‘A Vida ao Lado’ – Nem só com um grande orçamento se faz um bom espetáculo

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Embora na função de crítico e de jurado de um Prêmio de TEATRO, o PRÊMIO BOTEQUIM CULTURAL, quando aceito um convite para ver uma peça, faço-o, antes de mais nada, como espectador, pelo prazer de assistir a mais um espetáculo e, sempre, saio de casa, sem medir esforços ou sacrifícios, na esperança de deixar o Teatro feliz, enriquecido pelo que vi e modificado, se possível. Nem sempre isso acontece e as decepções são inevitáveis. Mas o bom é que o contrário também acontece, e isso é muito gratificante. Quando vou ao Teatro com uma expectativa, mesmo sendo boa, e ela vai além do que eu supunha encontrar no palco, a satisfação é maior. Isso ocorreu quando, atendendo ao convite de ROGÉRIO ALVES (KASSU ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO), me propus a ver “A VIDA AO LADO”, que bem poderia se chamar, também, “A Vida ao Largo” (adiante, entenderão o porquê), em cartaz no Teatro Serrador.

De acordo com o “release”A peça acompanha o dia a dia de moradores de um prédio, os quais terão que deixar seus apartamentos, para a construção de um enorme e exótico aquário”. Vou me apropriar de muito do conteúdo do referido “release”, uma vez que o considero de excelente qualidade informativa, dos melhores que já recebi até hoje.

 

SINOPSE

 

“A VIDA AO LADO” mostra o dia a dia dos moradores de um edifício que está prestes a ser desapropriado pelo governo.

Eles estão levando suas vidas normalmente, quando recebem a notícia de que terão de se mudar, pois a prefeitura vai implodir o edifício, para a construção de um enorme e exótico aquário.

Cada morador receberá uma indenização e deverá mudar-se, o quanto antes possível, para outro lugar, no prazo máximo de um mês.

A peça acompanha, justamente, o último mês desses moradores, antes da mudança – quem são, como vivem, e como reagem à notícia de que terão que sair de seus apartamentos.

A mudança serve como um pano de fundo, para mostrar como o ser humano age, quando se vê diante de um grande desafio, que poderá mudar, radicalmente, sua vida, e é obrigado a sair de sua zona de conforto.


“Um rico painel humano vai se revelando, à medida que a trama avança, e, aos poucos, o público perceberá, em cada apartamento, questões universais, como o amor, a solidão, o medo, as limitações, os sonhos e projetos de cada um.  Conforme a trama se desenrola, acompanhamos a vida de moradores de perfis bem diversos, como um casal amoral, que está por trás da desapropriação do edifício e que pretende lucrar com a construção do exótico aquário; uma idosa solitária, que vive nas redes sociais, procurando por um par; um síndico pacato e acomodado, que resolve ‘pular a cerca’ e viver uma tórrida paixão; um trio de cônjuges, composto por dois homens, que vivem uma relação homoafetiva, e uma mulher, os quais discutem, juntos, a questão de terem um filho a três; uma senhora conservadora, que acaba se consolando com o porteiro/zelador, após uma decepção com o marido; um grupo apático de moradores, que passam o dia deitados no sofá, ouvindo Bob Dylan e questionando tudo e não fazem, absolutamente, nada, para mudar a realidade, em uma inércia desconcertante, que reflete os tempos atuais; um militante ‘gay’, que tenta reagir à desapropriação, mas acaba sofrendo uma violência por parte de outro morador; uma família de refugiados, os quais vivem brigando, dentro de uma língua desconhecida; crianças, que se reúnem no ‘play’ e repetem os preconceitos dos pais, e por aí vai…

Essas histórias vão tendo seus fios puxados e se esbarrando, aqui e ali, em uma estrutura dramatúrgica de multitrama, em que todos são protagonistas e cujo tema maior é o comportamento humano e suas idiossincrasias e contradições.

Como um interessado ‘voyeur’, o público acompanha a vida dessas pessoas em público e na intimidade do lar e, até mesmo, na solidão de cada morador, e vê como cada um se comporta em diferentes situações, nas horas mais difíceis de suas vidas.”.

Creio que só pelo que transcrevi, do “release”, o meu leitor já se sentirá inclinado a assistir à peça – e espero que o faça, na certeza de que não se arrependerá. Falta, ainda, porém, eu dizer por que gostei bastante do espetáculo, a ponto de escrever sobre ele e referendá-lo, “aos amigos e inimigos”. Os amigos me agradecerão; os inimigos também.

Gostei do texto, de CRISTINA FAGUNDES, muito fiel às situações e aos perfis dos personagens, com diálogos interessantes, ricos, prendendo a atenção do espectador. A autora foi muito feliz na escolha do tema e no desenvolvimento da trama, ao estabelecer os conflitos que permeiam as vidas daquela gente. Acho que já dá para entender o que eu disse, logo no início desta análise, com relação a uma “possibilidade” de mudança no título do texto, para “A Vida ao Largo”. É que, na verdade, parece que o drama de cada um só interessa a quem está envolvido nele. A situação que atinge a todos provoca um sentimento meio egocêntrico de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, todos lutando por sua sobrevivência. Não há uma empatia, por parte de nenhum deles. É como se, para um, a vida do outro pouco interessasse, passando “ao largo”. É cada um por si, à procura de uma acomodação confortável, diante de um futuro incerto. O mesmo também poderia ser aplicado à posição da prefeitura, que pouco se importa com vidas humanas; a construção, creio que, totalmente, desnecessária, de um aquário, “exótico”, ainda por cima, rende votos.

Da mesma forma, agradou-me a direção, bastante criativa, da dramaturga, acumulando três funções, uma vez que também faz parte do ótimo elenco, que se comporta com um equilíbrio nas atuações, completado por ALEXANDRE BARROSALEXANDRE VARELLAANA PAULA NOVELLINOBIA GUEDESFLAVIA ESPIRITO SANTO e MARCELLO GONÇALVES, todos com ótimas atuações, com um ligeiro destaque, a meu juízo, para ALEXANDRE BARROS, embora todos sejam protagonisdtas. Os atores assumem mais de um personagem, o que força o espectador a ficar atento à boa arquitetura do texto, formado por cenas curtas e situações que se entrecruzam.

ALEXANDRE BARROS vive o papel de ANTENOR, o síndico, que vai ter de resolver todo tipo de problema, mas ele não contava com o fato de que sua vida pessoal também iria virar de cabeça para baixo. Além deste, ele é JÚNIOR, um filho que só deseja “boa noite” ao pai, se for pago pra isso; TITO, o militante “gay”, que, talvez fosse capaz de “chutar o pau da barraca”, se não fosse pego de surpresa; e DOIDÃO (1), um ser que só filosofa, mas é incapaz de tomar alguma atitude.

Já ALEXANDRE VARELLA é FELIPE, que quer ter um filho, mas também quer ser artista e acha as duas coisas incompatíveis, sem saber que caminho tomar. Também é LUÍS CLÁUDIO, capaz de qualquer coisa, para conseguir o que deseja, achando que o dinheiro compra tudo. Seu terceiro personagem é VINÍCIUS, uma criança, espiritualmente, desenvolvida. Ele é o que se pode chamar de “um garoto índigo”, termo utilizado para descrever crianças que a parapsicologia acredita serem “especiais”, isto é, com “habilidades sociais mais refinadas, maior sensibilidade e desenvolvimento profundo de questões ético-morais”.

ANA PAULA NOVELLINO é DONA IOLANDA, a que está se sentindo sozinha, com a mudança, em breve, de sua filha, com seus dois maridos, para outra casa, chegando a hora de ela, por si só, viver a própria vida. Também é TETÊ, a filha da empregada, ainda nova no prédio, mas já enturmada com os outros moradores.

BIA GUEDES assume a personalidade de FERNANDA, uma “predadora”, que também tem seu ponto fraco. MARIA, a nova empregada de DONA IOLANDA, também é vivida pela atriz, e a personagem vai levantar muita poeira nesse prédio.

CRISTINA FAGUNDES encarna a mulher do síndico, CÉLIA, cuja vida se tornou um inferno, com a notícia da desapropriação do prédio, o que acaba sendo a menor das surpresas, uma vez que a CÉLIA surpreende, ao quebrar seus preconceitos.

FLAVIA ESPIRITO SANTO representa ANA, casada com dois homens, PEDRO e FELIPE, um triângulo amoroso, vivendo sob o mesmo teto, e que ainda está em dúvida sobre ser mãe, embora os dois com ela casados estejam firmes na decisão de assumir uma paternidade.

Por último, MARCELLO GONÇALVES dá vida a JURACI, o porteiro/zelador do prédio.  Com a notícia da desapropriação do imóvel, os moradores entram em polvorosa e ele vai “deitar e rolar” em cima disso e de uma certa moradora, cuja identidade não revelo, para evitar “spoiler”. Também é DOIDÃO (2), em algumas cenas. Restam-lhe, ainda, dois personagens: PEDRO, que quer ter um filho a três, sendo que seu marido já topara, faltando, apenas, sua esposa se decidir; e TSVAI, um garoto estrangeiro, um refugiado, que vive aos gritos, com sua família, numa língua bárbara, que ninguém entende.

Quando se ama o TEATRO, quando se escolheu viver dele e se tem o desejo de pôr em prática um bom projeto, mas faltam recursos financeiros, a moeda de maior valor se chama “criatividade”. Foi assim que trabalharam ALICE CRUZ e TUCA BENVENUTTI, dois “braços direitos” da premiadíssima cenógrafa Aurora dos Campos, ora morando no exterior. A dupla concebeu um cenário pobre de recursos materiais, entretanto riquíssimo de inventividade. No palco nu, ao fundo, apenas uma grande rede de conduítes plásticos, ligados, formando desenhos, como se fosse a fachada do prédio ou sugerindo a divisão do imóvel em apartamentos. Uma outra pequena construção, do mesmo material, mais próxima ao proscênio, serve de entrada para o prédio. Os diversos ambientes são sugeridos apenas com a utilização de algumas cadeiras pintadas de vermelho.

Bastante interessante é o figurino, de SOL AZULAY, sendo todas as peças confeccionadas na cor cinza, não por acaso, é claro. Refletem um momento na vida de todos os personagens. Na simbologia das cores, o cinza está ligado à ideia de maturidade e estabilidade, mas também sugere tristeza, incerteza ou, até mesmo, neutralidade. Parece-me ter sido a cor escolhida mais por afinidade com a tristeza e a incerteza, já mencionadas, e com a monotonia. É a cor do nevoeiro e do triste tempo cinzento. É o tom intermediário entre o preto e o branco.

O mestre AURÉLIO DE SIMONI, mais uma vez, se destaca na iluminação, criando uma luz simples, como é o espetáculo, porém prestando um grande serviço às cenas.

Em comunhão com tudo, contribuindo para a boa montagem, merecem ser mencionados o visagismo, de VINI KILESSE, a direção de movimento, assinada por DANIEL LEUBACK, e a instigante trilha sonora, a cargo de ISADORA MEDELLA.

Recomendo o espetáculo e espero que minha recomendação seja multiplicada por todos que a ela atenderem.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A DIVULGAÇÃO DO BOM TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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