‘A Última Aventura é a Morte’ celebra a capacidade da companhia PeQuod de trabalhar com um sem número de referências

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“A Última Aventura é a Morte” é muitas coisas. Para começar, é mais um espetáculo com bonecos a cargo da companhia PeQuod, referência no campo há 20 anos (que serão completados em 2019). Em seguida, é um lamento social que, mesmo claro, não é panfletário, característica que tem me incomodado bastante no circuito carioca e sobre a qual já escrevi em inúmeras críticas. Para além desta qualidade, a peça acumula linguagens e propostas originais.

Quando entramos no teatro, temos a primeira surpresa: a relação palco-plateia está invertida. A plateia ocupa o centro da sala, sem cadeiras; duas laterais abrigam projeções, enquanto as outras duas acomodam palcos, escondidos por portas de correr que eventualmente revelam parcelas do tablado. As cenas têm, portanto, lugares bem determinados, enquanto o público tem liberdade de movimentação.

O tema da encenação é o poema “Nota 409”, de Heiner Müller, recitado pela voz do ator Osmar Prado. Enquanto o poema ecoa em off, cenas com atores e bonecos acontecem nos palcos, e imagens e frases são projetadas nas outras laterais, de modo que o espectador está sempre cercado de conteúdo.

Se a companhia PeQuod tem sua trajetória marcada pela investigação e exploração de variadas linguagens aplicadas ao teatro, “A Última Aventura é a Morte” surge como um exemplar que tem no acúmulo de referências sua digital mais forte, não só do ponto de vista da cena, mas da experiência teatral como um todo: tira o público da posição passiva, a partir do momento em que sua escolha, do que vê e de onde vê, altera a experiência que terá. A própria companhia define a encenação como uma “Instalação”. Além disso, inclui o programa do espetáculo como mais um elemento de reflexão: distribuído na entrada do teatro, o programa contém o poema de Heiner Müller com anotações (semelhantes a quando estudamos um livro) que ajudam a entender as informações ali contidas.

Como elemento que dá liga às diversas linguagens, o objeto do poema: uma crueldade inerente ao homem, que atravessa épocas e sociedades. Diante dela, nossa impotência. Nada mais adequado do que presenciar bonecos espelhando a objetivação da vida humana. Com eles, atores.

Ainda que “acúmulo” pareça ser a palavra que melhor descreve “A Última Aventura é a Morte”, não se pode ignorar a consistência e precisão de seu fio condutor. Ao final, ambas as imagens ficam marcadas na memória.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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