‘A vida não é um musical – O Musical’ é sátira de ótima qualidade!

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no SESC Copacabana, “A Vida não é um Musical – O Musical” satiriza o mundo encantado Disney, a política brasileira e o gênero musical, tudo ao mesmo tempo e com a mesma qualidade e dedicação. Mesmo com aproximadamente 90 minutos, o espetáculo não cansa e não perde o ritmo ou a graça.

O enredo narra um mundo “a lá” Disney, onde todos vivem felizes em um bosque encantado, mas este se localiza em algum lugar da cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, o bosque é maravilhoso, mas não se pode sair dele ou deixar qualquer um entrar… o que acaba acontecendo, claro. O encontro de uma mãe de família do bosque com a cidade do Rio de Janeiro não só rende inúmeros momentos hilários como nos faz atentar ainda mais sobre quão absurda é a nossa realidade (carioca e brasileira). A peça foi elaborada há dez anos atrás, isto é, tematiza a eleição de Sergio Cabral, mas a montagem foi construída de uma forma que permite inserções e, assim, diversos momentos políticos atuais entram em cena.

Cenário (de Nello Marrese) e figurinos (de Carol Lobato) trabalham com o choque de estéticas: bosque e cidade; mundo encantado / realidade da periferia urbana. Fica muito interessante e servem muito bem ao espetáculo.

As músicas originais de Fabiano Krieger e Leandro Muniz são um dos pontos altos da montagem, pois conseguem, ao mesmo tempo, criar um ambiente de grande musical e zoar este ambiente o tempo todo, com letras que não cabem nas melodias (momentos mais engraçados). Fazem atentar para como a criação musical compõe-se de diversos elementos que, se não forem elaborados em comunhão, podem prejudicar-se mutuamente e ao espetáculo. Abrigam também, por si só, conteúdos políticos, seja na sátira seja na tomada de posição (como “foi golpe”, por exemplo).

O outro ponto alto do espetáculo é a atuação de Daniela Fontan, simplesmente irrepreensível como a mulher ingênua que enxerga o mundo com os valores que aprendeu no bosque. Sua atitude contínua, ainda que sofra um amadurecimento durante a peça, é o bastião em torno do qual orbitam os outros personagens, todos a cargo de um elenco afinado e comprometido com a proposta do espetáculo. Muito bom!

Por fim, vale lembrar que a comicidade, que tem como um de seus procedimentos essenciais a ironia, a sátira, é tanto mais eficiente quanto mais bem construída for a realidade, para assim poder ser distorcida. Neste ponto, há que se tirar o chapéu para Leandro Muniz, autor e diretor, e João Fonseca, que também assina a direção e é um dos nomes mais associados ao teatro musical carioca de hoje. Não fosse a construção de um musical “de fato”, a graça elaborada em torno da linguagem simplesmente não teria efeito. Sobre nosso momento político, não há época mais propícia para tal escárnio, do qual normalmente somos nós os alvos.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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