‘A menina e a árvore’, com linguagem única, é pioneira e nostálgica ao mesmo tempo

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“A Menina e a Árvore”, em cartaz no SESC Tijuca, é a segunda peça da Cia de Teatro Manual, que em 2014 encantou o Rio de Janeiro com “Hominus Brasilis”, peça que contava a história da espécie humana, culminando com o homem brasileiro. Ao longo dos anos seguintes, “Hominus” colheu os frutos de sua qualidade e da linguagem inovadora que carregava, se apresentando em festivais pelo mundo. Agora em parceria com o Bando de Palhaços, “A Menina e a Árvore”, que tem direção de Matheus Lima carrega a mesma linguagem para o universo infantil, o que soma ainda mais cores a uma categoria já cheia de grandes exemplos, que vem a todo o vapor na cidade dos últimos anos!

Ao narrar a história de uma menina que anseia por conhecer o mundo para além do próprio quintal, “A Menina e a Árvore” coloca os atores não apenas na pele de personagens, como a menina, seu irmão, mãe e avô, mas também de animais, eventos naturais e sons. Todos estão ali em prol da história.

O cenário é uma plataforma de aproximadamente dois metros de comprimento; de resto, são os próprios atores. Os figurinos de Camila Nhari, assim como o visagismo de Mona Magalhães, fogem do figurativo, o que dialoga muito bem com a dinâmica de papéis que se alternam, não prendendo o elenco a uma única digital. A iluminação de Ana Luiza de Simoni ajuda muito na narração, principalmente quando diferencia visões de perto e de longe.

Os atores Dio Cavalcanti, Helena Marques, Mariana Fausto e Tiago Quites entregam-se completamente à tarefa de ser além de seus próprios personagens. São vento, folhas que caem das árvores, suor… mas são também a menina vista de longe, a montanha que ela escala e o rio que ela nada. São tudo que a história narra, e sempre com humor, sempre brincando.

“A Menina e a Árvore”, ao mesmo tempo em que inova, trazendo uma linguagem que coloca todos os atores e seus corpos à disposição da história a ser contada, retoma um princípio antigo, hoje em desuso, de valorização de cada etapa do amadurecimento da protagonista. A peça faz isso com maestria, suspendendo tempo e ação em momentos de maior importância para a menina (como quando ela atravessa o portão de sua casa, ponto que nunca havia ultrapassado) e acelerando os mesmos momentos de menor relevância, que não representam um rompimento de obstáculos.

Pioneira e nostálgica ao mesmo tempo, “A Menina e a Árvore” nos lembra a riqueza dramática de uma jornada pessoal, independentemente de seu escopo.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE