‘A paz Perpétua’: montagem de Aderbal Freire-Filho potencializa texto com ótimas escolhas cênicas

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

É sempre interessante quando vemos o autor (ou neste caso, o tradutor) dirigir a peça que escreveu. Em outras palavras, quando texto e direção são da mesma pessoa, parece haver um consenso maior sobre os rumos da montagem.

Em cartaz no Teatro Dulcina, “A paz Perpétua” é um texto de Juan Mayorga, traduzido por Aderbal Freire-Filho, que também assina a direção e o cenário. A trama traz três cachorros, de personalidades completamente distintas, em um processo de seleção para uma agência de antiterrorismo. Neste processo, testes, provas, perguntas e, naturalmente, uma relação que se desenvolve entre os três na sala de espera. A seleção é conduzida por um quarto cachorro, Cassius, uma espécie de ídolo na área, e um humano, aparentemente empregado do cão.

A montagem coloca os atores entre cães e seres humanos: ficam em pé, usam roupas cotidianas, abrem geladeira, conversam com a erudição de uma pessoa inteligente; por outro lado, têm reações animalescas, rosnam, avançam no outro, sobem nas poltronas do cenário e, quando recebem certos comandos (como sentar, “juntar”, etc.), prontamente obedecem, sem qualquer tipo de questionamento, como se estivessem adestrados mesmo.

A montagem exalta e amplia o texto, nos seus aspectos mais marcantes, com destaque para a reflexão política (nada mais em voga no Brasil hoje) e, naturalmente, a originalidade da ideia de “homens-cães”. Até o cenário exaspera a tensão entre os três concorrentes, colocando-os em uma sala de espera, voltados uns para os outros, com poltronas grandes o suficiente para permitirem gestos e movimentações caninas sobre elas. A própria opção poética por atores em um meio termo entre homens e cachorros potencializa a animosidade, devido ao estranhamento – é como se esquecêssemos que eles são cachorros, e de repente vemos atos ou reações que nos surpreendem.

Diante da originalidade e contundência reflexiva do texto de Juan Mayorga, a decisão do tradutor-diretor-cenógrafo Aderbal Freire-Filho de colocar em alto-relevo especialmente estes dois aspectos do texto, e as opções cênicas feitas com este fim, foram, na minha opinião, as mais acertadas possíveis! Vale muito conferir!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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