‘Alair’ – Um lindo poema homoerótico ou de como homoerotismo e vulgaridade não se misturam

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Considerando a atual situação econômica por que passa o país, especialmente o estado do Rio de Janeiro, praticamente à falência, por conta da ação de uma quadrilha, é óbvio que o prejuízo sofrido pelas artes, de uma maneira geral, já era de se esperar. O TEATRO não foi poupado, o que justifica o fato de, no início do ano, termos visto somente reestreias; ninguém conseguia pôr de pé um espetáculo novo. Aos poucos, sem patrocínios, somente com recursos próprios e ajuda de amigos, umas boas produções começaram a estrear nesta cidade, além de algumas que vieram de outros estados. Quantitativamente, foram poucas as estreias deste primeiro semestre de 2017, quase a se extinguir, porém a maioria, para a nossa alegria, foi de boa a excelente qualidade.

No momento, um espetáculo ganha destaque, dentre os bons, que é “ALAIR”, em cartaz no Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim (VER SERVIÇO.), graças, paradoxalmente, ao próprio Governo do Rio de Janeiro, à Secretaria de Estado de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, à Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro, à Casa de Cultura Laura Alvim e à Me Gusta Produções.

Comemorando 45 anos de carreiraEDWIN LUISI, em brilhante atuação, vive o personagem-título, ao lado de ANDRÉ ROSA e RAPHAEL SANDER, sob a direção de CÉSAR AUGUSTO.

O espetáculo é uma bela homenagem ao grande fotógrafo ALAIR GOMES (1921-1992), no ano em que se completam 25 anos de sua morte. Nascido em Valença, RJ, em 1921ALAIR, além de engenheiro, por formação, era filósofo, escritor, estudioso e crítico de arte, tendo sido reconhecido como precursor da fotografia homoerótica no Brasil, conquistando a consagração internacional, muito mais que em seu país, com seu trabalho, que reuniu mais de 170.000 negativos, cujo tema central era a beleza do corpo masculinonão apenas os nus masculinos.

No apagar dos anos 60, passou a dedicar-se, quase que exclusivamente, à fotografia e à crítica de arte, com fixação nos nus masculinos e fotos de rapazes, feitas da janela de seu apartamento, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. A isso ele dedicou os últimos 26 anos de sua vida.

ALAIR não fotografava apenas por fotografar. Havia, em sua obra, um sentido poético, construído, sobretudo, no processo de edição e de organização do material fotografado. As imagens não são composições autônomas; elas integram sequências montadas, com base em noções de ritmo e relações formais estabelecidas entre as fotos.

Antes de fotografar, trabalhou, durante dez anos, em textos que descrevem, minuciosamente, o corpo de seus amantes e relatam seus encontros com eles, os Diários Eróticos”. Isso está presente, traduzido no maior erotismo, no texto da peça. Para ele, a obra, os “Diários Eróticos”, deveria ser como uma “viagem sobre o corpo masculino jovem”. Tudo gira em torno de um jogo de sedução e de entrega entre fotógrafo e modelo. Não há concessões, tampouco inibições.

ALAIR pode ser considerado o protótipo do “voyeur”, pois dedicava horas de seu dia a observar rapazes, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, como já foi dito, e a fotografá-los, a distância, com uma teleobjetiva, da janela de seu apartamento. Na praia lotada, o artista enfoca os garotos, em momentos de lazer, fazendo ginástica ou conversando. A câmera está parada, provavelmente num tripé. O enquadramento estático e a regularidade conferem ritmo ao conjunto e enfatizam o movimento dos corpos, que, por vezes, parecem dançar. Nessas sequências, o fotógrafo não age diretamente sobre o acontecimento; apenas observa e registra. Sua intervenção se dá posteriormente, na montagem, quando cria narrativas enigmáticas, sugerindo jogos eróticos. Além disso, a cadência das imagens proporciona prazer visual ao observador. Vez por outro, quando o seu interesse por algum dos rapazes aflorava, ele descia à areia e convidava a “presa” a ir a seu apartamento, onde lhes fazia propostas de nus artísticos.

Segundo o crítico Christian Caujolle“Para ALAIR, a sexualidade e a beleza representam a essência do ser humano e sua melhor possibilidade de contato com o divino”.

As formas sequenciadas e ritmadas aproximam sua obra da música e do cinema. Embora o cunho homoerótico seja evidente, os conjuntos não se configuram como um discurso em defesa da homossexualidade. Antes disso, testemunham um desejo compulsivo, e espelham o mundo ideal imaginado pelo artista.

Sobre isso, vale a pena conferir um trecho da fala inicial do personagem: “(…) O TOM DO MEU TRABALHO É, ESCANCARADAMENTE, HOMOERÓTICO. ISSO SIGNIFICA QUE OS HOMOSSEXUAIS CULTOS, (levemente irônico) CUJO NÚMERO É IMENSO, PODEM SE INTERESSAR POR ELE, NO ENTANTO, DE JEITO NENHUM, MEU TRABALHO É VOLTADO APENAS AOS HOMOSSEXUAIS. ELE É, REALMENTE, O MAIS HOMOSSEXUAL POSSÍVEL, PORQUE, APENAS SENDO FIEL À MINHA PRÓPRIA SENSIBILIDADE ERÓTICA, EU PODERIA ENXERGAR O QUE, DE FATO, PERTENCE A EROS. (firme e sério) DA MESMA FORMA QUE, HÁ MUITOS SÉCULOS, OS HOMOSSEXUAIS DESFRUTAM DE LIVROS E FILMES DO PONTO DE VISTA HETEROSSEXUAL, OS HETEROSSEXUAIS TAMBÉM PRECISAM SER CAPAZES DE SE INTERESSAR POR TEXTOS ABERTAMENTE HOMOSSEXUAIS, COMO O MEU. 

QUALQUER UM COM UMA MENTALIDADE ABERTA E LIBERTÁRIA VAI ENTENDER QUE A MAIORIA DAS COISAS QUE EU DIGO A RESPEITO DO CORPO MASCULINO TAMBÉM PODERIA SER DITA SOBRE O CORPO FEMININO – (levemente irônico) POR ALGUÉM MELHOR PREPARADO PARA ISSO DO QUE EU. 

MINHA OBRA É UMA PROCLAMAÇÃO A HÉTEROS, BIS, HOMOS, TRANS: É HORA DE O EROTISMO AMADURECER NO MUNDO!”

“ALAIR” é o segundo trabalho para TEATRO do dramaturgo GUSTAVO PINHEIRO, autor de “A Tropa”texto vencedor do concurso “Seleção Brasil em Cena” do CCBB, como melhor texto, que fez grande sucesso, de bilheteria e de crítica, em três temporadas, no Rio de Janeiro, e, atualmente, esgota os ingressos do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

texto está longe de ser comparado ao genial de “A Tropa”, por motivos óbvios. Enquanto este é fruto de imaginação criativa do autor, em “ALAIR”, ao que parece, o trabalho foi mais de costurar textos dos diários do fotógrafo, acrescidos, é óbvio de uma parte ficcional, esta fazendo jus ao talento de GUSTAVO.

Trata-se de um texto que reúne poesia, humor e muito erotismo, passando ao longe de qualquer coisa que possa sugerir vulgaridade ou intenção de agredir ou chocar o espectador. Muito pelo contrário. Acho que GUSTAVO pode, com este texto, até, quem sabe, “abrir cabeças” e transformar empedernidos corações homofóbicos em, no mínimo, “tolerantes”, sabendo-se que tolerência não bastaTolerância é uma espécie de aceitação compulsória. O que precisa acontecer, de fato, é a aceitação e o respeito pleno pelas minorias, pelos “diferentes”É imperioso aceitar as diversidades.

É um texto picante, sem ser imoral; sensual, sem ser pornográfico; realista, sem ser agressivo; poético, sem ser meloso; erótico, sem ser vulgar…

Não tem outro interesse o texto, que não seja o de revelar, a um público que não conheceu o artista da fotografia, a sua arte, os seus métodos de trabalho e um pouco do seu pensamento acerca da beleza do corpo masculino e de suas conquistas, que, muitas vezes, ficavam apenas no plano platônico. Não há uma grande mensagem política ou social, como havia em “A Tropa”, o que, de forma alguma, diminui a qualidade do texto ora analisado, fruto de uma pesquisa profunda sobre o artista das câmeras fotográficas, facilmente identificada na obra dramatúrgica. O autor alterna cenas de ação, que mostram os encontros do fotógrafo com dois de seus modelos, em seu apartamento, com breves narrativas do diário de viagem de ALAIR GOMES. Estas são tão bem detalhadas, que, fechando os olhos, “viajamos”, com ele, por várias cidades europeias, principalmente Paris, além de outras importantes do ponto de vista das artes.

Repetindo a dobradinha de “A Tropa”CÉSAR AUGUSTO dirige o espetáculo e faz um excelente trabalho, privilegiando o belo, o plástico, o poético, afastando-se das múltiplas possibilidades que o tema poderia oferecer, para a exploração, até mesmo, do pornográfico. CÉSAR soube dosar muito bem o erotismo e a sensualidade, explorando, sem exageros, a beleza estética dos corpos dos dois personagens coadjuvantes, um surfista (ANDRÉ ROSA), extremamente desejado por ALAIR, mas que resiste a ceder aos seus desejos carnais, sempre a questionar o porquê da homossexualidade, e um jovem militar (RAPHAEL SANDER), pelo qual o fotógrafo demonstrou uma fulminante paixão (Ou seria amor?), não correspondida, de forma aberta, mas veladamente.

Na ficha técnica, merece destaque a direção de movimento, belíssimo trabalho de LUÍSA PITTA, principalmente na linda cena em que os dois rapazes fazem um admirável trabalho de expressão corporal, que reporta à cinética de um filme.

Quanto ao diretorCÉSAR AUGUSTO,  atribuo-lhe um grande mérito neste trabalho, além do que já foi citado, que é o de como ele soube explorar os incomensuráveis recursos de interpretação de EDWIN LUISI.

E já que falamos neste, não consigo me conter e vou logo dizendo que, depois de seu inesquecível Mozart, em “Amadeus”, com direção de Flávio Rangel, em 1982, pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Ator em dois dos mais importantes prêmios de TEATRO do Brasil, o Shell e o, infelizmente extinto, Molière, e que considero sua obra-prima, e da sua interpretação em “À Margem da Vida”, de Tennessee WilliamsALAIR é seu melhor trabalho.

Para mostrar bem a personalidade de ALAIREDWIN sabe explorar seu potencial de ator, com a voz e o corpo. É capaz de, como num passe de mágica, desmanchar uma máscara, em que o sarcasmo está presente, para dar lugar a outra, demonstrando amor ou desejo. Com boas pausas e entonações, deixa destilar o seu veneno e as suas críticas às posições dos outros personagens. O seu ALAIR pode não ser, exatamente, como foi o real, porém é carismático e atrai a simpatia da plateia.

Quanto aos dois jovens coadjuvantes, ambos fazem corretamente o seu trabalho, com um ligeiro destaque para ANDRÉ ROSA, o surfista, que é convencido, pelo fotógrafo, a posar para um nude, reproduzindo a pose da magnífica escultura de Davi, de Michelangelo, o que exige que o ator, sobre uma mesa, fique totalmente despido, expondo exatamente aquilo que era o objeto maior de apreciação de ALAIR: a beleza do nu masculino. Diga-se, de passagem, que se trata de uma cena belíssima, sem a menor conotação de apelação e totalmente necessária à peça.

Já RAPHAEL me passou a ideia de estar muito contido, talvez nervoso, no personagem, naquela sessão, o que não chega a comprometer o espetáculo. Creio que ele ainda pode render mais em cena, com o azeitamento da peça.

cenário, de MARIANA VILLAS BOAS, faz uso de poucos elementos cênicos. Nada além de dois painéis, brancos, à forma de uma lousa, um bem maior que o outro, que são deslocados, pelos próprios atores, várias vezes, durante o espetáculo, e que servem para muitas excelentes projeções, estáticas ou cinéticas, num belo trabalho de videografismo, da responsabilidade de RENATO KRUEGER. Além disso, apenas uma mesa, um banco e uma cadeira.

Um dos pontos fortes do espetáculo é a belíssima iluminação, do premiadíssimo, TOMÁS RIBAS, que produz belos efeitos de sombras e explora, de todos os ângulos, o espaço cênico e os elementos que devem ser iluminados, com a devida intensidade, colaborando, plasticamente, na construção de várias cenas, como duas, salvo engano, em que, com a devida aquiescência do diretor, ou, quem sabe, partindo deste a ideia, utiliza a luz de um refletor, manipulado por um dos atores coadjuvantes, sobre os outros, em cenas diferentes.

RODRIGO MARÇAL acrescenta valor ao espetáculo, com sua ótima trilha sonora original, bem inserida no contexto. Além de outras contribuições, como é bom, por exemplo ouvir Caetano Veloso, na personalíssima interpretação de “Mora na Filosofia”, de Monsueto Menezes, além de um pequeno trecho da sensualíssima “My Funny Valentine”, de Richard Rodgers e Lorentz Hart, do musical “Babes in Arms” (década de 1930), na linda versão de Chat Backer!

TICIANA PASSOS assina um figurino bem simples e totalmente de acordo com os personagens e a época em que se passa a peça.

Como sou uma pessoa de cabeça abertíssima, capaz de aceitar todos os tipos de diversidade, não tive qualquer tipo de preocupação com a temática, menos, ainda, restrições, e pude deter-me nos aspectos, digamos, “técnicos” do espetáculo, na sua estrutura como montagem teatral, que adorei.

Num país sem memória e que não dá o devido valor à arte fotográfica, e onde a homofobia ainda é responsável por um sem-número de atrocidades, cometidas, diariamente, contra seres humanos, considero muito pertinente o espetáculo, que recomendo, com bastante empenho e espero rever.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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