A três meses das eleições, autor Diogo Liberano analisa espetáculo sobre ‘fake news’: ‘Prestação de serviço’

Luiz Maurício Monteiro

Orlando Caldeira (E), Monica Bittencourt, Lucas Lacerda, Brisa Rodrigues e Leandro Soares formam o elenco

O bom senso e a responsabilidade alertam: a tentação de compartilhar e passar à frente uma informação que você apoia e/ou se identifica deve ser proporcional ao cuidado de antes checar se trata-se de uma “verdade inventada”. Existentes, segundo estudos, desde o fim do século XIX – portanto, bem antes do advento da Internet – as fake news (ou notícias falsas) precisaram esperar o surgimento das redes socais para virarem uma arma perigosa nas mãos de quem pretende levar vantagem financeira ou política através de manchetes tendenciosas e sensacionalista – o que, aliás, contraria o bom jornalismo. E a menos de três meses das eleições no Brasil, uma peça volta a cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, em forma de prestação de serviço: “Ltda.”, de Diogo Liberano.

Segundo pesquisa da agência norte-americana We Are Social, 87,7% dos brasileiros são usuários ativos de redes sociais no Brasil e, portanto, estão expostos à convivência virtual com bots. Estes são robôs capazes de realizar tarefas autônomas de forma repetida para espalhar notícias carregadas de segundas intenções – destruir a reputação do candidato rival, por exemplo – que podem ser compartilhadas impulsivamente por milhões de pessoas na rede. Às vésperas do pleito para presidente, governadores, deputados estaduais e federais e senadores, então, esse processo de propagação pode se tornar ainda mais desastroso. Daí a papel colaborativo de “Ltda.”.

Diogo já fez cerca de 30 textos teatrais Foto: André Gomes de Melo/Divulgação

— É importante ter uma peça que fale sobre essa questão no momento atual do país. Fake news não é uma coisa atual e não vai acabar, então a pertinência de “Ltda.” é grande. Falamos sobre o mecanismo, a quem isso interessa, sobre quem age… Perceber isso é muito bem-vindo, e conseguindo essa percepção por parte do público, acho que o espetáculo presta um bom serviço, já que nos coloca numa posição de desconfiança. Principalmente nessa época de eleição — explica Diogo, em entrevista ao RIO ENCENA, relembrando em seguida que já caiu numa fake news: — Foi naquele período conturbado de 2013. Comecei ali a me atentar que o propósito é fazer a cabeça do leitor e peguei um ranço dessa cultura de ficar postando, compartilhando em redes sociais.

No Glaucio Gill, “Ltda.” está prestando serviço pela segunda vez. Em abril, estreou no Eva Herz, meses depois de começar a ganhar corpo. Em 2017, o Coletivo Ponto Zero decidiu montar seu segundo espetáculo e convidou Debora Lamm para a direção, que por sua vez, convidou Diogo Liberano. Passadas algumas reuniões para definir o tema, já no fim do ano, Diogo começou a produzir a sinopse da história de um jovem jornalista chamado para uma entrevista de emprego. Pensando tratar-se de uma agência de jornalismo, ele logo descobre que a tal organização é especializada em inventar e divulgar notícias com o objetivo de expandir o mercado dos clientes – inclusive políticos.

Para escrever o texto – o mais recente dos cerca de 30 que já fez para o teatro – o dramaturgo mergulhou no universo das fake news. Procurou estudar o máximo possível sobre o assunto e foi atrás de agências do ramo, descobrindo até que o Rio de Janeiro está entre as cidades que mais produzem notícias falsas no país. Tudo isso o fez construir uma trama o mais próxima possível da realidade, inclusive mencionando nomes de políticos, candidatos, partidos, jornais, o Ibope… Entretanto, após um consenso entre toda a equipe – contando inclusive os atores Brisa Rodrigues, Mônica Bittencourt, Leandro Soares, Lucas Lacerda e Orlando Caldeira – ficou decidido o seguinte:

O cenário é uma empresa especializada em inventar e propagar notícias falsas Fotos: Maurício Fidalgo/Divulgação

— A bandeira do espetáculo é a questão das notícias falsas, que é discutida do início ao fim. As fake news não são da direita ou da esquerda. É uma prática de todos os lados. A peça chama atenção para isso, e o espectador direciona para o seu universo. Se ele é favorável a um certo candidato, talvez seja bom observar mais as campanhas dele e do adversário, porque pode haver uma fake — alerta.

Mas e a prestação de serviço? Como o público de “Ltda.” costuma recebê-la? Diogo conta que costuma assistir às apresentações da plateia para poder analisar as reações dos espectadores. E tem de tudo!

— O retorno deles é sempre variado. Um movimento interessante que me deixa feliz é quando percebo que a peça conversa com as pessoas. Os espectadores ouvem “Rio”, “Centro”, “calor”… Isso já abre um espaço comum a eles. E tudo o que vem no decorrer acontece em diálogo. Durante a sessão, ouço falas breves de concordância, discordância ou uma reação às ações dos personagens. Uma vez, ouvi uma moça dizendo “estou de acordo” numa das cenas. Sinto que existe essa afinidade — finaliza.

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