Antes de reestrear peça no Dulcina, ator da Cia de Teatro Manual lembra experiência na China: ‘Mais fácil que no Rio’

Luiz Maurício Monteiro

Com movimento de corpo e sonoplastia vocal, a peça conta a história do Terra Foto: Jaqueline Sapim/Divulgação

Responda rápido: é mais fácil para um artista brasileiro fazer teatro no Brasil ou na China? Para Matheus Lima, as condições estão melhores lá do outro lado do mundo. A opinião do ator, claro, é em tom de protesto, mas tem conhecimento de causa. Afinal, tanto aqui como lá, ele já se apresentou, junto com os companheiros da Cia de Teatro Manual, com o espetáculo “Hominus Brasilis”, que reestreia nessa quarta-feira (06), às 19h, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, dando início a mais uma temporada de resistência à crise e ao descaso público com a cena teatral carioca.

— Está mais fácil se apresentar na China que no Rio. As políticas públicas não são cumpridas, e falo do fomento (a prefeitura não pagou os projetos contemplados na última edição do programa). Sofremos com esse calote. São coisas que já tínhamos conquistado e agora estamos perdendo. É um trabalho de resistência fazer teatro aqui — reclama Matheus, em entrevista ao RIO ENCENA.

Ainda sobre a passagem de oito dias pelo maior país da Ásia Oriental, no último mês de setembro, a Cia de Teatro Manual recebeu o convite para três sessões no festival Beijin Comedy Week durante outra incursão internacional, em Chicago, nos Estados Unidos, em 2016 (pouco antes de uma outra viagem, esta para a Argentina). Feita a convocação, a coisa se deu de forma natural, até mesmo pela proposta da própria peça, que no Brasil já fez cerca de 200 sessões desde que estreou em 2014.

Matheus (E) com os companheiros Helena Marques, Dio Cavalcanti e Patrícia Ubeda na China Foto: Divulgação

Com quatro atores – Matheus, Dio Cavalcanti, Helena Marques e Camila Nhary em substituição à titular Patrícia Ubeda – sobre uma pequena plataforma, a comédia física, criação coletiva da própria cia. supervisionada por Julio Adrião, usa uma linguagem universal, a dos movimentos corporais e da sonoplastia vocal, para falar sobre um assunto comum a qualquer povo: a história do mundo, desde o Big Bang até os dias atuais, com um ligeiro foco no Brasil a partir da colonização.

— Depois do convite, tivemos dúvidas se haveria um entendimento da peça por parte dos chineses. Na Argentina e nos Estados Unidos, foi tranquilo porque são povos do ocidente também. Mas acabou que eles entenderam super bem. Nem precisamos mudar nada no espetáculo — recorda Matheus, analisando o perfil do espectador chinês: — O humor chinês me pareceu inocente. Eles riam muito das gagues. Já o humor mais ácido, mais crítico, não provocava tanto riso.

Se no palco, tudo fluiu bem, fora dele, a experiência em solo chinês teve seus percalços, a começar pela comunicação. Como não falavam o mandarim, idioma oficial da maior população do mundo (1,36 bilhão de habitantes), os atores tentaram o inglês, o que não deu tão certo pelo fato de muita gente da organização do festival não entender tal língua. Outra preocupação dos brasileiros foi a exótica culinária chinesa, conhecida por levar à mesa iguarias como cobra, gafanhoto e até cachorro.

— Tivemos muita dificuldade com a comida. Foram oito dias, não digo de sofrimento, mas com medo de comer alguma coisa, passar mal e não conseguir se apresentar — encerra.