‘A Verdade’ é excelente espetáculo que, ainda por cima, lembra as origens do teatro brasileiro

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“A Verdade”, em cartaz no Teatro Maison de France, traz Diogo Vilela, Carolina Gonzalez, Claudia Ventura e Paulo Trajano em um quadrado amoroso extremamente divertido. Com texto premiado (2017) do francês Florian Zeller, e inédito no Brasil, e direção de Marcus Alvisi, a peça é comédia de costumes de primeira linha.

A cenografia e os figurinos de Ronald Teixeira compõem um ambiente formal, com cores escuras e uma atmosfera de conforto financeiro. Dentro desta estética, a elaborada trama de Florian Zeller ganha contorno especial, pois ela opera justamente na desconstrução desta realidade dada como estável, segura. Há ainda uma separação em quatro ambientes – da direita para a esquerda: cozinha, quarto, vestiário (à frente) e escritório (ao fundo) – que deixa tudo ainda mais claustrofóbico, traduzindo visualmente as “saias justas” hilárias do enredo. Muito interessante!

A iluminação de Maneco Quinderé vai nesta mesma linha solene, com tons escuros e sem variações bruscas. Felizmente, não há prejuízo para o rosto dos atores, fundamentais para a qualidade das atuações (e, em uma peça deste gênero, do espetáculo como um todo).

Os atores apropriam-se do texto com maestria. Cada palavra é valorizada ou desvalorizada conforme o aporte cômico que sugerem. O espetáculo é fluido do início ao fim, sem quebras de ritmo ou qualquer problema de dinâmica, pelo contrário: sua cadência suave é parte integrante de sua comicidade leve. Destaque merece ser dado à tradução de Silvio Albuquerque, que conseguiu imprimir uma linguagem teatral, algo entre o coloquial e o dramático.

“A Verdade” é peça obrigatória para todos os públicos, mas será recebida com ainda mais admiração pelos apreciadores da comédia de costumes, este gênero que funda o teatro brasileiro, com Martins Pena, e produz tantos outros dramaturgos nacionais de inquestionável qualidade, sobretudo ao longo do século XIX.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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