triângulo acabam se entendendo: o REI perdoa, ou melhor, LIBERTA GUINEVERE, e LANCELOT, mais uma vez, abre mão de seu amor, dizendo que não nasceu para amar, e ARTHUR e GUINEVERE continuam a viver juntos, amando-se cada vez mais, e tudo acaba num final feliz.

Tudo isso regado com a excelente música de RAUL SEIXAS.


A montagem, com uma inovação artística criativa, tem como diferencial a mistura de linguagens do teatro, cinema e “design”. Todas as excelentes aparições de VERA HOLTZ, como MERLIN, o(a) Mago, num belíssimo trabalho de interpretação, por exemplo, são virtuais, projetadas num telão transparente, na boca de cena, ou no fundo do cenário. Além de dizer suas mensagens, seu texto inclui diálogos com ARTHUR, tudo feito num tempo certo, com apuro tecnológico de Primeiro Mundo, sem qualquer falha técnica.

Partindo-se do princípio de que a história do REI ARTHUR não pode ser comprovada e que, em função disso, muitas variantes existem sobre essa figura emblemática e lendária, e suas aventuras, MARCIA ZANELATTO também teve total licença para produzir o seu texto, original, com plena liberdade de criação, e o resultado é o melhor possível, com escrita própria e o acréscimo de pequenos excertos, de Laurie Anderson e Santo Agostinho, em algumas falas de MERLIN, como, por exemplo, na afirmação filosófica deste: “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente, que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.”. Com isso, chegou-se, com muito trabalho, a um texto final, político (Em vários diálogos, há um tom político.), por excelência, instigante, muito claro, objetivo, seguindo a linha do tempo, ainda que, de forma genial, a dramaturga misture o tempo cronológico, real, objetivo, do presente, com o psicológico, imaginário, subjetivo, do passado. O ARTHUR jovem vive na memória do ARTHR maduro, em “flashbacks” e em diálogos que só a magia do TEATRO é capaz de produzir, para convencer o espectador.

Como grande ativista, atuando em diversas áreas, sociais e políticas, sem ser, abertamente, panfletária, nesta obra, MARCIA consegue dizer, nas entrelinhas e por meio do comportamento dos personagens, muitas verdades, questionando e criticando muito do que se vê de errado no mundo de hoje. O texto, ou melhor, sua mensagem, é de uma contemporaneidade incrível! Por meio de metáforas e falas, aparentemente, “ingênuas” ou, em outros momentos, de forma mais contundente, a sociedade brasileira “está em cena”, assim como são lançados dardos com um veneno bem forte a políticos e outras figuras de destaque ou a fatos do universo em que vivemos, no momento presente.  Numa fala de GUINEVERE, por exemplo, em que esta se reporta a uma visão que tivera, enxerga-se a recente tragédia de Brumadinho, por exemplo. Acabei de saber que se trata de uma “cena premonitória”, como a considera VERA HOLTZ, uma vez que foi escrita cerca de um mês antes do lamentável e devastador acontecimento.

De forma corajosa e pautada numa visão moderna de mundo, no que diz respeito aos relacionamentos afetivos e a como podem ser encarados, unicamente por conta de cada pessoa envolvida na relação, ainda que contrariando o pensamento dos mais conservadores, MARCIA ousa – e o fez muito bem, a meu juízo – admitir um fato novo, envolvendo um triângulo amoroso (A letra de “A Maçã”, utilizada na peça, diz tudo.) GUINEVERE ama, em plenitude, ARTHUR, entretanto também é capaz de ser apaixonada por LANCELOT; por cada um, seu amor se revela por um motivo diferente. Entre ARTHUR e LANCELOT, também existe uma profunda relação de amor fraternal, respeito e lealdade, mas este também não consegue negar uma ardente paixão pela rainha bretã, com origem na juventude, antes de ARTHUR ter entrado na vida dela. Diante de constrangedora situação, o que se poderia esperar, de mais previsível? Uma luta de morte, entre os dois “rivais”, pela disputa da amada, como um troféu, e a condenação da adúltera, como era costume na época? Alguém conseguiria pensar em algo diferente disso? MARCIA ZANELATTO sim. Ela concebe que tal relação poderia existir e ser aceita, por todos, admitindo que, para se atingir a felicidade, é possível viver fora do quadrado, “subverter” o “status quo”. “A liberdade não é liberdade, se não for a liberdade do outro.” (ARTHUR). ARTHUR liberta GUINEVERE, numa das cenas mais lindas e emocionantes do musical:

 

A MAÇÃ

(Raul Seixas)

Se esse amor ficar entre nós dois,
Vai ser tão pobre amor, vai se gastar.

Se eu te amo e tu me amas,
Um amor a dois profana o amor de todos os mortais,
Porque quem gosta de maçã irá gostar de todas,
Porque todas são iguais.

Se eu te amo e tu me amas,
E outro vem, quando tu chamas, como poderei te condenar?
Infinita tua beleza, como podes ficar presa
Que nem santa num altar?

Quando eu te escolhi para morar junto de mim,
Eu quis ser tua alma, ter seu corpo, tudo, enfim,
Mas compreendi que, além de dois, existem mais.

Amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade.
Sofro, mas eu vou te libertar.
O que é que eu quero, se eu te privo do que eu mais venero,
Que é a beleza de amar*?

(*Na letra original, o verbo é “deitar”.)


E, para “justificar” sua atitude, ARTHUR termina sua participação, ao final do espetáculo, cantando, acompanhado pelo coro, “Metamorfose Ambulante”.

“METAMORFOSE AMBULANTE”

(Raul Seixas)

Prefiro ser essa metamorfose ambulante.
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo,
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes.
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo,
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Sobre o que é o amor, sobre que eu nem sei quem sou.
Se, hoje, eu sou estrela, amanhã, já se apagou.
Se, hoje, eu te odeio, amanhã, lhe tenho amor,
Lhe tenho amor, lhe tenho horror,
Lhe faço amor, eu sou um ator.

É chato chegar a um objetivo num instante.
Eu quero viver nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.


Não me surpreendeu a excelente direção de GUILHERME LEME GARCIA, que também é responsável pela concepção da montagem, uma vez que já o admirava, nessa função, em trabalhos anteriores, que não eram musicais, e, neste segmento, ele já havia provado sua competência, quando dirigiu uma outra grande produção da AVENTURA ENTRETENIMENTO, no ano passado, “Romeu + Julieta – Ao Som de Marisa Monte”, ambas as montagens, “Romeu…” e “MERLIN…”, praticamente, com o mesmo formato. Nada a me opor; muito pelo contrário: não se deve mexer em time que está ganhando. E que venham outras produções na mesma forma (ou fôrma)!

O que mais me chama a atenção, no seu trabalho, são a criatividade e a facilidade como encontra soluções para simplificar o que, aparentemente, poderia ser tão complexo. Ele sugere, sem mostrar, concretamente, leva o espectador a ver o que não está explícito. Suas cenas são “limpas” e muito bem construídas. A da batalha entre os seus e o inimigo dispensa a presença física do adversário saxão. A direção de movimento e a coreografia se encarregam de mostrar tudo, sem deixar dúvidas.

É nos pequenos detalhes que se percebe a dimensão da inteligência e da criatividade de um diretor, principalmente de musicais. Felizmente, temos alguns muito bons e GUILHERME, ainda que com muito pouca produção nessa área, já merece fazer parte do time, sinal de que o que faz é bem feito. Eu poderia dar vários exemplos de sua genialidade, como encenador, nesta montagem, mas citarei apenas algumas cenas, como a do momento em que ARTHUR diz, entusiasticamente, como, mesmo em menor número de contendores, vencerá a guerra: com poesia e música (Não há uma relação com os dias de hoje?), e uma surpresa que ele nos preparou e que, obviamente, não revelarei, para não dar “spoiler”. Também destaco a belíssima cena do casamento de ARTHUR e GUINEVERE, assim como as do final dos dois atos. A propósito, no encerramento do primeiro, o texto de ARTHUR, dito num crescendo, sobre todos os direitos a que todos os homens têm (Até gostaria de reproduzi-lo, se tivesse acesso a ele.) acompanhado pela canção “Sociedade Alternativa (“Viva”! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!”), com marcações de percussão, feita por grande parte do elenco, em “cajóns”, é de arrepiar; é tudo aquilo de que um espetáculo, dividido em dois atosN, precisa: terminar “no alto”, “em cima”, despertando, no espectador, o desejo de que os quinze minutos dedicados ao intervalo “voem”. Isso, aliás, é uma máxima, para quem deseja ser elogiado numa produção teatral (autor e diretor), qualquer que seja o gênero, mas, principalmente, em se tratando de musicais.

A brilhante ideia de fazer com que MERLIN só apareça virtualmente é um grande achado. Segundo VERA HOLTZ, que o interpreta, “O MERLIN está numa outra dimensão. Realmente, por isso, a minha participação em audiovisual tem tudo a ver. Ele ajuda um pouco, orienta o ARTHUR, a entender um pouco a vida e a não desistir nunca.”. MERLIN é etéreo, paira no ar, é um espírito superior, ungido pelas forças do bem. Aproveito o momento para enaltecer o fantástico trabalho de VERA, uma das nossa grandes atrizes, que ratifica seu talento nesta participação.

E já que entramos no assunto, falemos das atuações, analisando o elenco, com destaque para os que interpretam os principais personagens da trama.

Para mim, especialmente, PAULINHO MOSKA, na pele de um dos protagonistas, foi uma das melhores revelações dos últimos tempos. Admirava-o, como músico, compositor e cantor, porém não tinha conhecimento de que estudara TEATRO, na CAL, menos ainda, de que é um bom ator. Nunca o vira atuando, antes, e este é seu primeiro protagonista, e logo num musical, gênero no qual o que interessa, para quem atua, é interpretar bem e cantar no mesmo nível. Isso PAULINHO faz com muita correção e dedicação. Apoiado pelos elementos técnicos da peça, assume um gigantismo em cena, uma postura real, bastante convincente, quando exibe sua força e poder, e quando, temporariamente, definha, diante das pedras que encontra pelo caminho.

LARISSA BRACHER, debutando, e muito bem, como cantora compõe uma bela GUINEVERE, sabendo explorar as fraquezas da personagem, diante das dúvidas que a acometem. Para um leigo, seu papel pode parecer de fácil interpretação, porém tal impressão não condiz com a verdade. A atriz precisa se policiar, para não acabar “fazendo a vítima”, a “coitadinha”. “Vítimas” são os três, ela e seus dois amores, por terem sido escolhidos por Cupido, na mitologia romana, ou Eros, na grega (Aqui, fica melhor Cupido.), o qual, com suas artimanhas, cria uma situação de difícil resolução, a qual só pode interessar aos envolvidos e só a eles cabe resolvê-la. LARISSA é ótima atriz, canta bem e tem uma iluminada presença de palco, o necessário para se destacar nesta produção.

GUSTAVO MACHADO defende, com bastante galhardia e muita verdade, o seu personagem, LANCELOT, muito correto na sua interpretação, sempre chamando a atenção do público, quando convocado a atuar na linha de frente.

RODRIGO SALVADORETTI e SAULO SEGRETO, que representam, respectivamente, ARTHUR e LANCELOT, na juventude, são a sombra de seus personagens adultos. O que isso significa? Que seguem a mesma boa linha de interpretação de seus dois colegas de cena, na versão madura, e apresentam um ótimo rendimento em suas interpretações, quer atuando, quer cantando, o mesmo podendo ser dito sobre a participação de NATÁLIA GLANZ, quando dá vida a GUINEVERERE jovem.

O toque de humor, na medida certa, fica por conta do trabalho de um excelente casal de atores, acostumados a musicais: PATRICK AMSTALDEN (DREADMOR) e KACAU GOMES (ANAMORG), esta uma veterana como cantriz, das melhores do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO. Os dois se completam, na pele dos vilões, que, no máximo, conseguem a antipatia dos espectadores (os personagens), mas nunca raiva ou ódio, já que, fazendo contraponto às suas maldades, intrigas, cinismo e traições, há o toque do humor, às vezes, propositalmente, chegado ao “non sense”. Os dois brilham, a cada aparição, e, se não estão sozinhos, no palco, por vezes, roubam a cena. Uma grande cumplicidade entre os personagens e uma química perfeita entre os atores.

Completando o ótimo elenco, há mais quatorze atores e atrizes / cantores / dançarinos, do elenco de apoio e “ensembles”, alguns dos quais atuando como “cover” dos principais personagens, numa eventualidade, quando isso se faz necessário. São eles, por ordem alfabética: CAROL PITA, DANIEL HAIDAR, DENNIS PINHEIRO, FERNANDA GABRIELA, FÉLIX BOISSON, GABI PORTO, LAÍZE CÂMARA, LEONAM MOARES, OSCAR FABIÃO, PAOLA POLINY, RENATO CAETANO, SANTIAGO VILLALBA, THAINÁ GALLO e UBIRACY BRASIL. Além de se saírem muito bem, como atores, cantam harmoniosamente, em solos ou em coros, além de serem exímios dançarinos, quando cumprem as magníficas coreografias, desenhadas por TONI RODRIGUES, que também é o responsável pela direção de movimento, e sobre cujo trabalho passo a dissertar.

TONI é um dos melhores profissionais do ramo e tem uma enorme parcela de participação no sucesso deste musical, por ter preparado números coreográficos de irrefutável beleza plástica e com detalhes que os valorizam. Não sou técnico no assunto, porém, modéstia à parte, nasci com um bom gosto superlativo e um olhar crítico afiado, com relação a tudo o está ligado às artes, o que me credencia (Com licença!) a dizer que é muito bom o trabalho do coreógrafo, posto em prática, obviamente, por bons profissionais. As cenas de batalhas, com bastões de madeira substituindo as espadas de aço, são um primor, bem como outros momentos. Chamo a atenção para uma mudança na coreografia, quando de um embate entre bretões e romanos; antes de intervenção de ARTHUR, são dois lados, fazendo movimentos diferentes; depois disso, todos executam os mesmos passos, uniformemente. ARTHUR conseguiu reunir dois lados num só, por uma mesma causa. É um detalhe que poucos observam, entretanto faz-se necessário dizer que, num musical, os atores não entram, em determinados momentos, dançando “do nada”, assim como as canções não surgem, também, “por acaso”. Tudo faz parte do texto, estão ligados e só existem, canções e coreografias, por um motivo especial, em momentos especiais, por exigência do texto e das cenas. Resumindo: nada é gratuito, fortuito.

A cenografia, ou arquitetura cênica, criada por CAMILA SCHIMIDT, procura deixar o palco bem vazio, ocupando, apenas, o fundo, com longas rampas, em cinza, e um fundo azul, que serve para muitas projeções, também feitas sobre uma tela, diáfana, na boca de cena, a qual também serve para equilibrar a luz. Poucos adereços são utilizados.

A iluminação, belíssima, diga-se de passagem, dialoga com o cenário, e o resultado é muito satisfatório. Quem assina o “design” de luz é ANNA TURRA, que optou, muito acertadamente, por uma iluminação comedida, criando muitas sombras e liberando uma visibilidade meio limitada, para os espectadores, tudo muito bem planejado e de acordo com o clima da peça. Afinal de contas, mistérios, intrigas, traições e segredos não podem mesmo estar sob fortes holofotes.

Não há quem não se encante com os fascinantes figurinos, assinados pelo premiadíssimo figurinista JOÃO PIMENTA, concentrados nas cores cinza e prata, com pouquíssimas variações; na cena do casamento, por exemplo. São muito bonitos, elegantes, criativos e de excelente acabamento, bem ao estilo da época, porém com justos toques de modernidade. Os trajes vestem muito bem todos os personagens, os quais têm suas identidades reforçadas pelo perfeito trabalho de visagismo, a cargo de FERNANDO TORQUATTO, o que significa um “luxo”, para qualquer encenador.

Nesta montagem, um dos elementos técnicos da maior relevância são as projeções, indispensáveis, num trabalho impecável, de ROGÉRIO VELLOSO, como “videodesigner”. É justo dizer que todos esses profissionais, ligados à parte técnica, contam com muitos auxiliares, sem os quais nada aconteceria em cena. Por falar nisso, quem lê, com atenção, o belo programa da peça, se tiver tempo e curiosidade, poderá contar todos os envolvidos, direta ou indiretamente, neste arrojado projeto; o número supera a casa de uma centena de profissionais.

Por oportuno, é bom dizer que, nesta montagem, houve algo de, a bem dizer, inédito, uma vez que ROGÉRIO (diretor de filmes e de projetos multimídias imersivos e videoartista), ANNA (“designer” multimídia, que costuma atuar, cruzando iluminação, cenografia e vídeo, no palco) e CAMILA (arquiteta, artista plástica e cenógrafa) fazem parte de um coletivo de arte e fizeram a concepção de três áreas juntos e, depois, cada um executou, sozinho, a sua especialização: ROGÉRIO, no tocante às imagens; CAMILA, cenário; e ANNA, iluminação.

Se, num musical, falha, exatamente, a parte musical, o paciente sucumbe, por falta de oxigênio. Neste, ora analisado, oxigênio é o que não falta, uma vez que a presença de FÁBIO CARDIA e JULES VANDYSTADT, na direção musical e nos arranjos, garante muita saúde e vida longa a qualquer musical. Sobre isso, há muito que ser dito, a começar pela brilhante ideia de serem utilizadas 25 canções de RAUL SEIXAS, falecido há 30 anos, selecionadas por GUILHERME LEME GARCIA e MARCIA ZANELATTO, para costurar e enfatizar as cenas. No espetáculo “Romeu + Julieta…”, as letras de Marisa Monte se encaixavam, como uma luva, na montagem, porém, neste “…MERLIN E ARTHUR…”, a impressão que fica é a de que as canções teriam sido compostas, especialmente, de encomenda, para a peça, tal é o ajuste entre elas, o texto e as cenas. Podem ser citadas, por exemplo, “Prelúdio” (“Sonho que se sonha só / É só um sonho que se sonha só, / mas sonho que se sonha junto é realidade.”), num belíssimo dueto entre ARTHUR e LANCELOT, que também se destacam num outro, com a canção “Segredo da Luz” (“As estrelas brilham como eu.”). Mais uma vez, os dois personagens dão o tom, de forma emocionante, num dueto em “Tente Outra Vez”, canção em parceria com vários compositores, com um arranjo fantástico, num momento em que LANCELOT encoraja o amigo a não desistir da luta. (“Veja! Não diga que a canção está perdida! / Tenha fé em Deus, Tenha fé na vida! / Tente outra vez! / Beba! Pois a água viva ainda tá na fonte. / Você tem dois pés, para cruzar a ponte. / Nada acabou! / Tente! Levante sua mão sedenta e recomece a andar! / Não pense que a cabeça aguenta, se você parar! / Não! Não! Não! Não! Não! Não! / Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira, / Bailando no ar. / Queira! Basta ser sincero e desejar profundo. / Você será capaz de sacudir o mundo. / Vai! Tente outra vez! Tente! E não diga que a vitória está perdida, / Se é de batalhas que se vive a vida! Tente outra vez!”).

Ainda nessa linha, temos “Eu sou Egoísta”, dueto entre ANAMORG e DREADMOR, “Sopa na Mosca” (ANAMORG) e tantas outras canções.

Um dos fatores que mais se destacam, para mim, na parte musical, são os arranjos, musicais e vocais, modernos e arrojados, que deram nova roupagem a grandes “hits” de RAUL, sem lhe tirar a essência. Canções conhecidíssimas tiveram seus andamentos e / ou ritmos modificados, como é o caso, por exemplo, de “Maluco Beleza”, na bela interpretação de SAULO SEGRETTO, e “Rockxixe”, que virou um “tango árabe”, nas vozes de KACAU GOMES e PATRICK AMSTALDEN.

Num determinado momento, surpreendi-me com uma belíssima cena, em que GUINEVERE e mais quatro atrizes cantam uma versão, em português, para “Lucy in the Sky with Diamonds”, sucesso dos Beatles. Fiquei intrigado, até que JULES VANDYSTADT, em consulta que lhe fiz, posteriormente, me infirmou que se tratava de uma versão de RAUL (“Você Ainda pode Sonhar”), gravada no álbum “Rauzito e os Panteras”, em 1968, antes da carreira solo de RAUL.

Ainda mais dois detalhes / comentários sobre a parte musical. O primeiro é que as canções de RAUL, grande parte delas, têm letras que se bastam e parecem apenas poemas, que, se não fossem musicadas, conservariam a mesma beleza e conseguiriam passar as mensagens que trazem em si, como é o caso, para exemplo, de “Gita”, declamada por MERLIN, logo numa das suas primeiras aparições, se não for a primeira, salvo engano. O segundo é uma marca registrada de JULES, nos seus trabalhos de direção musical, que é a presença de “mush-ups”, aqui representados, uma vez, pela junção de “Lua Bonita”, cantada por LANCELOT, e “Água Viva”, na voz de GUINEVERE.

Num musical, outro elemento que, evidentemente, não pode falhar é o som. É preciso que a plateia, de qualquer parte em que alguém esteja sentado, até na última fileira do último balcão, ouça, com nitidez, tudo o que se fala e o que se canta, tudo muito bem equalizado. Para que isso aconteça, entra em serviço CARLOS ESTEVES, responsável pelo correto desenho de som.

Merece um louvor o trabalho de VICTOR HUGO CECATTO, que editou um lindo programa da peça, num belo trabalho de “design” gráfico.

Um trabalho que precisa de muito acerto é o de produção de elenco, no caso, feito por uma pessoa muito respeitada nessa atividade, por seu “faro” e experiência profissional, MARCELA ALTBERG, a qual, mais uma vez, atirou bem no centro do alvo.

Creio que tudo o que escrevi sobre a peça basta para classificá-la como OBRA-PRIMA e recomendá-la com o maior empenho, na certeza de que os que aceitarem a minha recomendação terão vontade de rever o musical, que traça um paralelo bem profundo entre a história da fundação da Távola Redonda e os tempos que vivemos hoje, no Brasil e no mundo. É, portanto, como já disse, uma peça muito atual. “Fala muito, política e socialmente, do momento em que estamos vivendo”, afirma GUILHERME LEME GARCIA. “A nossa maior riqueza é a nossa diversidade”, afirma o REI ARTHUR, em determinado trecho do espetáculo. Em outro momento, diz: “Você pode descobrir, tarde demais, que não há limites para a barbárie”.

GUILHERME ainda observa que “É incrível como o pensamento do RAUL é tão próximo ao do pensamento do REI ARTHUR”, e MARCIA complementa: “ARTHUR é tão REI quanto o RAUL e o RAUL é tão MAGO quanto o MERLIN”.

No final, ARTHUR prega que “amem o amor” e a peça deixa uma mensagem de decisões para cada pessoa. “All we Need is Love”!!!

E alguém ainda pensa em não assistir a este musical?

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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