‘A Lenda do Sabiá’ – Um Espetáculo bem brasileiro (e bem muitas outras coisas boas)

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

A tristeza, às vezes, ampliada para “raiva”, quando deixo um teatro, após ter assistido a uma “superprodução”, com orçamento milionário e um elenco estelar, com muitos patrocínios, e de ruim ou, até mesmo, péssima qualidade só é proporcional à alegria, à imensa alegria, que toma conta de mim, quando vejo um espetáculo modesto, montado com parcos recursos, mas com muito sacrifício, dedicação, bom gosto e criatividade, como a peça que vi, em junho deste ano (2017), “A LENDA DO SABIÁ – UM ESPETÁCULO BEM BRASILEIRO”, que, felizmente, voltou cartaz no Teatro Serrador.

O espetáculo é uma idealização do ator ANDRÉ ARTECHE, que também o dirige e compôs a trilha sonora original. É uma produção da CIA OS ABORÍGENES DE TEATRO.

O “gênero” da peça, que consta na ficha técnica, não poderia ser outro: teatro de cordel; daí a sua grande brasilidade.

Chamo a atenção dos leitores para um detalhe muito importante, a respeito da peça, que, certamente, despertará a curiosidade de todos e levará muita gente ao simpático teatro da Cinelândia, para conferir a sua boa qualidade: a montagem deste musical contou com a benção de, nada mais, nada menos, que Ariano Suassuna, com quem ANDRÉ esteve, em Recife, pouco antes do lamentável falecimento daquele gênio.

Suassuna leu o texto, os dois conversaram sobre os planos para a sua montagem e Mestre Ariano gostou do que leu e incentivou a concretização do sonho de ANDRÉ, em seu primeiro texto e primeira direção. Para esta, contou o diretor com a co-participação de PRISCILA VIDCA.

No palco, dez atores/músicos contam, em versos, como folhetos de cordel, a lenda de SABIÁ,“um sanfoneiro que é acusado, injustamente, por um crime e, em um vivaz realismo fantástico, volta à vida, transfigurado em um homem pássaro”, segundo o “release”da peça.

Extraído do referido “release”: “O espetáculo, que tem suas raízes na literatura de cordel, é uma comédia, que fala sobre o Brasil e faz um tributo a romancistas que são referência, ao retratarem o folclore e o regionalismo do país, como Mário de Andrade (1893/1945) e Ariano Suassuna (1927-2014), e seus personagens, como Macunaíma e João Grilo, bem como o compositor Luiz Gonzaga (1912/1989), dentre muitos outros autores brasileiros.”

                                                                                               SINOPSE

SABIÁ (ANDRÉ ARTECHE), sanfoneiro, morador do sertão baiano, é acusado por um crime que não cometeu, e dois matadores vão ao vilarejo, para jurar vingança.

Encontros e desencontros envolvem os moradores da região e, ao final, SABIÁ, apaixonado por NEUZINHA (ROSE LIMA), sendo correspondido por esta, é capturado e morto, mas volta à vida, com a magia de MÃE PAINHA (FRANCISCO SALGADO), rezadeira da região.

Teatro de cordel, recheado de realismo fantástico, inspirado nas grandes obras do folclore e da comédia popular.

O advérbio “bem”, utilizado no subtítulo da peça (“bem brasileiro”), com sentido de intensidade, pode ser aplicado a outras qualidades do espetáculo: bem simples, bem bonito, bem singelo, bem lírico, bem leve, bem montado…

É tão bom deixar um teatro com a sensação de que valeu a pena ter saído de casa, de tão longe, para ver um trabalho de tamanha qualidade, principalmente por sua simplicidade!

É difícil acreditar que este seja o primeiro texto de ANDRÉ ARTECHE, por ser tão bem escrito e, como se não bastasse isso, todo em versos, o que é uma prova cabal de que uma nova carreira surge para o bom ator, que já é. Gaúcho que escreve com a linguagem do nordestino. Pode parecer estranho, porém as características regionais da fala do nordeste lá estão, na boca de cada personagem, fruto, evidentemente, de uma boa pesquisa.

A direção, que ANDRÉ também assina, com a co-direção de PRISCILA VIDCA, é muito interessante: dinâmica, extremamente criativa e apresentando ótimas soluções, como a utilização de arcos, enfeitados de fitas, que se transmutam em vários objetos e são utilizados das mais diferentes maneiras, todas muito imaginativas, inventivas, engenhosas…

Não pensem que vão encontrar um cenário luxuoso, com escadarias, elevadores e elementos que sobem e descem, que entram em cena, causando grandes impactos aos olhos, como ocorre nos musicais milionários. Nada disso. Verão, apenas (e o “apenas”, aqui, não quer dizer “pouco”) um trabalho lindo, pleno se singeleza, colorido e alegre, feito com elementos simples, confeccionado com materiais de baixo custo, como bambu, madeira e fitas em profusão, produzindo, o conjunto, um deleite para os olhos, além de servir bem à proposta cênica. Belo trabalho de PAULO DENIZOT, que valoriza sua própria obra, fazendo dobradinha com uma bonita iluminação.

Por ser um musical, o espetáculo precisa de alguém que se responsabilize por essa parte, harmonizando os sons dos instrumentos (sanfona, violão, rabeca e instrumentos de percussão, como zabumba, caixa e chocalhos), todos executados, ao vivo, pelos atores, com suas vozes, nas muitas canções que permeiam o espetáculo. Essa responsabilidade, que culmina com um bom trabalho, é de DIOGO BRANDÃO.

Os lindos figurinos são da vitoriosa CAROL LOBATO e trazem a sua marca de bom gosto, leveza e funcionalidade.

Quanto ao elenco, em ordem alfabética, formado por ALINE CARROCINO MARINEIDE), ANDRÉ ARTECHE (SABIÁ) ARI GUIMAS (CANTADOR, MENESTREL), EDER MARTINS DE SOUZA (JOÃO BAPTISTA), FRANCISCO SALGADO (MÃE PAINHA), NELITO REIS (MATADOR), PEDRO MAIA (JOSINALDO), RICARDO LOPES (FARO RASTEIRO), ROSE LIMA (NEUSINHA) e VALÉRIA ALENCAR (DONA ENTRONA), verifica-se uma grande homogeneidade entre todos, com cenas de destaque para alguns deles. Sobressaem-se pelas características individuais dos personagens que defendem, além de se revezarem na execução de instrumentos musicais, que apoiam as lindas canções da trilha sonora.

Um belo trabalho de grupo!

Nota-se a paixão e o prazer de todos postos naquilo que estão fazendo, gerando uma energia que contagia a plateia.

O voo e o canto da ave, o sabiá, que é símbolo do Brasil, estão lá, no palco do Teatro Serrador, para nos receber, encantar e fazer com que nos lembremos de um Brasil ingênuo, puro, tão esquecido, mas que merece ser resgatado – e tem de ser – para a nossa alegria e orgulho, via TEATRO.

Recomendo, com bastante empenho, este espetáculo!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

 

PUBLICIDADE