‘A Vida Passou por Aqui’ – Um belo tributo à amizade

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Depois de várias temporadas vitoriosas, sucesso absoluto de público e de crítica, há cerca de dois anos em cartaz, além de muitas indicações a prêmios, com alguns conquistados, voltou à cena o magnífico espetáculo “A VIDA PASSOU POR AQUI”. Trata-se de uma peça tão linda, bem produzida e excelentemente dirigida e representada…

Um ótimo espetáculo, como este, vale qualquer sacrifício para se ir ao Teatro. Compensa, da primeira cena até o fechar do pano; é, exatamente, o que ocorre com relação a esta peça. Ela ganha a simpatia do público, angaria a sua atenção a arranca efusivos aplausos, ao final, porque é muito boa, com um texto lindo, que retrata um comovente relacionamento de amizade entre pessoas tão distantes, quanto ao “status” social, e tão próximas, tão iguais, no que diz respeito às suas almas. Acrescente-se à correta estrutura textual, uma boa e criativa direção, além de duas belas atuações e um conjunto de profissionais de primeiríssima qualidade, dando suporte nos demais setores necessários a uma boa montagem teatral.

Sobre como nasceu o texto, o terceiro de CLÁUDIA MAURO, depois de ter escrito dois musicais, vale a pena transcrever o material contido no programa da peça. Diz CLÁUDIA: “Então, a vida passou por mim e disse: ‘Chegou a hora. Seus pais sairão de cena. Agora é com você, sua vez’ (Pausa). Em meio à mudança de casa da minha mãe, que havia sofrido um AVC, encontrei uma caixa, cheia de agendas, que ela escrevia como diários. Estava, ainda, fazendo o ‘luto’ daquela mãe, que corria atrás dos meus filhos, com uma energia vital incrível, e me acostumando com uma mãe numa cadeira de rodas, que, ora me olhava profundamente, ora com distância, ora muito lúcida, ora bastante esquecida. Tive uma súbita inspiração e me lembrei de uma história linda entre ela e um grande amigo. Desandei a escrever um texto sobre amizade. Liguei para o meu pai e mandei as primeiras páginas escritas. Em alguns minutos, ele me retornou e disse: ‘Filhota, você é boa de diálogos, hein? Vai em frente!’ E eu fui… Mais algumas páginas, alguns dias no computador, e veio a notícia. Dessa vez, meu pai. Partiu. Tomando vinho com os amigos, rindo e feliz, como ele queria e merecia. Então, recomecei… e a história de amizade virou uma história para contar tantas outras histórias… Histórias de amor, de dor, de perdas e alegrias, histórias de família e de tantos personagens da minha vida.”.

 

SINOPSE

 

A peça conta a história de uma profunda e sólida amizade entre uma mulher e um homem de estratos sociais diferentes – SÍLVIA (CLÁUDIA MAURO), professora e artista plástica, que viveu grande parte da vida às voltas com as crises em seu casamento e um enorme sentimento de solidão, e FLORIANO (ÉDIO NUNES), “boy” e faxineiro, de hábitos simples e inteligente, por natureza, que sempre levou sua vida com leveza e bom humor.

Depois de quase meia década de convivência, SÍLVIA é uma mulher solitária, que se recupera de um AVC, e FLORIANO, o único amigo ainda presente. Aos poucos, ele contagia SÍLVIA, com sua alegria de viver e senso de humor, que acabam devolvendo a saúde e os movimentos à amiga.

Juntos, divertem-se e rememoram os altos e baixos de quase 50 anos de uma pura e consistente amizade.

A peça celebra a alegria e a camaradagem, além da importância das relações construídas com generosidade e altruísmo, numa sociedade em que o comportamento humano se torna, a cada dia, mais autorreferente e imediatista.


Se o pai de CLAÚDIA MAURO, como incentivo, disse à filha que ela era boa em escrever diálogos, eu me atrevo, partindo de uma visão mais técnica, a trocar o adjetivo por “ótima” e acrescentar que nem só de bons diálogos se faz um ótimo texto de TEATRO. A história há de ser boa, também, e deve ser contada de forma a prender a atenção do espectador, do início ao fim da trama. E isso tudo está presente em “A VIDA PASSOU POR AQUI”, título que, aliás, diga-se de passagem, não poderia ter sido mais bem escolhido, embora, em função do comportamento dos dois personagens – mais explícito, por parte dele; menos exposto, da lado dela – a vida, no fundo, no fundo, não pareça ter passado; ali, entre os dois personagens, ainda há muita vida a passar, apesar dos pesares, sem que o fator tempo e a inevitável velhice sejam óbices, responsáveis pelo “desaparecimento da vida”.

Além dos ótimos diálogos, da excelente ideia da história a ser contada, o entremear de cenas atuais com “flashbacks” também funciona muito bem na peça, principalmente pela maneira como se portou a direção do espetáculo.

Gostei demais do trabalho de direção, de ALICE BORGES, porque muito me encantam os diretores que conseguem “tirar leite de pedra”, como fez ALICE. Não porque o texto fosse rim; muito pelo contrário. Não por não contar com bons profissionais; exatamente o oposto. A expressão se aplica ao fato de conseguir dar ao espetáculo um bom e correto sentido, sendo que, na primeira temporada, no Teatro Café Pequeno, contava com um espaço que, além de não apropriado para TEATRO, ainda por cima, oferece um “palco” de dimensões mínimas, um desafio, também, para o cenógrafo, sobre quem falarei adiante.

ALICE, habilmente, trabalhou a emoção da dupla de atores, dosando-a, mantendo um equilíbrio alternativo entre o humor e o sério, já que trata de uma comédia dramática, sem exageros e/ou estereótipos. As soluções para que passassem de uma época à outra, sem grandes recursos materiais, a não ser a postura corporal, a voz e alguns adereços incorporados aos figurinos são um grande ponto a seu favor. De forma, também, bastante interessante, ainda com relação à primeira temporada, dentro do espaço de que dispunha, não se deixou abater, no momento em que precisava de uma pista de dança de uma gafieira, e, abandonando o espaço cênico, foi obrigada a transpô-la para uma minúscula área, fora do palco, convencendo, perfeitamente, o público, com a atuação dos atores e um único foco de luz. Na atual montagem, o recurso é igualmente interessante. Soluções brilhantes por uma competente diretora.

montagem estrutura-se nas idas e vindas, entre passado e presente, um jogo com o tempo. Valendo-se, basicamente, do trabalho corporal, os atores passeiam por cinco décadas – dos anos 1970 até os dias de hoje, e por todas as mudanças em suas vidas.

CLÁUDIA e ÉDIO fazem dois lindos trabalhos de composição de personagens. Comovem por seu talento e pela forma como mergulharam neles. Segurei-me, até o final, para não chorar; afinal de contas, é TEATRO, tudo “de mentirinha”. Só que, por trás daquela “mentirinha”, há dois aspectos a realçar: primeiro, aquela ficção reproduz muitas verdades do dia a dia; segundo, a interpretação dos atores é tão natural e envolvente, que nós, a plateia, é que quebramos a quarta parede e nos transportamos, completamente, para aqueles dramas, amenizados por algumas “brincadeirinhas”, o rir da própria desgraça, tão convincente é o trabalho dos atores. A facilidade com que ambos passeiam pelas já citadas cinco décadas, entrando nos personagens e saindo deles, ora mais jovens, ora mais velhos, é de uma naturalidade espantosa, sem maiores recursos, a não ser, como já adiantei, um pouco acima, acessórios, além do próprio corpo (posturas) e das modulações de voz. É bonito ver a ternura que ambos passam, um pelo outro, o nível de respeito, consideração e reconhecimento de uma amizade recíproca, tão difícil de ser encontrada nos dias de hoje, menos, ainda, de ser conservada por cinquenta anos.

Sobre a cenografiaNELLO MARRESE operou um verdadeiro milagre profissional e de criatividade, pondo, em cena, vários espaços, como um asilo, que os “politicamente corretos”, grupo do qual me recuso a fazer parte, preferem chamar de “casa de repouso”; a casa da personagem; o local de trabalho de ambos; o sítio, onde passou o resto de sua vida FLORIANO, e, ao que tudo indica, a própria SÍLVIA… Tudo isso, utilizando o mesmo cenário, com o espaço cênico meio “fatiado” em setores, formando um todo. O mobiliário, assim como os objetos de cena, é antigo, caracterizando um conjunto de peças um determinado ambiente, e confere a este um estado de nostalgia, muito bom, para ajudar na criação da atmosfera em que se desenrola a peça.

Os figurinos, de ANA ROQUE, trazem, como diferencial, detalhes que são utilizados de formas variadas, para caracterizar os personagens em épocas diferentes. Muito interessantes os simples “truques” utilizados.

PAULO CÉSAR MEDEIROS, como não poderia deixar de ser, assim como a vida, também passou por aquele palco e deixou a marca de seu talento, criando uma iluminação bem fraca, de pouca intensidade, nas cenas em o casal aparece mais velho e iluminando, de forma mais “quente”, os momentos da juventude ou da meia idade. A iluminação vai seguindo o ocaso daquelas duas vidas.

CLÁUDIO LINS fez um excelente trabalho de pesquisa e criou uma trilha sonora eclética, que acompanha, cronologicamente, o desenvolvimento da trama. Vai de Bill Haley & His Comets (“Rock Around The Clock, dos anos 50), passando pela fase áurea da MPB, na voz de ícones, como Elis ReginaMartinho da VilaJoão BoscoMaria BethâniaIvan LinsChico Buarque, até os dias atuais.

Todos os demais profissionais que participaram do projeto colocaram seus tijolinhos, de modo a se erguer uma edificação sólida, um espetáculo que merece ser visto, e revisto, por um número bem grande de espectadores. Já assisti a ele três vezes.

Este espetáculo é mais um daqueles que surpreendem o espectador, pelo conjunto da obra, motivo suficiente para que eu o recomende e provoca, em mim, a vontade de revê-lo sempre.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

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Duvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

 

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